Cassilândia
Coluna Linguística - Concordância: quando as palavras precisam se entender
*Por Gabriel Pinheiro

Se a língua fosse uma orquestra, a concordância seria o maestro. É ela quem garante que todo mundo entre no compasso certo. Não adianta o sujeito querer tocar samba se o verbo já começou um tango. Quando o adjetivo desafina com o substantivo, o resultado é ruído.
A concordância é esse ajuste fino que faz com que as palavras da frase “combinem” entre si. Na gramática da norma culta, isso importa bastante. Especialmente em provas, concursos e redações avaliadas a frio por corretores com a caneta (ou tecla) já afiada.
A chamada concordância verbal é a mais conhecida. Trata de fazer o verbo concordar com o sujeito em número e pessoa. Dizemos “os meninos correram”, não “os meninos correu” (a menos que se deseje ser reprovado com estilo). Já a concordância nominal cuida do casamento entre substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais. Por isso dizemos “as boas ideias claras”, tudo no plural e no feminino, como manda o figurino da gramática.
Há, claro, pegadinhas. A norma culta nem sempre é um caminho simples. Quando o sujeito é composto, por exemplo, o verbo pode concordar com todos os núcleos (“João e Maria saíram”) ou, em certos casos, apenas com o mais próximo (“Nem o diretor nem os alunos participaram”). No caso da concordância nominal, se alguém disser “bela e formosa mulher”, o adjetivo está antes e fica no singular. Já na frase “mulher bela e formosa”, tudo se ajusta ao feminino singular, numa dança sutil de posição e concordância.
Algumas dicas práticas podem ajudar a evitar tropeços:
- Ache o sujeito antes de tudo. O verbo concorda com ele, não com o termo mais próximo.
- Em expressões como “é proibido” ou “é necessário”, preste atenção ao artigo:
- “É proibido fumar.” (sem artigo)
- “É proibida a entrada.” (com artigo)
- Desconfie do pronome “que”. Em frases como “Fui eu que fiz” e “Fomos nós que fizemos”, o verbo concorda com o antecedente do “que”.
- Fique atento aos coletivos. “A maioria dos alunos saiu” (singular) ou “saíram” (plural, se a ação for atribuída diretamente aos alunos).
- Palavras compostas não significam verbo composto. “Pão com queijo é bom”, não “são bons”.
Fazer boa concordância não é apenas seguir regras. É respeitar a harmonia interna da frase. Até a liberdade criativa precisa reconhecer a hora de se ajustar ao conjunto. Dominar essas combinações é mais do que decorar estruturas: é ouvir a língua em funcionamento e responder com consciência e precisão.
*Gabriel Pinheiro é professor, psicopedagogo e mestrando em Linguística pela Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp
