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30/08/2013 08:00

Nossas perdas

João Bosco Leal*

Na cultura competitiva em que somos criados, o sentimento de perda, em qualquer aspecto, é de aceitação extremamente difícil para todos, a ponto de, ainda muito pequenos, não gostarmos que outras crianças, por mais próximas que sejam, peguem nossos brinquedos, roupas, ou qualquer coisa que consideramos "nossa".

Isso sempre ocorreu com coisas que as crianças atuais sequer conheceram, como uma bolinha de gude, as bonecas de pano anteriores à era Barbie, um peão, uma casinha de bonecas, um papagaio, um carrinho de rolimã, um trenzinho elétrico, as figurinhas dos álbuns ou qualquer outro brinquedo das crianças da minha geração ou anteriores.

Em seguida, as disputas ocorriam nas mais diversas áreas, como natação, judô, balé, e também aí aqueles que perdiam ficavam muito tristes e até choravam por haverem perdido para outras crianças da mesma idade. Na escola elas eram pelas notas, pela escolha de quem participaria do time de futebol, da representação teatral ou da apresentação de balé.

Na juventude, pela pessoa por quem estávamos "apaixonados", e a perda de uma paixão para outro jovem era bastante dolorosa para aqueles ou aquelas que a perdiam. O sentimento de "perda" daquela pessoa podia, inclusive, criar barreiras psicológicas que dificultavam novas buscas, pelo medo de novamente se passar por aquela situação.

Já na fase adulta, as paixões são aquelas que podem ser sentidas de forma alegre, divertida e por dezenas de vezes durante a vida, que provocam muita felicidade em quem as vive, e só se sente sua perda até o início da próxima.

Poucos, entretanto, são os que conseguem transformar essa paixão em um amor verdadeiro, aquele para quem se deseja dar mais do que receber. Alguém de quem se quer a companhia em todos os momentos de nossas vidas, ao lado de quem nos sentimos em paz, que nos entende, apoia, protege e satisfaz. A pessoa com quem desejamos estar até os últimos dias de nossa vida.

Mas nenhum desses sentimentos provoca tanto impacto na vida de uma pessoa como a morte de um ente querido muito próximo, seja seu amor, o pai, a mãe, um irmão ou filho. Por mais que, desde o nascimento, saibamos que isso ocorrerá, esse é um sentimento que, quando acontece, provoca extrema dor.

Os ocidentais estão culturalmente menos preparados para a morte que os orientais e em decorrência disso, essa ocorrência neles provoca dores imensuráveis e reações individuais distintas, que os afetarão pelo resto de suas vidas.

Milhões já passaram pela vida sem nenhuma perda importante, muitos perderam bastante, mas outros ainda não sentiram algo tão profundo como a morte de quem ama.

Quando um relacionamento onde existia um amor verdadeiro chega ao fim, raramente um deles consegue encontrar um novo amor como aquele, mas quando um dos dois morre, é muito comum o breve falecimento daquele que ainda sobrevivia. Muito difíceis são também as mortes dos pais e irmãos, mas pior ainda é a de um filho, pois pelo menos cronologicamente, ela é inimaginável.

Entretanto, a única maneira para os que já os perderam poderem sobreviver, é olhar para os lados, pois perceberão que milhões perderam ainda mais, em quantidade ou em proximidade. Os que perderam o pai, verão que muitos perderam pai e mãe no mesmo instante e os que perderam um filho, verão que muitos perderam vários, ou todos eles.

Muitos já perderam muito, mas pouco, diante dos que já perderam mais.

João Bosco Leal * www.joaoboscoleal.com.br

*Jornalista e empresário

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