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17/01/2004 09:53

O que está acontecendo com a ferrugem da soja em MS

Embrapa

A ferrugem da soja (Phakopsora sp.) foi detectada nos municípios de Chapadão do Sul e Costa Rica, no nordeste de Mato Grosso do Sul, em dezembro de 2003, em lavouras que já haviam atingido a fase reprodutiva de desenvolvimento. Da detecção até o presente momento, entretanto, a doença vem progredindo com baixa incidência e menor severidade ainda, sendo necessário, comumente, analisar várias folhas das amostras coletadas no campo, para observar apenas algumas escassas lesões, em uma ou outra folha.
Em trabalhos conduzidos pela Fundação Chapadão/Embrapa Agropecuária Oeste, em Chapadão do Sul, na área experimental da Fundação Chapadão, focos da doença detectados há 20 dias atrás não progrediram como se esperava, permanecendo estagnados. Não ocorreram alterações significativas nas condições ambientais, comparativamente às safras anteriores, que pudessem justificar tal comportamento. O que estaria ocorrendo? Em contato com colegas que têm acompanhado o desenvolvimento da ferrugem na região centro-sul de Mato Grosso do Sul, onde a doença já foi constatada nos municípios de Dourados, Maracaju, Ponta Porã, Antônio João, Aral Moreira e Jardim, recebemos a informação de que o comportamento da mesma tem sido semelhante. Com base nesses fatos verificados até então, julgamos por bem modificar o critério que estávamos utilizando no processo de tomada de decisão para o início do controle químico com fungicida, em áreas afetadas. O procedimento que vinha sendo adotado consistia na aplicação de fungicida ao primeiro sinal de aparecimento da doença, mesmo que em baixa intensidade (incidência e severidade). Na fase vegetativa o fungicida recomendado era do grupo dos triazóis e a mistura de triazol com estrobilurina se a cultura já estava no estádio reprodutivo (a partir de R1). Agora, a nossa posição é a seguinte: enquanto a doença estiver se comportando dessa forma, recomendamos que, uma vez detectada a doença, avaliar freqüentemente a cultura, a partir de plantas marcadas na área/talhão atingidos, a fim de que se possa saber se a doença está progredindo ou não, o que pode ser averiguado pelo aumento no número de lesões nestas plantas. Se a detecção for feita no início da fase reprodutiva e a doença não estiver avançando nas plantas marcadas, adia-se a aplicação do fungicida até que sejam verificadas mudanças no comportamento da doença. Do contrário, se isto não acontecer, aguarda-se o estádio da cultura preconizado para a realização do controle das doenças de final de ciclo.


Hipóteses para a baixa intensidade da ferrugem na safra atual


Em trabalhos conduzidos pela Fundação Chapadão/Embrapa Agropecuária Oeste, na safra 2001/2002, quando houve grande epidemia de ferrugem na região, verificou-se um comportamento diferenciado das cultivares em relação à incidência e severidade da doença, isto até uma determinada fase do desenvolvimento das plantas. A partir do período que ultrapassava a metade da granação, essa diferença já deixava de ser perceptível. Acreditamos que a partir desta fase, aconteça alguma mudança na fisiologia da planta, mais precisamente, nos seus mecanismos de defesa, fase em que ocorre grande demanda por fotoassimilados e nutrientes para o enchimento de grãos,que possa provocar drástica redução na sua capacidade de deter o avanço rápido da doença. Vale ressaltar que, sob condições de alta pressão de inoculo, é possível que esse rápido progresso da doença aconteça antes da meia granação.

Safra 2001/2002 x 2003/2004

Na safra 2001/2002 ainda não conhecíamos a doença e só a detectamos em final de fevereiro de 2002, quando a maioria das lavouras já se encontrava em adiantado estádio de desenvolvimento fenológico e a pressão da doença já era muito alta, tanto por causa das condições de ambiente altamente favoráveis ao seu desenvolvimento, quanto pelo fato do hospedeiro encontrar-se desprotegido. A não utilização de fungicida para controle de doenças de final de ciclo (DFCs) e a utilização de fungicida sem eficiência no controle de ferrugem contribuíram sobremaneira para esse aumento de inóculo na ocasião. Em levantamento por nós efetuado, nas principais revendas da região, verificamos que cerca de 75% dos fungicidas comercializados na safra 01/02 para o controle das DFCs pertenciam ao grupo dos benzimidazóis, que não são eficientes no controle da ferrugem, o que permitiu que a mesma ocasionasse perdas médias em torno de 13% nos municípios de Chapadão do Sul, MS, e em Chapadão do Céu, GO.
Na safra atual estamos fazendo o acompanhamento sistemático desde o aparecimento da doença.

Safra 2002/2003 x 2003/2004

Na safra 2002/2003, a ferrugem da soja só foi detectada em nossa região em final de janeiro de 2003, época esta em que a maioria das lavouras já se encontrava protegida com fungicidas utilizados para controle de doenças de final de ciclo e também eficientes no controle da ferrugem (em levantamento por nós efetuado, nas principais revendas da região, verificamos que cerca de 80% dos fungicidas comercializados na safra 02/03 para utilização em aplicação foliar na cultura da soja eram eficientes no controle da ferrugem). Não tivemos problema com a ferrugem nessa safra e experimentamos os melhores rendimentos de todas as safras colhidas na região.
Em contrapartida, lavouras no norte do Mato Grosso, Barreiras na BA e no entorno do Distrito Federal, tiveram drásticas reduções de produtividade, devido principalmente à detecção tardia da ferrugem (controle tardio é ineficiente, como mostra trabalho publicado na circular técnica n. 11, Ferrugem Asiática: uma ameaça a sojicultura brasileira, Embrapa Agropecuária Oeste, Novembro de 2002).
Na entressafra de 2003, o cultivo de soja sob pivô na região do cerrado, no projeto Rio Formoso em Tocantins e até mesmo lavouras de soja da Bolívia, funcionaram como “ponte verde”, termo utilizado com muita propriedade pelo Prof. Dr. Erlei de Melo Reis, multiplicando a ferrugem nessa época do ano e favorecendo sua passagem para a safra atual (Norte de Mato Grosso, detecção em outubro de 2003 e em nossa região, a primeira detecção se deu em dezembro do mesmo ano).
A expectativa é que nas lavouras estabelecidas mais tardiamente, a cultura fique sujeita a uma maior pressão de doença, devido à multiplicação de inóculo nos plantios anteriores.
Por se tratar de doença nova em nosso país e pelo ainda pouco conhecimento que se tem a seu respeito, muitos estudos ainda são necessários para a possibilidade de convivência sustentável com a mesma. Portanto, é fundamental que se acompanhe de perto a lavoura para não se ter problemas com o manejo da doença

Trabalho de :
Paulino José Melo Andrade – Eng. Agro, M. Sc. Fitopatologia, Embrapa Agropecuária Oeste/Fundação Chapadão
Donita Figueiredo de Alencar Araripe Andrade – Eng. Agra, M. Sc. Fitopatologia, Fundação Chapadão

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