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23/05/2011 17:30

Paulo Rocaro: "Faltam locutores com personalidade"

* Paulo Rocaro

A saída do radialista Eraldo Rodrigues Maciel da Rádio Jornal de Amambai, abriu um hiato no setor de comunicação da vizinha cidade. Poderia ter sido uma passagem meteórica e ao mesmo tempo anônima, não fosse um fato: o trabalho realizado por Eraldo é um diferencial na comunicação sul-mato-grossense. A forma e os motivos pelos quais o radialista deixou a emissora mostram que Mato Grosso do Sul ainda está muito atrasado em termos de comunicação de massa.

Não é fácil fazer um programa crítico, pois em todos os quadrantes o que se assiste são casos de emissoras-empresas dominadas pelos poderes econômico e político, que cerceiam e impedem que cada profissional mostre sua potencialidade, sua imparcialidade, sua criatividade e, acima de tudo, sua independência de opinião diante dos desmandos que imperam nestas áreas.

Tivemos este mês no pavilhão de eventos do Anhembi, em São Paulo, a feira Brasil Rádio Show, evento criado para apresentar inovações na radiodifusão e discutir o setor. Tive oportunidade de acompanhar através do portal Imprensa, o painel ‘Quem toca o negócio’, que discutiu a gestão do rádio, a figura indispensável do locutor e qual caminho o veículo deve seguir nos próximos anos.

Destaque na participação de Carlos Townsend, diretor da Digital Work Station, Luís Fernando Magliocca, produtor e diretor da Publinter e Chico Paes de Barros, diretor da Rádio Capital. O ponto uníssono entre todos os painelistas foi a capacitação dos que ficam à frente do negócio em rádio. Ainda que o profissional tenha vocação de marketing e administração, a formação principal deve ser em radialismo.

Chico Paes de Barros afirmou que existe falta de criatividade em todos os setores e que isso atinge a gestão de rádio. Problema maior que a administração da rádio em si é seu posicionamento diante da globalização das informações. Barros indicou o jornalismo popular, no caso da Rádio Capital, como forma de recuperar o veículo. “Mas isso por falta de um locutor de personalidade”, observou. O executivo tocou em um ponto que alvoroçou a platéia de locutores e produtores, e os demais painelistas.

“Hoje não existe mais a figura do locutor que traz o dinheiro (publicidade). Por isso, tentamos associar o produto com a programação, isso para diminuir a dependência do comunicador”. Para Carlos Townsend, “os donos das rádios têm medo que ele [o locutor] fique muito maior que a própria rádio e que, daí, eles percam o controle. Isso é uma bobagem”, acrescentou.

Por aí dá para se entender exatamente o que deve ter acontecido em relação a Eraldo Maciel em Amambai. O Eraldo é tido como um radialista original, polêmico, que eleva a audiência rapidamente, o que quase sempre coloca o dono da emissora em uma posição desconfortável do ponto de vista político. É neste momento que entra o preparo intelectual do proprietário. E nesse ponto, nem todos o possui, cedendo aos interesses econômicos e políticos, ‘rifando’ o profissional para garantir a grana.

Um ponto interessante do debate foi a constatação de que nenhuma rádio quebra pela consistência de um programa ou de um locutor. Ela quebra pelo despreparo de quem está à frente de seu gerenciamento, ou seja, quebra pela má gestão. Lá no painel em São Paulo, Luís Magliocca concordou com a necessidade de uma figura reconhecida pelo público, mas observou a dificuldade em encontrar locutores originais.

“Dizem que o locutor não é importante, e sim o formato. E dizem isso porque você abre uma gaveta e tem demo-tapes de mais de 150 locutores que fazem exatamente a mesma coisa. Aí ele se torna dispensável. O cara pensa: ‘ah, se ele sair, eu coloco outro no lugar e ponto’. E é assim que a rádio vai ser engolida pela Internet”. Se pudesse ter opinado no painel, eu diria: “Já engoliu”.

O debate ganhou corpo quando Townsend concordou imediatamente: “Se a rádio não souber se reinventar, vai fazer programação para gente mais velha, mas, depois, vai sumir, pois mesmo os mais velhos, como nós, vão ouvir podcast”. Voltando à questão da urgência em criar locutores com apelo e personalidade, como é o caso de Eraldo Maciel, acredito que isso tenha que acontecer rapidamente, pois os que temos no mercado estão sendo cooptados por outros órgãos de Imprensa, como sites e TVs.

Com todo respeito aos colegas radialistas da nova era, quando se tira uma âncora com credibilidade estabelecida e se coloca ‘fraldinhas’ inexperientes no comando dos programas, ganha-se em movimentação, mas perde-se, e muito, em conteúdo. Na verdade quem perde é a população, que deixa de ter informação de qualidade e passa a engrossar a fila dos que não trocam a Internet pelo rádio. Então, por conseqüência, quem perde é o rádio, que acaba caminhando para o fechamento.

Lá em São Paulo, o empresário Carlos Townsend lembrou que justamente os podcasts estão revelando pessoas com mais potencial que as rádios: “Falta conteúdo e liberdade de criação nas rádios. Está tudo muito homogêneo. Já no podcast estão surgindo sujeitos que não seguem o formato, não ligam para padrões. E é lá que está o futuro”, falou. “Exatamente”, afirmou Magliocca, “não é só ter uma boa voz, é preciso ter credibilidade! Isso não tem mais, está muito difícil”.

Quando uma emissora abre mão de profissionais de credibilidade para não perder contratos com órgãos públicos, fatalmente caminha para extinção. Mesmo assim, quem gosta do que faz e ainda consegue ‘driblar’ a submissão nefasta aos políticos ou grupos econômicos, deve acreditar no rádio. Senão, vai perceber que a Internet poderá antecipar a agonia e matar de vez as ‘caixinhas de abelha’.

Como bem o disse Chico Paes de Barros, apesar da crise que atinge todos os setores de informação, e não é diferente com o rádio, é preciso melhorar o nível. Aproveitar os poucos, senão raros, radialistas com credibilidade, que fazem a diferença. “E isso passa pela educação, pelo ensino – que é privilégio de uma elite muito pequena – para formar bons profissionais, gente com qualidade, com personalidade, com credibilidade”.

Tendo como gancho a crise citada pelo seu antecessor, Carlos Paes de Barros indicou uma solução em seu último comentário: “Vivemos em um mundo em que as opções de informação são infinitas. Gente, o trânsito é do rádio! A única coisa que a gente pode fazer nessas horas é ouvir! Tem muita gente que só ouve notícias no rádio. Se soubermos tirar proveito disso...”.

* Escritor e jornalista, editor-chefe do Jornal da Praça em Ponta Porã (MS), diretor de jornalismo do site Mercosul News, imortal da Academia Pontaporanense de Letras.





















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