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Geral

Onde & Aonde & Donde

Alcides Silva, em memória - 28 de maio de 2020 - 06:01

O texto do saudoso Alcides Silva foi publicado no Cassilândia Noticias em 25/08/2006
O texto do saudoso Alcides Silva foi publicado no Cassilândia Noticias em 25/08/2006

Língua Portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva

Onde – Aonde – Donde
Apesar de muito semelhantes e de vez em quando serem usadas indistintamente, essas palavras têm sentidos diferentes. Onde significa em que lugar – um lugar estático, fixo (Gosto da cidade onde moro), aonde expressa uma idéia de movimento: a que lugar (Aonde vais?) e donde é uma contração da preposição de com o advérbio onde e indica procedência, origem, de que lugar ou idéia de conclusão: (Donde vieste?): "Ele está magro, abatido; donde se conclui não ter força alguma".


Quando
"Estamos no inverno, onde é baixa a umidade relativa do ar". Inverno é uma das estações do ano e não um "lugar" do ano. Assim, o emprego correto não é onde, que indica lugar, mas quando, que se refere a tempo: "Estamos no inverno, quando é baixa a umidade relativa do ar". "A reunião será na Câmara, quando falará o prefeito". Repetindo, quando é advérbio de tempo ou conjunção temporal. Se a reunião será na Câmara (lugar), o termo será onde: "A reunião será na Câmara, onde falará o prefeito". Se indicar movimento, o emprego será do advérbio aonde: "A boatinha é um lugar aonde só vai a juventude". "Fulano esteve na reunião onde falou-se de política". Nesta frase, o advérbio a ser empregado é quando, significando ocasião em que: "Quando sentires uma angústia sem nome / misto de medo e de felicidade, / e morrerem nos teus lábios / as palavras de ingenuidade; /... quando te surpreenderes chorando baixinho, / sem motivo, docemente; /... o Amor, que desconheces e procuras, / terá entrado em tua vida, / para a tua ventura e desventura" (Rodrigues de Abreu).


Si, consigo
É comum também se ver e ouvir o emprego dos pronomes si e consigo como se referissem à pessoa com quem se fala ou a quem se está escrevendo: "Aquele valentão vai brigar consigo" – "Disseram-me que a moça andou consigo o dia todo" – "Seu pai comprou um lápis para si".


Essas variantes reflexivas do pronome se só podem aparecer quando se referirem ao sujeito da oração. No primeiro exemplo, o sentido da frase como está escrita, é que o valentão (sujeito da oração) quer brigar com ele mesmo. No segundo, é a moça que andou com ela mesma. E no último exemplo, o lápis foi comprado para uso do próprio pai e não para o filho.


Em bom português aquelas frases são escritas (ou faladas) assim: "Aquele valentão vai brigar com você" (ou com o senhor) – "Disseram-me que a moça andou com você o dia todo" – "Seu pai comprou-lhe um lápis".
Jamais escreva ou diga: "Quero ficar consigo", "Irei consigo" "Não me referi a si". Troque o consigo ou o si por você, ou por senhor ou senhora e tudo ficará corretíssimo.


Os pronomes se, si e consigo são reflexivos, isto é, indicam que o sujeito pratica e recebe a ação expressa pelo verbo: Ele feriu-se ao cair - Ela só fala de si - Trazia consigo a arma do crime.


Quede – Quedê – Cadê


Na linguagem informal, falada, quede é uma corruptela de "Que é (feito) de = que é de = quede, significando o interrogativo Onde está? Daí, por atração da última sílaba, Quedê e Cadê? Nos carnavais dos anos 50, uma música, "Jarro da Saudade", de Daniel Barbosa e Gildo Blota, deu-lhe o destaque popular: "Iaiá cadê o vaso/ o vaso que plantei a flor..." Drummond, em "Caso do Vestido", deu-lhe foro de linguagem escrita: "Olhei para a cara dela, / quede os olhos cintilantes? / quede graça de sorriso, / quede colo de camélia?/ quede aquela cinturinha / delgada como jeitosa? / quede pezinhos calçados / com sandálias de cetim".


Todavia, apesar da autoridade de Carlos Drummond de Andrade e da graciosidade da música carnavalesca, essas expressões devem ser evitadas na linguagem escrita – padrão culto -, até porque a língua que falamos não é a mesma que escrevemos.

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