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25/08/2005 10:51

Não deve ser desencorajada gravidez após os 30 anos

Agência Notisa

A inserção da mulher no mercado de trabalho determinou um aumento no número de gestações em idade avançada. Apesar dos avanços da medicina, a gravidez tardia ainda oferece riscos.



A nítida mudança do papel social da mulher nos últimos 50 anos trouxe grandes benefícios, como sua inserção no mercado de trabalho, maior presença feminina no ensino superior e métodos contraceptivos. Casamentos tardios ou investimentos na vida profissional acabam por adiar o momento de gerar o primeiro filho. A mesa redonda Gravidez em Idade Avançada, realizada hoje durante o 43º Congresso Científico do Hospital Universitário Pedro Ernesto, reuniu médicos obstetras e ginecologistas em torno de um tema contemporâneo e que preocupa muitas mulheres. O congresso tem como tema central Os desafios do Envelhecimento e acontece no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, até o próximo dia 26.

De acordo com Alexandre Trajano, médico e professor da disciplina de Obstetrícia da UERJ, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, “antigamente, as meninas se casavam muito cedo e, conseqüentemente, a primeira gravidez ocorria entre os 18 ou 20 anos. A pílula anticoncepcional permitiu a escolha do momento para engravidar. No entanto, a mulher moderna paga um preço por adiar o momento de ter filhos, já que, após os 30 anos, os riscos aumentam tanto para mãe, quanto para o bebê”. Segundo ele, a fertilidade também cai vertiginosamente a partir dos 35 anos, o que dificulta ainda mais a ocorrência de uma gravidez não estimulada nesta idade.

Para Marcelo Valle, médico responsável pelo Centro de Medicina Reprodutiva da Clínica Perinatal de Laranjeiras (ou ORIGEM), novas técnicas podem ajudar a manter a fertilidade, mas os riscos da gravidez em idade avançada continuam existindo. “A partir dos 38 anos a qualidade dos óvulos cai. O envelhecimento ovariano diminui a formação de blastocistos e de implementação do embrião, além de aumentar as taxas de aborto espontâneo”, disse Valle. Problemas genéticos também são comuns em uma gravidez nesta idade. De acordo com o médico, a chance de gerar uma aberração cromossômica, em laboratório ou naturalmente, também aumenta. “Estudos indicam que menos de 40% dos embriões, oriundos de gestações onde a mãe está próxima dos 40 anos, são normais”, afirmou.

Como alternativa, nos casos em que a mulher deseja engravidar tardiamente, existe hoje a opção do congelamento do tecido ovariano. “O material congelado permite restabelecer a fertilidade, já que será reimplantado quando a mulher optar por engravidar. Entre os benefícios deste método, em comparação ao congelamento de óvulos, destaca-se o fato de não haver necessidade de um estímulo ovariano, que dura de 30 a 40 dias. Os danos causados ao material genético também são menores. No entanto, a revascularização do tecido ainda é bastante difícil. Além disso, o tecido reimplantado pode conter células tumorais e retransmitir uma doença oncológica no caso de pacientes que optam por este método antes de submeter-se a sessões de quimioterapia”, disse o médico. Mas, segundo Valle, ambas as técnicas precisam ser aprimoradas. “Atualmente, a taxa de aborto em fertilizações in vitro chega a 50%, enquanto a taxa de gravidez não ultrapassa 10%”.

Marcos Vianna, professor de Obstetrícia da UERJ e chefe do ambulatório Pré-Natal do Hospital Universitário Pedro Ernesto, aponta que diferenças sócio-culturais se refletem nas complicações obstétricas mais comuns em gestantes com idade avançada. “Um estudo analisou dois grupos de mulheres grávidas com mais de 30 anos. O primeiro era composto de 800 mulheres, que deram a realizaram o parto em clínicas particulares e o segundo compreendia 900 gestantes que deram a luz em hospitais públicos. As primeiras apresentaram discreta elevação em algumas complicações. Já as gestantes menos favorecidas, que recorreram ao sistema público, apresentaram acentuada elevação em disfunções como diabetes, hipertensão e mortalidade perinatal.

A idade é um fator determinante para alguns problemas relacionados à gravidez tardia, mas a condição econômica, de moradia e emocional destas mulheres também precisa ser levada em consideração”, afirmou o professor. Apesar dos riscos, Vianna não desencoraja mulheres com mais de 30 anos a engravidar. “Quando essa for a única opção para a mulher, ela não deve desistir. O pré-natal continua sendo indicado para gestantes de qualquer idade. Hoje, contamos com testes capazes de identificar doenças genéticas precocemente, além de métodos que podem diminuir o impacto de possíveis complicações obstétricas”, concluiu o médico.


Agência Notisa (jornalismo científico – science journalism)

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