Cassilândia
A voz das mãos: Libras e o desafio da inclusão educacional em Cassilândia
Entrevista com professoras e alunas surdas revela que a Língua Brasileira de Sinais é regional, visual e fundamental para a autonomia desde a infância.

A edição de 3 de julho de 2026 do Programa Rotativa no Ar, da Rádio Patriarca, promoveu um debate profundo e esclarecedor sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras), reunindo especialista e alunas para discutir a realidade da comunidade surda em Cassilândia. Participaram da mesa redonda a professora Graciele Leonel de Queiroz, com 22 anos de experiência na área, a professora surda e fisioterapeuta Rafaela Rezende de Araújo, e a estudante de 11 anos, Alice Alves de Freitas.
Identidade e terminologia correta
Um dos primeiros pontos esclarecidos durante a entrevista foi a terminologia adequada: o termo correto é "surdo", e não "surdo-mudo". Conforme explicado, a pessoa surda não fala apenas porque não ouve, mas possui uma língua própria e plenamente funcional para se comunicar.
A regionalidade da Libras
Diferente do que muitos acreditam, a Libras não é universal. Ela é uma língua regional, o que significa que os sinais podem variar significativamente entre diferentes estados do Brasil. Foi relatado, por exemplo, que alunas vindas de Goiás para o Mato Grosso do Sul enfrentaram barreiras iniciais de comunicação devido às variações na sinalização entre as duas regiões. Historicamente, a Libras foi introduzida no Brasil por iniciativa de Dom Pedro II, que trouxe um professor da Europa para ensinar membros surdos de sua família.
O desafio da educação e inclusão
No ambiente escolar, o processo de aprendizagem para o aluno surdo é intensamente visual. A professora Graciele detalhou que as adaptações pedagógicas precisam unir três elementos fundamentais: a imagem do objeto, a escrita em língua portuguesa e o sinal em Libras. Atualmente, o sistema de ensino funciona com a presença de um tradutor e intérprete em sala de aula, que adapta o conteúdo ministrado pelo professor regente (como matemática, história e geografia) para a língua de sinais em tempo real. No contraturno, os alunos recebem atendimento especializado para o aperfeiçoamento da própria Libras.
Histórias de Superação e Cotidiano
A trajetória das convidadas ilustra a superação de barreiras:
Graciele Leonel: Iniciou seu interesse pela Libras há mais de duas décadas por influência de familiares surdos que utilizavam apenas "gestos caseiros". Após formar-se em pedagogia, dedicou-se à especialização contínua, ressaltando que a fluência exige prática constante e contato direto com a comunidade surda.
Rafaela Rezende: Professora surda cuja condição foi decorrente de rubéula contraída pela mãe durante a gestação. Além de atuar na educação, Rafaela é formada em fisioterapia. Ela compartilhou detalhes de sua vida pessoal, mencionando que é casada e possui um filho de quatro anos que, apesar de ser ouvinte, já aprende a se comunicar com a mãe através de sinais básicos.
A entrevista reforçou que, para o surdo, a Libras é a primeira língua, enquanto o português é aprendido como um segundo idioma, tornando-os, na prática, bilíngues dentro de sua própria cultura. Confira a íntegra da entrevista:
