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16/09/2013 17:00

Quem decide a cotação do dólar?

Por Daniel Resende e Felipe Sotto-Maior*

Para o cidadão comum, que acompanha de longe as flutuações da moeda enquanto tenta planejar uma viagem, a taxa de câmbio entre o dólar e o real pode parecer definida por algum ente superior indeciso. Governo, grandes investidores, especuladores ou empresas aparentemente estariam provocando essas mudanças. A verdade, porém, é que essa taxa é diretamente influenciada por suas próprias ações cotidianas.

Para simplificar, pode-se dizer que a cotação do dólar perante o real é influenciada por dois grandes fluxos: o fluxo de bens e o fluxo de capitais. O fluxo de bens é composto pelas exportações e importações. O saldo (exportações menos importações) é chamado de exportações líquidas. De maneira semelhante, o fluxo de capitais envolve a remessa de recursos financeiros ao exterior por residentes e o ingresso de recursos financeiros de estrangeiros no país. O saldo (investimento externo de residentes menos recursos recebidos de estrangeiros) é chamado de investimento externo líquido.

Como um cidadão comum pode parecer que você não participa desse fluxo, mas essa impressão está errada. Mesmo sem saber, você já deve ter importado um produto. Comprando pela internet ou pedindo para um amigo trazer um eletrônico do exterior, você importa ativamente um produto estrangeiro. Mas, além dessas compras eventuais, suas escolhas diárias promovem outras importações sem que você perceba. Ao comprar um celular, adquirimos um aparelho fabricado no exterior. O mesmo acontece quando assistimos um filme de Hollywood ou compramos um aplicativo para smartphone.

Quando você compra um computador fabricado no Brasil, promove importações um pouco menos perceptíveis, pois adquire o processador, o disco rígido, a memória e os softwares, todos produzidos no exterior. Existem exemplos ainda menos óbvios. Ao realizar uma busca no Google ou navegar no Facebook, você promove a importação de serviços de publicidade, prestados pelo Google ou Facebook a anunciantes brasileiros cujo público-alvo é você. Por outro lado, brasileiros também investem recursos no exterior. Essa medida foi muito utilizada por empresários, altos executivos e profissionais liberais nos anos de inflação alta e insegurança bancária, para proteger seu patrimônio.

Ao contrário do que muitos pensam, o governo não tem o poder de determinar a taxa de câmbio. Ele é apenas mais um grande ator na formação de preço do dólar. Como tem a possibilidade de comprar e vender bilhões de dólares consegue afetar propositalmente a balança entre oferta e demanda.

Além disso, pode intervir indiretamente na cotação do dólar através da determinação da taxa de juros. Em momentos de forte saída de capital do Brasil, o governo tenta defender o valor do Real por meio do aumento da taxa de juros. Taxas de juros mais elevadas atraem o capital de investidores estrangeiros para o Brasil. Esse ator pode agir ainda de outras formas, criando e aumentando impostos de importação, impostos sobre operações financeiras ou mesmo barreiras não tributárias (como limites de importações, barreiras sanitárias e reserva de mercado para produtos nacionais).

Sabendo de tudo isso, parece estranho que tantas pessoas diferentes, com vontades diferentes, atuem de maneira quase coordenada, gerando os ciclos de alta e de baixa do dólar. Esse comportamento, porém, pode ser explicado. Dependendo da taxa de câmbio, alguns comportamentos são incentivados. Por exemplo, quando o Real está desvalorizado, os produtos brasileiros ficam mais baratos em relação aos estrangeiros e nossas exportações aumentam. Quando o Real está valorizado, mais turistas brasileiros viajam para o exterior, pois as viagens ficam mais baratas.

Todos esses comportamentos influenciam na cotação do dólar. Quando o turista brasileiro compra e gasta dólares, ele aumenta a demanda pela moeda estrangeira, impulsionando um pouquinho o preço do dólar, desestimulando a viagem do próximo turista. Da mesma forma, quando uma empresa estrangeira compra produtos brasileiros e paga em dólares, a conversão desses dólares para reais aumenta um pouco a oferta de dólares no Brasil, empurrando um pouquinho a cotação do dólar para baixo, desestimulando a próxima exportação.

Quanto mais importamos, mais o dólar se valoriza e menos interessante fica a importação. A soma desses movimentos promove os ciclos de alta e baixa. Nossas ações influenciam mudanças que, por sua vez, influenciam nossas ações no sentido contrário. Mas o tempo de reação de cada participante nessa dinâmica é diferente. Turistas podem marcar e desmarcar viagens com grande facilidade. Executivos a trabalho não contam com a mesma flexibilidade.

Um investimento especulativo pode sair rapidamente do nosso país, como aconteceu em 2008. Por outro lado, uma montadora de automóveis não tem a mesma facilidade para desinvestir o capital que usou para construir uma fábrica no Brasil. Muitas vezes, é melhor continuar operando, mesmo com perdas cambiais, do que encerrar as atividades.

Isso faz com que esses ciclos possam ser de curta, média ou longa duração. Devido à complexidade da interação entre esses participantes, é impossível determinar antecipadamente se os ciclos de alta ou baixa estão se encerrando ou apenas começando.

Daniel Resende e Felipe Sotto-Maior são empresários e diretores do site www.comparacaodefundos.com

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