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30/07/2015 12:30

Brincar é fundamental para tirar o cão do ócio físico-mental e torná-lo sociavel

Saúde Plena

 

Ver um cachorro correr atrás de uma bolinha ou de um frisbee está no imaginário da maioria das pessoas. Ensinar um cão a brincar, contudo, não serve apenas para distrair o pet (ou o dono). De acordo com Lucas von Glehn Duty, adestrador e especialista em comportamento, as brincadeiras têm como objetivo principal gastar a energia do animal. Em segundo lugar, vem a correção de comportamentos inadequados, como a destruição dos móveis. “Acredito que 90% dos problemas comportamentais dos cachorros são decorrentes do ócio”, justifica. Um cão sem ter o que fazer acaba se distanciando do “cão original”: aquele que vive na natureza e tem atividades ininterruptas, como caçar, procurar abrigo e se esconder da chuva.

Mas por onde começar? Lucas Duty explica que a primeira providência é encarnar o espírito vendedor: o dono precisa despertar a atenção e, principalmente, fazer com que o cachorro queira aquele objeto. “O dono pode fazer com que o animal interaja com o brinquedo e depois reter o objeto, para criar o interesse”, ensina. “É preciso criar um valor agregado ao que vai ser passado para o animal.” Desde que não represente risco para o bichinho, o tipo de brinquedo não importa muito. Um simples pedaço de pano, por exemplo, pode parecer muito mais atrativo do que um ursinho de pelúcia canino.

Outra coisa que os donos devem ter em mente é que ensinar um cachorro a brincar não significa ter um cão “fazedor de gracinhas”. Os truques ensinados durante o adestramento, segundo Lucas Duty, é um aspecto secundário das brincadeiras. O importante mesmo é tirar o cão do ócio, tanto mental quanto físico. “Incentivar um animal a pegar uma bolinha, para a gente, é uma brincadeira. Para ele é um trabalho, uma tarefa.” Em resumo: assim como para os humanos, ter o que fazer e no que pensar faz com que o cachorro se desenvolva cada vez mais — e, consequentemente, fique mais feliz.

Analisar o comportamento de cada cão é outro ponto importantíssimo antes de começar a brincadeira. Alguns cachorros gostam de bolinha, outros preferem correr atrás de gravetos e há ainda os que não gostam de brincar. “Cada cachorro tem um perfil e tem que ser respeitado. Não há como pedir de um pinscher o comportamento de um dobermann”, compara Duty. Uma brincadeira ensinada da forma errada, segundo o especialista, pode gerar desvios comportamentais. A atividade deve ser sempre prazerosa para o cão. A imposição forçada, sem buscar lapidar o comportamento do animal, é um dos principais problemas na educação do bicho. “As pessoas têm um imediatismo que acabam passando para o animal”, complementa. “O cachorro precisa de um certo tempo para aprender.”

A adestradora Andrea Melo explica ainda que qualquer brincadeira que estimule o cão a não morder as coisas erradas é uma boa escolha. A dica é deixar claro o que você quer que seu cachorro execute. “Se ele começa a morder a mão do dono, ele deve parar a brincadeira, tirar a mão e mostrar o brinquedo. O cão só ganha atenção quando estiver com o brinquedo na boca”, ensina. Isso evita que o animal se transforme em um mordedor, por exemplo. Se o cachorro pula sem parar, uma ideia é dar carinho, petiscos e atenção quando ele estiver com as quatro patas no chão. Pulou, é ignorado. Assim, o dono evita que o pet pule em cada pessoa que se aproximar dele.

Aprender a brincar é positivo especialmente para cachorros que passam muito tempo sozinhos. Quando o dono não estiver por perto, o ideal é investir em estímulos mentais que mantenham o bichinho ocupado pela maior parte do tempo possível. “Brinquedos recheados de petiscos são ótimos para distrair os animais”, exemplifica Andrea Melo. Outra dica é esconder petiscos pela casa, dentro de brinquedos ou mesmo de garrafas pet, para que o cachorro os encontre. Além de gastar energia e se manter ocupado mentalmente, ele aprende que ficar sozinho não é o fim do mundo. “Isso evita que o animal desenvolva ansiedade de separação.”

A florista Mariana Brito de Oliveira, 25 anos, procurou a ajuda de um especialista em comportamento animal para resolver o problema dos móveis destruídos em casa. A responsável pelo desastre é Maria Lúcia, uma jack russell terrier de 11 meses. A cadela é brincalhona e agitada — e haja brincadeira para gastar tanta energia. “Ela já comeu as cadeiras, o sofá, morde as pessoas e preciso descer três vezes por dia com ela”, descreve a dona, que mora em apartamento. Mariana até tentou ensinar alguns truques por conta própria, que aprendeu com vídeos na internet, mas não conseguiu passar mais que dois comandos: “fica” e “senta”. “Minha expectativa com as brincadeiras é que ela pare de morder as coisas e se torne mais sociável com as pessoas.”

Regras do jogo
Antes de tudo, é preciso encontrar um brinquedo que desperte a atenção do cachorro. Bolinha para os que são de bolinha, graveto para os que são de graveto.

Uma maneira de ensinar o cão a pegar e trazer a bolinha de volta é ter duas idênticas: quando o cão pegar a primeira, comece a brincar com a segunda, para despertar o interesse dele. No momento em que ele pegar a segunda, repita o procedimento com a outra bolinha, até que o animal entenda o que precisa ser feito.

O tempo que se deve esperar para ensinar um comando novo vai depender da resposta do bicho. Alguns conseguem aprender dois comandos simultaneamente, mas outros podem ficar perdidos.

Não há hora certa para começar a ensinar o cão a brincar. Na verdade, quanto antes, melhor. Um filhote educado será um cão adulto educado.

Não são só brinquedos que estimulam a mente do cachorro: ossos em couro também são ótimas formas de gastar energia física e mental, além de trabalhar a musculatura mandibular do animal.

Além dos petiscos industrializados, fígado, carne ou frango (sempre preparados sem sal e sem nenhum tempero) são boas opções para premiar o cachorro durante a brincadeira.

Preste atenção no humor do animal e pare ou troque a brincadeira caso ele pareça entediado. O melhor é parar, caso ele fique estressado, para que o bicho não associe o momento da brincadeira com algo chato.

Fontes: Lucas von Glehn Duty, adestrador e especialista em comportamento canino e Andrea Melo, adestradora

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