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08/03/2009 13:12

Busca de status leva cada vez mais mulheres para o crime

Isabela Vieira, ABr

Rio de Janeiro - “Mulher adora bandido. Nossa Senhora... fica até mais bonito. Fica lindo, poderoso... Tem um cargo. As meninas da favela não têm condições de bancar Gang, PXC [roupas de marca]... Bandido pode”. A declaração é de uma carioca de 17 anos e consta do relatório “Por trás do Silêncio: Experiência de Mulheres com a Violência Urbana no Brasil”, divulgado pela Anistia Internacional.

O relato da garota dá uma idéia da complexa relação entre as mulheres e o tráfico de drogas, que leva a cada ano mais mulheres às prisões. Elas não são atraídas apenas por dinheiro, mas por status. Prestígio que tem preço alto. Nas mãos de bandidos, passam a ser troféus ou moeda de troca. A informação é do relator da Anistia Internacional para o Brasil, Tim Cahill.

Em entrevista à Agência Brasil, ele analisou como a criminalidade se apresenta como alternativa de sobrevivência em lugares socialmente excluídos. Cahill, que visitou periferias de seis cidades brasileiras para composição do relatório, constatou que muitas mulheres optam pelo crime para sustentar a família e ficar perto dos filhos. Outras, porém, buscam status e acesso a bens materiais.

Para o relator, a relação das mulheres com o tráfico, no entanto, não deve ser vista apenas no âmbito da segurança pública, pois é preciso haver mudanças de ordem cultural. Segundo ele, por trás do envolvimento com a criminalidade, muitas vezes, estão mulheres vítimas de estigmas, que enfrentam, inclusive, o sexismo dentro do crime.

“Para os homens que vivem em espaços onde lhes é negada a auto-estima, [o crime] é uma realidade, mas claramente para as mulheres, que têm chances de melhorar a qualidade de vida – o que pessoas em situações mais confortáveis não aceitam e não entendem”, afirmou. “Isso não é uma justificativa, mas um entendimento para compreender porque tantos jovens optam por essa forma muitas vezes violenta e perigosa de melhorar sua condição social.”

Cahill também lembra que, mesmo dentro de organizações criminosas, mulheres também são vítimas da discriminação.“O machismo é muitas vezes é ignorado ou diminuído por ser uma questão cultural, mas é uma questão que os movimentos sociais não dão conta de mudar e exige uma educação.... A violência tanto da parte da polícia quanto do tráfico só reproduz a mesma discriminação que a sociedade produz”, disse.

A coordenadora da organização não-governamental Crioula, Jurema Werncek, que trabalha com mulheres vítimas de violência no Rio, também reforça a tese da baixa auto-estima e da inferiorização pelo machismo como motivo para ingresso no crime. “Todo mundo sabe que as mulheres ligadas ao tráfico gozam de um certo prestígio. Na verdade, uma versão distorcida de prestígio, mas que elas não conseguiriam sendo faveladas, negras, com baixo nível de escolaridade e sem emprego.”





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