Cassilândia, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

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22/01/2004 07:42

Espaço de Nilton Bustamante

Nilton Bustamante

Amigo, caso queira me conhecer, dos meus poucos dias... em algum lugar do passado.
Quem sabe, serão parecidos com os seus esses dias que não se apagaram?
Leia e viaje... é um convite poético.
Do poetamigo,
Nilton Bustamante












RETORNO




Retornei após muitos e muitos anos ao cenário da minha infância...


De repente vi-me olhando, reparando nos detalhes das ruas, das casas e nas fisionomias das pessoas. Procurava alguma coisa que fosse familiar.

Eu já tinha passado por estes lugares milhares de vezes descalço, com chinelos, com tênis, com sapatos e motorizado; brincando, estudando, namorando, trabalhando...

Muitas épocas...

Tudo, porém, estava mudado.

Buscava algo que ligasse o hoje com os outros tempos.

Mas não adiantava, tudo estava diferente, o tempo passou: não havia mais o cinema do bairro, no qual o meu pai fôra ainda menino assistir os seriados nas matinês; o campinho de terra pisada por pés serelepes, verdadeira arena quando da disputa de flâmulas; o barbeiro que contava as notícias da semana, um verdadeiro agente do SNI; Dna. Maria peluda; o bandolim de uma corda só e vocais à base de cebola; a bailarina do Municipal; “seu” Abraão que fazia sapatos, de quem comprei meu primeiro par de chuteiras para o qual servi euforicamente como cobaia; o peixeiro feirante, pai do Vadinho, que nos fornecia temporariamente caixotes para nossas cabanas; o “Fifi”, o primeiro homossexual declarado; a “maloca”, um cortiço dos primeiros excluídos; dna. Carmem que aplicava injeções; “seu” Camilo, de camiseta e com sua cadeira na calçada vendo o tempo passar; “seu” Cruz, o eletricista com cara de cientista; a criação de pombos-correio, do Frederico; a platéia particular para assistir admirada a primeira televisão da rua; a COAP, uma venda bem sortida de alimentos de primeiras necessidades (e que necessidade) onde os bacalhaus levavam calados seus beliscões, os litros de vidro com leite no qual, sob o selo metalizado, dois dedos de farta gordura “sufocavam” o gargalo, o óleo de cozinha tirado do tambor pela bomba manual, os doces variados que nos chamavam todos os dias, e os donos do estabelecimento, “seu” Daniel e Dona Maria, sempre tão gentis e compreensivos com as cadernetas controladoras das despesas dos fregueses que, em boa parte, eram “pontuais” no atraso dos pagamentos; as fogueiras das festas juninas onde as mulheres traziam a pipoca, o pinhão, o quentão, o vinho quente e os homens alimentando as chamas dançantes que assavam as batatas-doces para a alegria das crianças que jogavam no fogo a planta “peido de velha” que estourava como rajada de metralhadora do filme “Combate”; a vacaria com suas cabeças de gado em disparada pelas ruas no “salve-se quem puder” dando um clima de interior à grande cidade; as “escuderias” dos jovens felizes em frenéticas gincanas com vontade intensa de viver; “seu” Aranha, que sofria a doença transmitida pelo bicho-barbeiro; o homem com olho de vidro; o rapaz que achava que era um cavalo e portava-se como tal, com crina e rabo; o homem com a pena verde traspassada no nariz; as colegiais com meias três-quartos e saias com barras que subiam e desciam; as filas dos alunos cantando hinos antes de adentrarem as salas de aula; as ruas sem asfalto que forneciam matéria-prima para nossas obras de barro; as chuvas que transbordavam as calçadas para levar nossos barquinhos (palitos de sorvete); as ladeiras que serviam de pistas para nossas pranchas de madeira “envenenadas” com sebo e parafina; o “seu” Vicente que furava as bolas que caíam em seu quintal; os alagoanos que todos os sábados tocavam a sanfona e o triângulo em cantigas incompreensíveis; o “Ismaé” com sua charanga a manivela; o homem negro de mais de cem anos que vendia “minduim” sempre rodeado pelas crianças, vindo de lá da Rua Dobrada; as passistas da Escola de Samba Peruche com as armações metálicas à mostra indo para a glória particular; a carroça antiga vendendo bucho e fígado; o peixeiro ambulante, maluco, que dançava com os fregueses em plena rua; o homem do quebra-queixo; a batida seca da matraca anunciando o biju; o alto do “morrão” onde enxergávamos os ocupantes dos teco-tecos pousando no Campo de Marte; as árvores frutíferas generosas diferentemente dos seus donos; a chácara dos padres em cujas paredes havia inscrições em latim; as tardes infindáveis em que ficávamos deitados no quintal olhando para o céu, acompanhando os movimentos e formas das nuvens. Oh! meu Deus, onde estará o Luizão, ex-campeão sul-americano de boxe que, no auge da carreira, era um orgulho muito grande e que após uma luta desastrosa na Argentina ficou com problemas mentais, porém pacífico e infantil andando pelas ruas somente de calças mesmo em dias de frio de zero grau, sorrindo e esquivando-se com coreografia de pugilista das provocações dos amigos? Dona Elvira, alemã, de grande coração, que numa noite de natal correu atrás de mim, criança rebelde, de maneira fantástica para que eu me juntasse à sua família, e sua filha Elizabete que derrubava tudo pela frente ao ouvir o ronco das motocicletas dos galãs semideuses da época? Dona Aida tocando violino? Dona Augusta que lavava seus cabelos com cerveja? O Roberto, neto da Dona Nota, que era maníaco por revistas sobre Drácula a ponto de, apavorado, sentir-se sendo estrangulado? O Atilinho, muito inteligente, que foi criado e preservado para ser um gênio bem sucedido, tenho cá minhas dúvidas do que foi feito de sua infância? O Juan, filho de pai nordestino e mãe boliviana, que levava surras de cabides principalmente na cabeça? Dona Tosca que criava tartarugas e, salvo engano, em cuja casa foi a primeira vez que assisti a um funeral onde já havia livro de presença e urna para “contribuir” com a família? Dona Filomena com cigarro no canto dos lábios consertando caminhões, que um dia, raivosa, jogou o pistom em cima do telhado, pois nem seu amor de mãe agüentou o seu filho Zé “aprender” a tocar o instrumento musical com tanto entusiasmo bem ao seu lado, e noutra ocasião com um pedaço de madeira na mão correu atrás de um time inteiro de futebol que ameaçava o juiz (seu marido Oreste), e como era bonita sua filha Teresa com os olhos pintados como Cleópatra provocando suspiros solitários dos adultos ao passar? Zé Gandaia feliz e sua inseparável carroça? O “Bolão” e seu saxofone, integrante da orquestra da TV Tupi? Os bailes da vassoura na casa da Dona Wanda, onde sempre se destacavam o Salomão e a Divani para delírio geral? Nossos campeões de motociclismo Tucano e Casarini? A escuderia Esmeril com a Madrinha Dona Marta? O Eder Jofre, o maior pugilista brasileiro de todos os tempos? O Ademar Ferreira da Silva, nosso "canguru", medalha de ouro em duas Olimpíadas na prova do salto triplo? A fanfarra maravilhosa do Colégio Bernardino de Campos? Os campos de futebol varzeano, para assistir, com as mãos cheias de tremoços, o amor à camisa dos futebolistas heróis de fim de semana? Os pardais em bandos que passavam apressados pelas manhãs sobre nós e, pela geografia do lugar, notava-se que iam bem longe, em direção das praças da República, Ramos de Azevedo e Sé, parte central da cidade de São Paulo, como se possuíssem a missão de acompanhar os homens que seguiam para trabalhar, buscando o "pão nosso de cada dia", para logo mais, ao final da tarde, retornarem barulhentos, contando uns aos outros os acontecimentos do dia, em direção da Serra da Cantareira, porém com parada obrigatória nas árvores de nossa querida Praça Centenário?

E a minha tia Odete, que à força me deu um banho com bombril para tirar os "excessos infantis?”.

Oh! Casa Verde que te quero toda verde, toda amiga, toda cenário de minha infância.

Esta busca talvez seja uma necessidade de o homem encontrar a própria identidade, a própria raiz. Uma exigência inerente ao ser humano em demarcar seu espaço, onde está impressa toda uma história, sua própria história; onde seu cordão umbilical necessariamente tem que estar ligado, ainda que de longe, caso contrário ele é como um navio sem pátria e sem porto; um ser sem “registro” precário nas emoções.

Após muitas fisionomias anônimas achando que minha busca estaria frustrada, por estas boas coisas que a vida proporciona, surgiu um olhar. Sim, um olhar finalmente conhecido: uma mulher exuberante que, rebuscando rapidamente na minha memória do “ontem”, lembrei que era apenas uma menina-moça que passava pelas mesmas ruas.

Em seu olhar uma nítida impressão de quem não desperdiça um lance, próprio daqueles que lutam pela vida para conquistar a alegria de viver e até, quem sabe, o calor de alguém; fixou-me imponente. Olhou-me de tal maneira que era óbvio que buscasse lembrar-se de algo. Percebi em seu jeito uma energia daqueles que não desistem de sonhar em ser feliz. (Seriam os seus olhares somente espelhos que refletiam a mim mesmo?) Era evidente nessa mulher chamar a atenção das pessoas mesmo sem a intenção. Porém, muito desses olhares masculinos pareceu-me ser de caçadores que não entendem que uma “fera-mulher” não é para se enjaular, mas sim ajudá-la manter-se em liberdade; livre para buscar seus devaneios...

O homem que quer ter o amor de uma mulher assim não deve escravizá-la aos seus caprichos mesquinhos e às suas necessidades mais banais, mas sim libertá-la, fazendo amadurecer a vontade de descobrir, conjuntamente, todas as expressões do amor ou da paixão, que começa antes de tudo com o respeito e a confiança e tratá-la com todos os mimos que uma mulher que sabe ser mulher na essência sempre merece.

Aquele ser que desfilava fazia os homens ao redor desdobrarem-se em admirá-la.

Pude finalmente sentir o gostinho de encontrar, através dela, a prova material de um passado real, o elo que me ligaria às lembranças do colégio, dos amigos, das matinês aos domingos, dos vizinhos, dos acontecimentos de um passado bem próximo, registrados em minha lembrança, eternas lembranças...

autor: Nilton Bustamante

nbustamante@ig.com.br

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