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23/12/2015 08:45

Um clique, o fim de uma separação de 10 anos e o melhor presente de Natal

Campo Grande News
Rafael, Fernando e Cláudio no encontro de segunda-feira, depois de 10 anos sem contato. (Fotos: Arquivo Pessoal)Rafael, Fernando e Cláudio no encontro de segunda-feira, depois de 10 anos sem contato. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Uma década de busca, de culpa, de coração apertado. De quem não sabia o que aconteceu com o lado de lá. Entre lágrimas que o professor universitário Cláudio César Silva, de 50 anos, conta que o melhor presente de Natal foi recuperar o contato com dois meninos que ele quase adotou, 10 anos atrás. Irmãos, Fernando e Rafael nunca saíram da cabeça do padrinho.

A história começa em 2001, depois que Cláudio olhou para a vida ao seu redor e enxergou como estava bem, enquanto tantos outros sofriam e sentiu que precisava fazer alguma coisa. A vida se encarregou de encaminhá-lo ao que era seu destino, contribuir com ações sociais de um abrigo recolhendo brinquedos. "Eram crianças que não tinham noção nem do aniversário, não sabiam que dia tinham nascido", recorda.

O professor entrou de cabeça, corpo e alma na iniciativa. Ao lado dos pequenos que não podiam contar com suas famílias, ele se mobilizou para que cada um soubesse e escrevesse o dia mais importante para si: quando nasceu. No mesmo abrigo, à época o Vovó Miloca, que ele conheceu a história de cinco irmãos: Rafael, Fernando, Tatiane, Ariane e Quézia. Uma escadinha que ia dos 8 aos 3 anos de idade. "Esses meninos foram me cativando e a gente foi se relacionando. Fui gostando muito daquele trabalho e ele me foi fazendo muito bem", lembra.

Comunicativo, de coração aberto, Cláudio incentivou outros tantos amigos a fazerem a mesma coisa. O resultado foi melhora na estrutura ao despertar o mesmo sentimento nos conhecidos. Ali que ele conheceu o Projeto Padrinho e foi convidado a participar.

"Naquele período, as duas meninas, Tatiane e Ariane, conseguiram uma adoção na Espanha e a menininha mais nova também foi adotada por um casal daqui. Os meninos não. No Brasil se adotam poucos meninos e acima dos 6 anos então... Aí ficaram os dois irmãos", conta Cláudio.

Num sábado ele chegou ao abrigo com o nome de um menino em mãos: Washington. Seria ele o afilhado. "Ele não estava lá e por coincidência os dois irmãos tinham sido transferidos para esse abrigo. E quando eu disse que ia apadrinhar outro, eles choraram. Aquilo me tocou", lembra.

Os meninos, com 7 e 8 anos, viraram então os afilhados. O papel de Cláudio era de sair com eles aos finais de semana, mas ele ia além disso: frequentava as reuniões escolares e procurava incentivar as habilidades que eles tinham com cursos de Artes e Kumon. Foram dois anos e meio de convivência, incluindo a experiência de eles morarem juntos.

"O processo de adoção é maravilhoso, mas não se pode fantasiar. É uma dedicação que requer amor incondicional. Às vezes queremos ajudar, mas temos os nossos limites", explica o professor. Ele não deu seguimento na adoção e ao mesmo tempo, a mãe biológica reapareceu e os meninos acabaram retornando para ela.

"Eu tentei acompanhar, mas houve um momento que a gente se separou e eu perdi o contato. Tentei durante muitos anos. Muitos. Tentei pelas redes sociais, no Fórum, no Projeto Padrinho. Mas houve perda de contato, ninguém localizava o endereço e eu sempre me culpava muito", descreve.

A agonia era por saber onde e como os meninos estavam, quem eles haviam se tornado. "Sempre me culpei", repetia a si mesmo. Do mesmo modo com que ele chegou aos meninos, a vida também se encarregou de tocar no coração dele mais uma vez. No domingo que passou, Cláudio assistiu uma reportagem que falava sobre o projeto de apadrinhamento, mas no Rio de Janeiro.

"Eu fui lembrando de toda essa história. De ajudar crianças sem pai e sem mãe e aquilo mexeu comigo. Vou tentar de novo", conta. Ele e os amigos tentaram, ao longo de 10 anos, localizar os garotos de todas as formas. No domingo, bastou um clique para aparecer o mais novo, Fernando.

"Reconheci pelo rosto, olhei a data de nascimento. Lembrava de tudo: 19 de novembro e o outro 30 de outubro. Olhei no Facebook e era ele. Fiquei feliz, ele estava bem, trabalhava numa empresa, vi que ele tinha estrutura, frequentava uma igreja..."

Com o coração na mão e a ansiedade a mil, ele anotou os contatos da empresa, fornecidos pelo Facebook. "Entrar em contato, mexer nessa história toda... Como reagir? Eu não sabia se eles tinham alguma mágoa por esse período que fiquei ausente... Mas sempre tentei saber, sempre me lembrei deles..."

No dia seguinte, o telefone tocou, atenderam e do lado de cá, Cláudio pediu para falar com Fernando. "

"Fernando, aqui é seu tio Cláudio. (Eles me chamavam de tio)

- Nossa, tio? Não acredito"

"E era aquela mesma voz, parece que o passado trouxe de volta aquela criança. Ele ficou muito feliz e eu disse que procurei por muito tempo. Ele ficou emocionado e marcamos um encontro", conta o professor. No mesmo dia, padrinho e afilhados se encontraram - pela primeira vez em 10 anos - numa padaria.

"Conversamos muito. Levei fotos deles que tinha guardado de quando eram crianças. O que mais me emocionou era que eles, com todo aquele abandono, seguiram a vida. Estavam tentando fazer faculdade. Tudo isso me deixou muito feliz", desaba Cláudio.

Os garotos ainda falaram que as aulas de música, Kumon e a presença dele na escola tinham um significado grandioso até hoje. "Houve um momento em que um deles disse que 'se perdeu', mas lembrou dos exemplos e que queria ser como o tio dele".

Os meninos fotografaram o encontro. Cláudio era sorriso no rosto, nos olhos, na alma. Ele perguntou porque os meninos não o procuraram e os garotos disseram que chegaram a ir até a casa dele. "Eles chegaram a ir até a minha casa, mas acho que a timidez, o medo, de eles terem feito alguma coisa errada..." A frase fica solta.

Cláudio desabafa dizendo que às vezes, o que se faz pode ser pouco, mas que a gente não tem dimensão do resultado. "Às vezes você vê alguém e salva e nossa, a gente está aqui para isso. Eles entraram por acaso e foram ocupando espaço e mudando a minha vida", conclui.

O projeto não obrigou o professor a adotar os meninos, foi uma experiência que ele tentou fazer e por dois anos e meio seguiu mantendo relação afetiva. "Eu não tinha a intenção de adotar, tinha compaixão, queria ajudar até eles se formarem, mas minha vida não era fácil. Eu trabalhava muito e não tinha família aqui. Essa foi uma das dificuldades que levaram a gente a não permanecerem juntos".

Questionados pelo padrinho se ficaram chateados quando Cláudio não levou a adoção adiante, os garotos responderam com gratidão. "Não, porque o período que a gente ficou junto foi o mais feliz e importante e até hoje a gente tem essa lembrança e esses valores", reproduz o professor.

Fernando, hoje com 22 anos, diz que a alegria não o deixa explicar o que foi o encontro. "Fiquei emocionado no telefone, quando ele disse que era ele... Você saber que encontrou alguém depois de 10 anos? Eu tremia", descreve Fernando Moreira Barbosa.

Na conversa que eles tiveram, Fernando percebeu o que o padrinho mudou e no que ele continua o mesmo. "Tanta coisa aconteceu, eu tinha uma ideia de como ele ficaria... Mas não tem como explicar. Foi um presentaço de Natal. Foi o melhor dia do ano para mim", diz.

Para quem ouve a voz do menino que cresceu, a sensação é de que valeu à pena. "Isso faz com que você veja que não é nada. Todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém. A gente não consegue ficar bem sozinho... Não fantasio que vou fazer um milagre na vida deles, porque Deus já fez dando responsabilidade e mostrando o caminho.

O que quero é que eles saibam que tem um amigo, um irmão, que está lutando com eles e está aqui para compartilhar coisas boas e ruins e instruindo para que consigam sempre aprender".

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