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27/08/2005 11:22

Entenda como acontece um Kuarup

Spensy Pimentel/ABr

Alto Xingu – Na última quinta-feira (25), durante todo o dia, os Kuikuro, junto com seus aliados Kalapalo, prepararam a recepção para os convidados das demais aldeias do Xingu, com beiju, mingau de farinha de mandioca e peixe moqueado (assado e defumado sobre uma grelha). Esse processo envolve centenas de pessoas. A mandioca é fornecida pelo familiar mais importante do principal morto homenageado – no Kuarup que terminou ontem, era Jakalo, um dos chefes kuikuro, filho de Nahu e Sesuaká, que morreram recentemente.

Enquanto isso, os xamãs e familiares dos mortos homenageados trouxeram do mato os troncos cortados da árvore de uma determinada espécie (é chamada de kuarup pelos Kamayurá, um dos 14 povos do Alto Xingu). Segundo a mitologia xinguana, foi dessa árvore que o criador dos homens "fez as mulheres e as enviou para se casarem com o jaguar (onça)", como explica texto na página do Instituto Sócio-Ambiental na internet.

Os troncos foram fincados abaixo de uma pequena cobertura de taquara, ao lado da casa dos homens (ela guarda as flautas rituais, que não podem ser vistas pelas mulheres e fica no centro do pátio da aldeia). Depois, foram pintados e enfeitados como um xinguano. Há uma decoração para os homens e outra para as mulheres, dependendo do morto que representam.

Enquanto acontece a preparação da festa, homens portando as flautas duplas conhecidas como atanga, segundo o antropólogo Carlos Fausto, iam de maloca em maloca na aldeia em companhia das adolescentes que saem da reclusão ritual no final da festa. A reclusão das moças acontece na época em que elas têm a primeira menstruação e marca a passagem entre a infância e a
vida adulta – ao final do ritual, elas estão prontas para casar-se.

Depois que os troncos foram preparados, no início da noite, os familiares dos mortos sentaram-se ao redor deles e começaram a chorar por eles, o que durou toda a madrugada. Enquanto isso, uma dupla de xamãs permanecia rezando e tocando seus maracás. As comunidades convidadas para o Kuarup acamparam na mata próxima à aldeia. À noite, um grupo por vez, os homens convidados iam chegando à aldeia fazendo barulho e cantando para pegar tições de pequenas fogueiras rituais produzidas pelos anfitriões no pátio central da aldeia, ao lado dos troncos.

Ontem (26) pela manhã, uma ou duas horas depois que o sol raiou, as comunidades convidadas começaram a chegar ao pátio da aldeia. Muitos vieram de caminhão ou em bicicletas, que deixavam ao lado das bolsas em torno da região central do pátio de Ipatse. Logo depois, começou a disputa do huka-huka, competição tradicional entre os xinguanos. O nome, segundo o texto do ISA, é de origem kamayurá e "lembra os gritos dos lutadores ao se defrontarem imitando o rugido da onça".

Para a luta, os homens se untam com óleo de copaíba, pasta de urucum e pequi. Eles também se submetem previamente a arranhões feitos nos braços com o dente de um peixe chamado "cachorrinha" e dizem tomar eméticos e se untar com ervas que aumentam sua força. As lutas aconteceram entre representantes das diversas aldeias presentes ao Kuarup hoje, como Aweti, Kamayurá, Waurá e Mehinaku.

Após as lutas, as moças que estavam em reclusão na aldeia foram apresentadas aos visitantes. Uma delas chegou a se casar, no início da tarde. Acompanhada do tio do noivo, ela seguiu até a casa dele, para pegar sua rede e levá-la até a casa da família dela, onde ele passa a morar.

A página do ISA na Internet traz interpretação do Kuarup feita pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: "Em geral, o que se faz nesses rituais interaldeias é algo que está descrito em um mito, mas que não é apenas uma simples repetição ou encenação sua. O que o rito celebra, de fato, é a impossibilidade de uma repetição idêntica: ‘agora só vai ter festa’, disse o demiurgo(espécie de herói criador) ao fracassar na tentativa de ressuscitar os primeiros seres humanos que morreram, inaugurando assim a mortalidade (...). A fabricação primordial dos humanos, de acordo com a mitologia alto-xinguana, foi obra de um demiurgo que deu vida a toras de madeira dispostas em um gabinete de reclusão, ao soprar-lhes fumaça de tabaco. Assim foram criadas as primeiras mulheres, entre elas a mãe dos gêmeos Sol e Lua, arquétipos e autores da humanidade atual. Em homenagem a essa mulher foi celebrada a primeira festa dos mortos, que é a mais importante do Alto Xingu e que consiste, portanto, em uma reencenação da criação primordial, sendo também o momento privilegiado de apresentação pública dos jovens recém-saídos da reclusão pubertária. Assim, é um ritual que enreda a morte e a vida; as moças que saem da reclusão são como as primeiras humanas, mães dos homens".

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