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06/11/2018 14:30

Os prazeres da vida vêm em forma de código de barras?

Por Josemar Maciel e Thiago Müller (*)

Roupas que nunca foram convidadas para um passeio informal nos altos da avenida Afonso Pena. Sapatos que mantém seus cheiros de bebê, mesmo com a longa idade estampada em suas caixas. Que atire o primeiro cartão de crédito aquele que nunca esqueceu o que comprou no labirinto de Nárnia. Fazemos parte de um modelo que nos ensina que alguns prazeres da vida vêm em forma de código de barras.

Mas, como pensar uma melhora na qualidade das relações de consumo? Em primeiro lugar, instaurando a rebeldia da razão no seio dos nossos esforços de comunicação, colocando entre parênteses a própria ideia que temos que consumir ou ser consumidos.

Quem nos obriga a pensar toda a nossa vida, todo o nosso tempo e todas as nossas atividades a partir da repetição de palavras e categorias consagradas? Essa pergunta precisa ser feita, se quisermos mudar alguma coisa.

Somos reféns de uma dinâmica hormonal que nos faz consumir mais e mais? Precisamos mesmo pensar como se fôssemos consumidores? Mas, somos mesmo apenas isso? Se aceitamos essa premissa da nossa vida atual, aceitamos que, diante do mundo, somos passivos e não possuímos poder de criar. Não podemos criar em nenhum ponto do escoamento do nosso sistema de vida e devemos nos acomodar a relações de consumo, em que produtos nos serão oferecidos e nós temos apenas a escolha de afirmar qual deles está mais de acordo com o nosso suposto desejo.

Somos obrigados a pensar a vida como se ela fosse animada pela metáfora da guerra entre figuras que querem e precisam levar algum tipo de vantagem, ou podem perder o prumo, perder o seu lugar ao sol. Mas, como afirmava uma antiga propaganda de uma marca de motocicleta, a vida pode ser mais do que isso.

Mais que produtos acabados, os objetos são indicadores de uma história de relacionamento, de imagem, de prazeres e equilíbrios que começa e se institui. Por exemplo, um calçado será um gesto de ternura e uma forma de identificação, uma relação com tecidos e superfícies, além, obviamente, das cores e texturas que preservam os pés e os movimentos, em caso de temperaturas extremas. E o gesto de comprar e de vender implica também no direito sagrado de negociar, de conhecer detalhes sobre o sistema mediante o qual aquele objeto (coisa deitada aos nossos olhos, do latim ob-jectum) chegou até a minha contemplação. Sem jamais renunciar a isso, da forma que seja possível. Nem que seja na forma de uma resistência obstinada.

Consumo é pouco para descrever a nossa relação com o mundo, para descrever a riqueza do trabalho humano, para descrever a diversidade do ambiente, para descrever os magníficos esforços de criação simbólica que distinguem a espécie humana no que ela possui de mais interessante. Porque a ideia de que ela é uma espécie capaz de agredir, impor vontades, reforçar hábitos e reduzir o ambiente e eventualmente os outros a pó, isso não é novidade, nem é muito "sapiens".

Por isso, pensar as relações de consumo é uma prática que já começa pelo questionamento da própria imagem. Podemos falar em com mais outras coisas, por exemplo. Aqui em Campo Grande, aprendemos dos Guarani a prática do tereré — que é muito diferente da ideia de consumo, mesmo tendo relação com uma bebida, servida em uma cuia com água e erva-mate (e quem sabe outras ervas, para dar mais sabor ou efeitos medicinais específicos). O consumo, como gesto de beber, de deglutir, de esvaziar um recipiente, existe, mas é submisso a outras coisas, outros fenômenos maiores e mais importantes que ele. É aqui que precisamos aprender com os povos ancestrais.

Claro que tomamos o tereré. Mas o mais importante é todo aquele contexto, o ritual de compartilhar uma bebida, o gesto de assentarmo-nos à mesma roda, à volta do mesmo fogo, conversar e contar histórias sem necessidade de verificar tudo, de checar fontes e de desconfiar, desconfiar e edificar um sistema de desconfiança da desconfiança.

No fundo de tudo há uma confiança profunda na presença e na reciprocidade de todo mundo que está ali, naquele instante eterno de conversão a um lapso de eternidade, de conversa, e poder con-versar. Versar-nos todos, juntos, ao redor do mesmo fogo, ali derramar as nossas forças mais importantes, as nossas almas, depois de um dia de trabalho, enquanto o sol se depõe atrás das cortinas do horizonte, para aparecer de novo no outro dia.

Parar o tempo, por algum intervalo possível. Beber juntos. Compartilhar o nosso fogo sagrado. E quando terminarmos, sorrir ao anfitrião e dizer "obrigado". Quem consome é gafanhoto. Lavoisier e os Guarani sabiam mais que isso.

(*) Josemar Maciel é doutor em Psicologia e pós-doc em Estudos Culturais, professor da Universidade Católica Dom Bosco.

(*) Thiago Müller é publicitário, doutorando em Psicologia com estudos em Neuromarketing e professor da Universidade Católica Dom Bosco.

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