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09/12/2015 08:28

Impedido de entrar por decisão judicial, "menino árvore" dorme no portão de casa

Paula Maciulevicius, Campo Grande News
Do portão para cá ele não pode entrar, mas de longe, ela faz a guarda para levar comida. (Foto: Gerson Walber)"Do portão para cá ele não pode entrar", mas de longe, ela faz a guarda para levar comida. (Foto: Gerson Walber)

 

Não é só para a fotografia que dona Esmeralda arrasta a cadeira e se senta em frente à porta de casa. É assim que ela passa os dias - um olho na televisão e outro no portão - cuidando se o filho aparece lá na frente. O coração de mãe sabe que ele está do outro lado da rua. Que se tornou o "menino árvore", como chamam os vizinhos. Júlio César tem 41 anos e é impedido, por decisão judicial de entrar em casa.

Há 7 anos, a mãe apanhou fisicamente, depois de tanto sofrer com as alterações do filho em casa por causa do uso de drogas. A brutalidade lhe quebrou "o peito e uma costela", como ela mesma conta. Dona Esmeralda tem 84 anos, uma saúde de ferro e uma força como quem conta uma história da novela mexicana que assiste à tarde, e não a sua própria.

"Ele dorme lá, na rua. Levo café da manhã, almoço e janta. Lavo as roupas dele..." descreve Esmeralda Maria da Cruz. Como toda mãe, ela enxerga primeiro as qualidades do filho, mesmo que há 30 anos ele esteja nas drogas. "Ele tem o segundo grau e o curso do Senai completo".


A história começou quando Júlio César tinha 12 anos. Ela acredita que por influência de amigos de uma lan house próxima à casa, ele se viciou nas drogas. "Ele ainda era um garoto, eu não entendo nada disso e quando me abriram os olhos, o negócio estava velho", conta.

O filho passou por tudo quanto foi clínica da cidade ao longo dos anos. Até que apontaram outro diagnóstico: além do vício ele tinha esquizofrenia. "Tem dia que ele grita, grita aqui. Ficou doente, já foram três, quatro passagens pelo Nosso Lar. Ele saía de lá melhor, mas passava um tempo, voltava outra crise", lembra.

Os "sumiços" em casa começaram pelas roupas, dona Esmeralda percebia que as vestes foram sumindo. Ele vestia mais de uma e trocava nas ruas por droga. A agressividade diária terminou na violência. Ela não suportou e foi até o fórum. "Contei tudo para o juiz, dei parte dele e um oficial de Justiça foi em casa. O juiz me falou que ele ia acabar me matando, 'que esse povo tão cego, mata qualquer um'", repete.

Do portão para cá ele não pode entrar, mas de longe, ela faz a guarda para levar comida. (Foto: Gerson Walber)
"Do portão para cá ele não pode entrar", mas de longe, ela faz a guarda para levar comida. (Foto: Gerson Walber)
Tem dias que o filho está bom, em outros, não. Xinga, bate, grita. Como nessa terça, em que a família teve de chamar o Samu.

"Do portão para cá ele não pode entrar", repete por várias vezes a dona Esmeralda. A senhorinha explica que pensou que a decisão da Justiça o levaria para algum lugar, mas que forçado, nem Polícia e nem juiz podem fazer nada e por livre e espontânea vontade, Júlio não vai.

Ao longo dos 7 anos em que saiu de casa, a mãe pagou quarto, alugou casinhas e tentou dar estrutura para o filho, mas ele destrói ou ameaça por fogo. Um ano atrás que Júlio voltou, de vez, até onde pode entrar: a calçada da casa. "Tem dia que ele amanhece deitado em cima de uma pedra, aí na rua", a mãe descreve a cena penalizada e dizendo que só queria um lugar para ele. Os medicamentos para a esquizofrenia, o rapaz não toma. De jeito nenhum, nem se misturar na comida.

A "luta" não é de agora e quase no final da conversa que a gente entende quem é Júlio. Dona Esmeralda teve apenas duas filhas, se separou do então marido porque ele bebia muito. Foi para o Rio de Janeiro onde conheceu outro rapaz, o trouxe para Campo Grande, mas de início o relacionamento não deu certo.

"Depois ele voltou, com o menino, sobrinho dele de 1 ano e seis meses e ele nunca me ajudou aqui", fala. A criança era Júlio, criado como 'sobrinho', amado como filho.

O sentimento dela em relação a tudo? Impotência, se ela se lembrasse dessa palavra primeiro. Mas na sequência vem: aborrecimento, tristeza. Quando chove ela não dorme, anda de um lado para o outro pensando em quem está lá fora.

"Minha luta é uma guerra, porque uma hora pode acontecer uma coisa com ele que eu não sei. Esses dias machucaram a mão dele", lembra. O filho, segundo Esmeralda, não é agressivo, não rouba e só aceita o que dão a ele de coração. "Ele sempre me chamou de tia, desde pequeno e até hoje. Só quando está revoltado que quer me bater e eu não quero agredir ele com palavras. Falo para ele ficar quieto, ficar calmo, saio e deixo ele lá".

Deixa, mas fica cuidando de longe, o tempo todo.

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