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Festa consagra a globalização do candomblé

Spensy Pimentel/Agência Popular - 31 de agosto de 2003 - 14:59

Salvador - “E agora, gostaríamos de chamar o professor Roberval Marinho”, disse o locutor enfatiotado à tribuna. “We´d like to call here professor” tal e tal, traduziu em seguida sua auxiliar. Segundos de silêncio constrangedor até que a convocação foi repetida. Uma, duas vezes, com “reiteramos” e tudo. As quase duzentas pessoas sentadas em cadeiras de plástico sob a tenda armada em frente da casa de Xangô já começavam a se alvoroçar. E eis que, em vez do especialista em ensino de arte no candomblé, surge, de dentro da residência do orixá homenageado na festa, o brado do ator Ricardo Bittencourt, baiano radicado no teatro Oficina, de São Paulo.

“Vocês já me conhecem, mas eu vou me apresentar. Eu sou João Grilo”. O personagem das histórias cômicas populares do Nordeste imortalizado por Ariano Suassuna, incorporado ali, em pleno terreiro de Mãe Stella, parecia dar um rumo inesperado à cerimônia. Uma louvação ao caráter do povo brasileiro, saudação a todos os presentes, uma bandeira foi estendida. No número 557 da rua Direita de São Gonçalo, bairro do Cabula, Salvador, Bahia, Brasil, estava aberto o Alaindê Xirê. Encontro dos Grandes Tocadores, em língua iorubana - isso a tradutora não explicou, estava no folheto.

Claro que, depois, falaram o ministro Gilberto Gil, Mãe Stella, e até mesmo o professor Vivaldo da Costa Maia. Ele leu seu estudo sobre como a fundadora do Opô Afonjá, Mãe Aninha, criou, em 1936, o Ministério de Xangô, do qual Gil faria parte muitos anos mais tarde, embora antes de se tornar ministro da Cultura do governo Lula. Conferência acadêmica, no mundo do candomblé, pode ser tão parte da cerimônia como a banda de frevos e dobrados que tocava na ocasião. Quanto mais em casa de Mãe Stella, guardiã da educação. Além de ter publicado dois livros, já faz mais de 15 anos que ela cede espaço do terreiro para uma escola municipal para mais de 300 crianças da vizinhança.

Mas, foi o assessor do ministério da Cultura quem deu o toque - “Exu sempre abre as festas, desfralda as bandeiras. Você viu?”. É, a ficha demorou, mas caiu. No plano da “emoção veneranda da dimensão religiosa, distinta da emoção das ruas”, como dizia o ministro Gil ao jornalista da TV estrangeira, foi Exu-João Grilo quem deu início ao evento.

Candomblé não tem user friendly, aquelas religiões em que os gurus saem pelo mundo a pregar o mais que podem e conquistar fiéis instantâneos. Tampouco possui Bíblia, com as receitas todas dispostas por escrito. A religião dos orixás é resultado das lembranças de deuses ancestrais na cabeça de homens e mulheres das mais variadas etnias seqüestrados apenas com a roupa do corpo pelos escravistas europeus. Trata-se de um culto para iniciados. Para conhecer os mistérios, exige paciência africana, de prisioneiro que espera anos até o momento certo para escapar do jugo. Obter certas informações ou imagens de rituais é quase impossível, coisa para Pierre Verger mesmo.

Assediados por curiosos do mundo inteiro, entretanto, os terreiros hoje administram com um profissionalismo disciplinado sua imagem. Para o Alaiandê Xirê, foi contratada especialmente uma assessora de imprensa vinda de São Paulo, com direito a coletiva de Mãe Stella e material de divulgação de primeira. Na noite de abertura, os caminhões de link das TVs estrondavam com seus motogeradores no pátio do Axé, e um a um os pais-de-santo presentes eram convidados para entrevistas ao vivo, via satélite. Tudo era vigiado por uma equipe de seguranças de ternos pretos e radiotransmissores em punho. Mesa de som, iluminação contratadas. A fotógrafa Marisa Vianna registra tudo. Já publicou no ano passado o livro de fotos “Salvador, Cidade da Bahia”. “A exposição vai a Paris em novembro”, frisa. Agora ela coleta material para “O Sacro na Religião Afro-Brasileira”.

Após a cerimônia, coquetel. “Comida ocidental”, no dizer de um dos jovens do terreiro. A quiabada preparada na véspera foi só para o santo mesmo. Quiche, quibe, coxinha, cerveja e refrigerante, autógrafos, entrevistas que mesclam música, política e religião. Em meio a toda a movimentação, o ministro Gil recebe chamado do presidente. Entra no quarto. Sobre a porta, a insígnia do carneiro branco. Quem interrompe minha passagem desta vez é a ebomi, uma negra franzina, mas de rosto sério que impõe mais respeito que o segurança de terno preto. Mal entrevejo os símbolos sagrados na penumbra. “Aqui é particular. Particularíssimo”. Não era Lula quem ligava. O ministro fora prestar contas a Xangô.

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