Cassilândia, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Luciane Buriasco

27/11/2017 08:20

Luciane Buriasco - O que é ser humano?

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - O que é ser humano?

Fiz um curso de Psicanálise e Jurisdição na semana passada e aproveitei para assistir ao filme Blade Runner e à peça de teatro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher. Em todos, algo do comportamento humano, especialmente a angústia, o amar e o odiar, numa palavra, o sentimento.

No filme Blade Runner, que é de ficção científica, os humanos acabaram. Há apenas replicantes e mesmo os modelos antigos de replicantes foram substituídos, sendo que o que restou deles é perseguido e morto por Blade Runners. Esse mundo imaginado em 2049, com a licença metafórica da ficção científica, é tão virtual que o real é o desejado, o sonho, a vontade de sentir a chuva, a neve. Não há infância e como não se sobrevive sem lembranças, estas são implantadas artificialmente.

A esposa é a do sonho de muitos: pode ser desligada a qualquer momento, tem o corpo perfeito e começa a fala sempre demonstrando compaixão pelo que se possa ter vivido durante o dia. É perfeita, mas não é real. Pode ser comprada em qualquer esquina. A metáfora é ótima; goste-se ou não da ideia. Para quem ainda aposta numa conexão real, com amor e desamor, fique tranquilo que o Blade Runner anterior, de 1982, era 2019, e estamos bem diferentes do previsto.

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher é uma peça em cartaz na Faap, em São Paulo, baseada no livro homônimo de Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de Literatura de 2015. São relatos de mulheres russas que foram para o front, na Segunda Guerra Mundial. Profundamente dolorosos, como se pode imaginar, lembram o amor e o ódio que somos capazes de sentir, mesmo no sem sentido de meramente estar em lados opostos numa guerra. Um pouco como Ensaio Sobre a Cegueira, livro de José Saramago e filme de Fernando Meirelles, faz pensar sobre nossa civilização e o quanto dela sobra tirado nosso conforto, comida, necessidades básicas. Na guerra, animalista-se até como mecanismo de defesa.

E por falar em mecanismo de defesa, aprendi com a Psicanálise que a vaidade dos(as) juízes(as) é um mecanismo de defesa, já que custa, em termos de esforço mental, tirar a toga. É mais fácil acreditar que a pessoa que ocupa o cargo de juiz, mesmo na vida privada, siga sendo meritíssima. Mas vive-se melhor quando se faz o esforço mental e se consegue ser a pessoa normal que se é, ainda que para isso precise estar longe do jurisdicionado. Isto para que não surte, gritando sua normalidade num escândalo qualquer na vida privada. Como também fazem às vezes os artistas.

É que ocorre com o(a) juiz(a) e a parte o fenômeno da transferência, como entre analista e analisando. Estabelece-se uma espécie de relação apaixonada, do tipo ele(a) tem o que não tenho; é mais forte; tem o poder de dizer a lei no meu caso. É muita coisa. Para a parte e para o(a) juiz(a) que não se permite ser humano, ou seja, tirar a toga.

E não adianta dizer ou gritar às pessoas que você é normal. Não vão entender. É fundamental que haja a transferência, ademais. Ou a função não se exerce. No caso, a função paterna de limitar e definir possibilidades. Algo como “é isso. E ponto final” para as expectativas das partes.

A Psicanálise é fantástica em sua compreensão do ser humano: sua capacidade de amar e odiar o mesmo objeto, de sentir angústia, dor em feridas por vezes incuráveis, assim como as do corpo. Isso sem contar a perversão na pedofilia, as relações de poder na violência doméstica, a função parental.

Ser humano seria isso: sentir. Pode ser dor, chuva, neve. Mas isso os animais também sentem. Então seria sentir angústia. Talvez esse seja o erro psicanalítico de Blade Runner: o replicante não deveria sentir angústia, essa coisa de algo está errado com minha mulher virtual, quero mais da vida, algo me falta, algum sentir mais profundo. Ou talvez bastou ele achar que fosse humano, como acontece em determinado momento, para sentir a tal angústia. Uma vontade de ter lembranças de verdade, amar e ser amado, ter contato físico com uma mulher real, sentir a neve.

Na guerra, quando falta tudo, damos valor a pequenas coisas, como nosso cabelo, usar roupa íntima adequada a nosso sexo, absorvente, amar em vez de odiar, ter comida, poder amamentar o filho e vê-lo protegido. Mas quando temos tudo esquecemos de como são as coisas quando não temos nada. Falta menos coisa, mas sempre falta, até quando se tem tudo. Por quê? Porque ser humano é isso: sentir angústia.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

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