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18/06/2008 07:03

100 anos: a história de Emengarda e Takeshita

cultura japonesa

Uma história contada pelo site cultura japonesa que o Cassilândianews publica para comemorar a data de hoje, 100 anos da imigração japonesa. Vale a pena ler.

Subindo com o pequeno elevador num dos inúmeros edifícios da praça Carlos Gomes, no bairro da Liberdade, deparamos com um apartamento, um dos pouco ainda não dominados pelos escritórios de advocacia, corretoras ou dentistas que se espalharam pelos edifícios da região.

É lá que mora um dos primeiros casais nipo-brasileiros, completando 50 anos de casamento: Hermengarda Leme Leite Takeshita (natural de Franca) que ainda conserva um pouco dos costumes da família paulista “de quatrocentos anos” e o Kwanichi Takeshita (natural de Tóquio) que possui os traços de um imigrante japonês, apesar de estar há 55 anos no Brasil.

Hoje, felizes, comemoram as Bodas de Ouro, mas a vida para o casal não foi um mar de rosas.

Se hoje ainda persistem algumas velhas tradições e os antigos preconceitos contra o casamento inter-étnico, pode-se imaginar como era há 50 anos!

A historia do casal começa em 16 de maio de 1924, quando Kwanichi Takeshita, então com 21 anos de idade, desembarcava em Santos, desistindo de sua meta inicial que era os Estados Unidos, e tendo em seu currículo, os dois anos de Economia Política que havia cursado na Universidade Wasseda.

Logo após o desembarque, Takeshita foi morar em Guatapará, um dos núcleos da colonização japonesa.

Nesta época, Hermengarda lecionava em Guatapará: “Tinha chegado um japonês em nossa pequena cidade e que não falava português. Só inglês: Todo o mundo queria conhecer e conversar com ele. Assim não podia dar as minhas aulas”. Afirma sorrindo e complementa: “Takeshita tocava gaita e ia fazer serenata para nós. Naquela época, sair da fazenda era difícil. Muitos fugiam e eram mortos. Mas Takeshita recebeu ordens para deixar a fazenda por causa do mau exemplo que estava dando”.

Em São Paulo
Assim, em 31 de outubro de 1924, Takeshita chegava a cidade de São Paulo, onde na esquina da rua XV de novembro com a rua Direita, ficou parado para ver se passava algum japonês, pois ainda não conseguia falar português.

De janeiro de 1925 até 1933, Takeshita lecionou na Taishô Shogakkô, escola da colônia japonesa. Gostava dessa profissão porque sobrava-lhe tempo para praticar o tênis, seu esporte predileto.

“Em casa, todas as sextas tinha reunião, e o Takeshita perguntou-me se tinha coragem de ir para o Japão com ele. Eu respondi que sim”, relembra Hermengarda levemente comovida.

O Casamento
Casaram-se no dia 23 de outubro no consulado Japonês e no dia 6 de novembro de 1929 no Cartório. Quanto a isso, dona Hermengarda guarda nítidas recordações:

“Eu fui com a raquete de tênis para o Cartório, na volta do clube, e levamos todos os papeis. As testemunhas eram todos japoneses.” Nesta época, já estava com o passaporte preparado para ir morar no Japão, conforme haviam planejado.

Casaram, mas continuaram morando separados como se nada tivesse acontecido. A família também não ficou sabendo de nada durante um mês.

“Deixa de ser besta” foi a resposta da sua mãe ao tomar conhecimento do casamento. Hermengarda conta como foram as reações:

- No começo ninguém acreditou, mas depois, com a apresentação dos papeis, foram obrigados a admitir. Papai me deserdou e os parentes até os amigos e amigas me hostilizaram. A colônia japonesa também não viu com bons olhos a nossa união. Todo mundo parava para olhar. No cinema, mesmo no escuro, todos olhavam. A mamãe foi a primeira a nos procurar.

- E Takeshita completa:

- Fui no hotel onde estava hospedado o pai de Hermengarda (que era advogado), para dar satisfações, mas ele reagiu tão furiosamente que pensei que nunca mais iríamos nos entender. Depois, ele começou a compreender-nos, ate que nos tornamos muito amigos”.

A Segunda Guerra
Na época da II Guerra Mundial, a vida não era fácil para o casal, que residindo na rua Apiaí (hoje, o mesmo trecho chama-se Francisco Justino de Azevedo – Cambuci) e sem recursos, chegaram a vender os moveis e ate as roupas para sobreviverem.

“O Takeshita ia vender batata e era preso porque falava japonês, e eu precisava pagar a fiança par liberta-lo sempre”, afirma Hermengarda que acredita ter sido aquela, a época mais difícil na vida do casal. E foi durante a guerra mesmo que ela escreveu o livro “Sakurá”.

Sakurá
A autora do Sakurá conta que numa noite de tempestade e muito triste, quando Takeshita estava no cassino tentando ganhar algum dinheiro com apostas, na passagem mais amarga das recordações do casal, ela decidiu: “O tempo que vou gastar chorando, vou gastar escrevendo um livro”.

Depois da Guerra
A seqüência dos anos difíceis para a vida do casal, se prolongou ainda por muito tempo. Mesmo durante a guerra, eles tiveram que mudar para Campos de Jordão, para fugir das prisões freqüentes com que Takeshita vinha sendo atormentado em São Paulo. Em Campos de Jordão, enquanto Hermengarda organizava um colégio recém-fundado e ajudava nos serviços caseiros, Takeshita foi morar num sítio, onde havia plantação de cenoura, trabalhando nos serviços de lavoura e dormindo no chão de terra batida.

Desde 1955 até recentemente, Takeshita traduziu os filmes japoneses das companhias Shochiku, Toei e Toho, as três empresas que suprem o mercado brasileiro com películas japonesas, chegando a soma de 1300 filmes traduzidos por ele.

Dona Hermengarda, fundadora da “Assembléia Juvenil de Boa Vontade”, entidade que prestou muitos serviços à comunidade paulistana, além de publicar “Sakurá”, publicou o livro “Estranhos Visitantes”, uma novela infantil que obteve bastante sucesso, cuja renda foi revertida em benefício dos leprosos.

Outros livros ainda inéditos, fazem parte do seu arquivo, e que pretende, se Deus quiser, publicar: “Joãozinho no Planeta Azul” que recebeu recentemente elogiosos comentários do jornal “Popular da Tarde”, antes mesmo de ser editado, “Quando o Diabo Sorri” e “Moinho de Vento”. Fora os livros, existem muitos contos e poesias, dentre os quais, muitos já foram publicados em jornais e revistas.

Tudo isso além das memórias que ela prepara agora com muito carinho, e que poderá chamar “Memórias de Uma Vida Faz de Contas”.

Autor: Francisco Noriyuki Sato

Matéria Publicada em 6/11/1979, no São Paulo Shimbun.

Em Junho de 1980, Hermengarda viu sua obra “Joãozinho no Planeta Azul” publicada. Sua biografia que recebeu o nome de “Um Grito de Liberdade”, foi publicada em 1984.

Hermengarda Leme Leite Takeshita faleceu no ano seguinte, e Kwanichi Takeshita, alguns anos depois. O casal continuou na Praça Carlos Gomes até o fim.

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