Cassilândia, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

Luciane Buriasco

27/03/2017 09:40

Luciane Buriasco: "O terrorismo é um dos preços que se paga pela desigualdade"

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco: O terrorismo é um dos preços que se paga pela desigualdade

No passado, a Europa colonizou terras na América, África, Índia, Oceania e Ásia. Sua cultura, comida, moda, língua e traços físicos se espalharam pelo mundo. Enriqueceram com isso, à custa de um verdadeiro roubo de riquezas desses países. O tempo passou, vieram guerras sofridas para seu povo, como a Primeira e Segunda Mundial, e iniciando-se uma política de evitar que houvesse uma Terceira, criaram-se alianças comerciais e organismos internacionais. Descobriu-se, e o avanço tecnológico abriu caminhos, para a chamada globalização. A economia se agiganta e exige dos países leis e instituições parecidas, que deem segurança aos negócios e à livre circulação do capital. A Europa celebra um tratado que vai al&eac ute;m e propicia a livre circulação de pessoas. Ao mesmo tempo, oferece aos países colonizados cidadania. Aos árabes, invasores do passado, concede-se direito de imigrar.

É assim que circulam nas capitais europeias grupos de árabes, africanos, indianos, asiáticos, latinos. Conseguem trabalho e uma vida melhor do que a oferecida por seus países, com boa educação, saúde. Aprendem a língua do país que os abriga, mas seguem em grupos falando seus idiomas de origem. Não há propriamente uma igualdade com os originários do país: os empregos são de regra os que exigem menos escolaridade, as moradias são distantes dos pontos turísticos e formam bairros de imigrantes. O tempo passou e muitos já são nascidos no país que os abrigou.

Fora do território europeu, poucos países colonizados despontaram, como os Estados Unidos, Canadá, Austrália. Os latinos seguem mal, ou em desenvolvimento, como o Brasil, e a Índia e a África ainda com muita pobreza. Os árabes vivem em guerra entre si, com os judeus, e criaram organizações isoladas, como o chamado Estado Islâmico, que são combatidas, em guerras que sacrificam sua população e não somente os alvos, por alguns países da Europa, da Turquia (que quer se tornar membro da União Europeia) e dos Estados Unidos.

Khalid Masood, 52 anos, o responsável pelo ataque terrorista de semana passada na charmosa ponte de Westminster, no coração de Londres, perto de todos os Poderes e repleta de turistas tirando suas fotos com o Big Ben ao fundo, nasceu Adrian, na própria Inglaterra, com traços físicos árabes, provavelmente por imigração de sua família. Foi um jovem que fez esportes e amigos, mas não os manteve por bebedeiras em festa, não se comportando bem, e começou a ter problemas com a polícia, dano, e, mais tarde, ao final dos trinta, esfaqueou um homem num pub, o bar de ambiente fechado que eles têm por lá. Cumpriu dois anos de pena e em algum momento converteu-se ao islamismo, adotando o nome árabe.

Seu ataque foi isolado e sua idade relativamente incomum, mas como em outros, uma dúbia identidade: árabe ou inglês? Certamente inglês, amante de Fish and Chips e outros pratos e cheiros da Inglaterra. Sua língua é o inglês, mas deve ter aprendido árabe. Não deve ter prosperado financeiramente e, sentindo-se à margem, muito embora vivendo no seu país, como uma espécie de segundo cidadão, tentou angariar publicidade e espalhar o medo na possivelmente irritante - para ele - Londres: uma cidade que com tão poucos problemas, como destacava Leão Serva dois dias antes do atentado, na Folha de S. Paulo[1], dá-se ao luxo de preocupar-se com mais uma traição de Príncipe, desta vez William, visto com uma modelo australiana, apesar das fotos de família feliz com Kate Middleton e seus lindos filhos.

É justamente esse contraste que a muitos revolta. Fome e guerra de um lado e pubs cheios, peças de teatro, serviços públicos de qualidade, direitos, de outro.

Não se combate o terrorismo com terror em seus países originários, muros e mais segurança em aeroportos. Combate-se terrorismo com real integração entre os povos, uma cidadania que signifique de fato identidade, os mesmos direitos, sem hipocrisia. Quanto mais igual for o mundo, menos haverá revolta.

Até lá, não tem jeito, quem visitar ou morar nesses lugares maravilhosos pagará vez ou outra o preço de um ataque terrorista, como se corre o risco do crime enquanto houver famílias sem amor a seus filhos e se acreditar que a felicidade está em consumir bens que não estão ao alcance de todos, seja pela sistemática do capitalismo, seja porque esse pouco amor recebido não gera autoestima suficiente para se sonhar, estudar ou empreender, e não se gosta muito da ideia de se esforçar, de pagar um preço para se poder consumir um dia, ao menos um número satisfatório de objetos para um vida suportável, que não precise cobrar nada de ninguém.

[1] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/leaoserva/2017/03/1867929-londres-de-sempre-se-preocupa-agora-com-escapadas-de-principe-william.shtml

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito em Cassilândia, Mato Grosso do Sul, membro do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e bacharel em Direito pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.

"Não me deixe morrer Dr", foi uma frase famosa de ACM antes de seu fim.
Vida boa com todos o luxos, vida fácil, e de se entender que alguém não queira morrer com tantas mordomias, e creio que nessas famílias não tenham tanto amor........O Brasil e um país atrasado porque exatamente o povo e manso, as pessoas que dirigem o poder publico na maioria dos casos são indicados direta ou indiretamente para perpetuar a vida boa de uma minoria que não vê reação do "povo sem amor".......e vivem as custas da miséria do próximo, que na verdade tem menos direitos que um animal, são escravos mansos, que se sujeitam a todo tipo de miséria. O mundo sempre teve guerras para se resolver conflitos de interesse porque quem esta com o osso não soltará com conversa.
 
Terence Groot em 28/03/2017 11:49:50
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