Cassilândia, Sábado, 16 de Dezembro de 2017

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22/12/2006 08:09

O recado do Cheida

‘Ses dias’ embarquei sem querer numa conversa enviesada, como vento de mau jeito, entre um pé de árvore do quintal de casa e eu.

Não estranhe porque, aqui nesta coluna, árvore e bicharada podem falar. Sem constrangimento. Sem comedimento. Sem consentimento.

Danada, aquela árvore. Tortinha, perebando fungo num tronquinho fino, arqueado sobre as balaústras da cerca, uns galhinhos pra cá, um chumacinho de folhas pra lá... Mas, firme de prosa.

E foi ela quem começou:

- O sr. pode me passar o gás carbônico?

Olhei de lado, por prevenção chutei o gato (que outra vez falou só miau) e fiz de conta que não era comigo.

- O gás carbônico, por favor?

- Olha, senhora, se é comigo, seja explícita – falei, num galope de coragem, torcendo a cabeça de lado e olhando firme para o chão. Quando tenho que encarar, encaro.

- Por educação, se eu lhe passo o oxigênio, o senhor deveria me repassar seu gás carbônico.

Mas que conversa de restaurante fino era aquela, no fundo do meu quintal?

- Perdoe-me, não havia compreendido – respondi, certificando-me que ninguém, a não ser o gato, me ouvia.

- Não há de quê. Estamos tão habituados com o que funciona que nem nos damos conta. As pessoas se esquecem que o normal é que é extraordinário.

Como não gosto de enrolação, larguei as folhas da conversa e fui direto à raiz:

- Mas, o que há de extraordinário em trocar gases com a senhora?

O gato, por cautela, sumiu.

- Se eu disser que mitocôndrias e cloroplastos são duas estruturas, especializadas em conversão de energia, e que, enquanto o senhor tem mitocôndrias, eu tenho cloroplastos, o senhor não acharia graça nenhuma.

- Tem razão – retruquei, com imensa sabedoria.

- Pois vou lhe contar que meus cloroplastos usam luz para fazer açúcar. Que este açúcar é quebrado nas suas mitocôndrias, produzindo água e gás carbônico. E que é exatamente disso que eu necessito.

Chumbo trocado, pensei. Porém, antes de responder ligeiro, fiz de conta que matutava um pouco, deixando patente que também sei fazer minhas contas.

- É, disparei, com sapiência.

O sol, mesmo já tendo licença para entrar, estava ali parado, quietinho, atrás dos pés de manga, escutando tudo.

- É?! Que profundo! É só isso que o senhor responde?

- Desculpe, estou tão embaraçado... Afinal, aqui em pé, conversando com uma árvore. Não é comum para mim. Dá para a senhora entender?

Desenvergando da cerca, ela ficou em silêncio e, depois, falou com uma voz encharcada de doçura:

- Estas estruturazinhas que nem enxergamos, que quase ninguém sabe os nomes, ou sequer que existem, garantem este jogo de ganha-ganha.

- Jogo de ganha-ganha? – a voz saiu correndo, lá da escuridão do poço da minha ignorância.

- Você e eu somos seres tão distintos e distantes. Você é um animal e eu, vegetal. Só ganhamos porque nos auxiliamos mutuamente. O que eu produzo é para o seu querer e a sua vida é quem garante o meu viver.

Não sei se porque eu estava mudo de emoção mas ela, passando por cima dos meus olhos marejados, continuou:

- Ensinam por aí que competindo, vencemos. Mas, para que uns vençam, outros têm que perder. É uma lógica estúpida. As suas mitocôndrias e os meus cloroplastos já superaram o dilema. Há bilhões de anos descobriram meios mais simples e eficazes de se alcançar os objetivos: a ajuda mútua.

- A lógica de um mundo solidário? – perguntei, como quem exclama.

Mas ela não falou mais nada.

Enquanto o sol ainda esticava o pescoço por sobre os pés de manga, para pegar mais uma palavra, a noite despontava, resfolegando atrasada.

E eu, em pé no fundo do quintal, não parava de pensar:

- A lógica de um mundo solidário!

Talvez, porque seja Natal, achei a conversa com pé e com cabeça.

Arvorezinha danada!

Cadê meu gato?



Feliz Natal para você, toda a sua família. Um forte abraço e até sexta que vem.

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