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27/01/2010 10:30

Ensaio - Manoel de Barros: a poesia sob um novo olhar

*Por Nilza Aparecida Fernandes Simões




Alcançar os objetivos quanto ao ensino de leitura tem sido um grande desafio, um trabalho de fôlego para muitos professores, sobretudo porque está cada vez mais difícil concorrer com uma diversidade de recursos tecnológicos que, de alguma maneira, impedem a prática de leitura por parte de muitos alunos. Essa peleja torna-se mais intensa no Ensino Fundamental, especificamente, com turmas do 6º ao 9º anos. Quando se trata do trabalho com poesia, então, aí as coisas se complicam. O que se ouve dos professores é: “Eu não consigo trabalhar poesia com meus alunos”; “Eu não gosto de poesia, porque eu leio e não entendo o que quer dizer”; “Trabalhar com poesia é complicado, exige muito da gente”, etc.etc.
Em que pese tais considerações, é preciso que os professores estejam conscientes de que o trabalho com a poesia em sala de aula é, de fato, algo que exige muito deles e que, na maioria das vezes, muitos professores não estão aptos e preparados para cumprir tais propósitos. Em primeiro lugar, esse trabalho exige um professor leitor, e esse, infelizmente, não é o perfil da maioria docente. Por outro lado, durante toda a vida escolar e acadêmica, a maioria dos professores enquanto alunos, não tiveram por hábito a leitura de poesia. Como então trabalhar poesia com os alunos, sem repertório de leitura de poesia? Daí, a prática desse tipo de leitura ser encarada como uma tarefa árdua, uma cruz, um fardo pesado a ser carregado para o resto da vida.
Não obstante, existe, por parte da maioria dos professores, a assertiva de que, para se trabalhar com poesia, é preciso compreendê-la, interpretá-la dentro dos padrões estruturais pregados até então, tidos como ideais para a sua análise e seu entendimento. Em relação à poesia da modernidade, em especial a poesia de Manoel de Barros (poeta sul mato-grossense), esses aspectos adquirem características irrelevantes, sem importância, uma vez que a pretensão do poeta é romper com as barreiras convencionais da palavra, da gramática, do signo lingüístico.
Vale perceber que Manoel de Barros é criador de um discurso único na poesia da modernidade. Seus textos primam pelo estilo inovador, libertário, livre das amarras tradicionais em relação à estrutura poética. De estilo neológico, ele cria uma espécie de “agramática”, em que as palavras adquirem qualidade de donas do texto. Nessa perspectiva, postula Levy (2003: p. 20), “a linguagem constitui seu próprio universo, cria sua própria realidade”. As palavras permitem inovações e novos sentidos. São capazes de mudar o sentido e dar feição inovadora às coisas do mundo real, mesmo porque, para o poeta, as palavras não possuem barreiras. Desta maneira, como diria Mallarmé, o poeta torna-se escravo da palavra, haja vista que, na concepção de Manoel de Barros, o que ele quer fazer é brincar com palavras, fazer coisas desúteis, “o nada mesmo”; “tudo que use o abandono por dentro e por fora”.(Livro sobre Nada, 2002: p. 7).
Segundo Aragon (Apud Friendch, 1991: p. 151), “a poesia só existe graças a uma recriação contínua da linguagem, o que equivale a um rompimento da tessitura lingüística das regras gramaticais da ordem do discurso”. Isso significa que a poesia está sempre em busca de uma nova linguagem. Em outras palavras, pode se dizer que, “a poesia é uma experiência nova a cada vez”. A cada leitura de um poema, a experiência acaba ocorrendo, e isso é poesia (Borges, 2000: p. 15).
Na poesia, a liguagem encontra espaço livre para desenvolver-se. É o que faz o poeta Manoel de Barros em toda a sua obra, de modo que “o eu lírico desdobra-se no duplo de um poeta empenhado em resgatar o seu idioma, todas as possibilidades expressivas, a ponto de esgarçar no limite as fronteiras normativas”. (In: Ensaios Farpados, p.110).
Na verdade, com uma linguagem inovadora, Manoel de Barros prova que, na realidade, não existem percursos, rumos, caminhos pré-estabelecidos para a poesia, ela flui. Mesmo porque “é preciso atrapalhar as significâncias” (Livro Sobre Nada, 2002: p. 43). Nesse sentido, é preciso que o leitor da poesia manoelina conheça a fundo os aspectos embrenhados que a comportam, e seja acima de tudo, capaz de ir muito além dos aspectos semânticos, pragmáticos e lingüísticos do texto, para assim poder incorporar essa nova linguagem poética. Para Barros, “poesia não é para compreender, mas para incorporar”. Logo, o leitor é convidado a entrar para o jogo discursivo do poeta. Em outras palavras, “o leitor de poesia deve estar ciente de que estará lendo invenções do poeta, a partir de um idioleto original do enunciado”(In: Ensaios Farpados, p.117)
Fazer-se cúmplice da linguagem poética de Manoel de Barros exige um envolvimento maior com a poesia, e a estas alturas, trabalhá-la na sala de aula, nas aulas de leitura, exige do professor um novo olhar para a poesia sob o enfoque estético, cultural, artístico, sentimental e humanizador. É preciso, acima de tudo, sentir-se poeta.
Diante disso, nosso objetivo com este ensaio, é propor aos professores uma espécie de método para se trabalhar com a poesia manoelina, e esperamos poder contribuir para o trabalho de muitos professores em relação à prática de ensino de leitura de poesia na sala de aula.

Proposta de atividade

Toma-se com o objeto de leitura a obra O Fazedor de Amanhecer (Editora Salamandra, 2001). É um livro ideal para o trabalho com os alunos da Educação infantil e turmas do Ensino Fundamental. Ilustrado por Ziraldo (um dos maiores ilustradores e escritores da Literatura Infanto-juvenil), O Fazedor de Amanhecer é uma obra que desperta o interesse pela leitura, por parte de muitas crianças, por conter gravuras, desenhos bem coloridos, significativos, expressivos, que lhes chamam a atenção, seja pela figura do avô, do “menino tatu”, de “Bernardo Árvore”, da mão nos cabelos de Deus, ou pela ousadia da poesia sobre os meninos que fazem campeonato de xixi nos jardins da Praça da Matriz, etc. Os professores vão perceber que, aliada à escrita, a linguagem visual per si, já poderá despertar o interesse dos alunos pela leitura. É essencial então que todos os alunos tenham acesso ao livro antes da leitura. O professor poderá adotar a seguinte estratégia:
Num 5º ano, por exemplo, o professor coloca os alunos em círculo, na sala de aula, e vai passando o livro a cada um dos alunos para que eles peguem, olhem, folheiem e sintam-no, observando a capa, o título, os desenhos, etc. Seria interessante que o professor providenciasse pelo menos cinco exemplares do mesmo livro para o caso de ser uma sala com um número considerável de alunos. Simultaneamente, o professor pode tecer comentários sobre o autor: onde nasceu, que obras tem publicadas além dessa, etc. Após isso, de modo extrovertido, entusiástico, “teatral”, o professor faz a leitura completa da obra, chamando a atenção dos alunos para o desenho, as cores e, sobretudo, para a mensagem que cada texto traz, ou seja, para a leitura. Em seguida, pergunta aos alunos: Qual foi a poesia de que mais gostaram; o que sentiram; qual o desenho que lhes chamou a atenção; por quê; o que significa “fazer amanhecer”?
Se o professor pretender explorar outras leituras dessa mesma obra, poderá tomar como base o texto “Eras”, promovendo o debate e a produção de texto oral, questionando: “Quem já brincou de faz de conta? Quem teria coragem de fazer de conta que um sapo é uma pedra e sentar-se em cima dele? E em cima do tatu? Quem já viu um tatu? Onde podemos encontrar esses bichos? Você queria ser um caramujo e viver escondido? Em que situação isso poderia ocorrer? Quem já fez imagem de pessoas com nuvem, de pessoas com árvore? De pessoas com pedra? Quando, onde e como isso ocorreu? O que é “encostar na porta da tarde”?
Em relação ao texto “Campeonato”, o professor poderá tecer os seguintes comentários:
Os meninos já fizeram campeonato de xixi? E as meninas, fazem que tipo de campeonato? etc, etc, etc.
O professor deve dar espaço para que os alunos comentem o texto lido. Poderá também, a partir da leitura, proporcionar a produção oral de texto com os alunos, que é uma atividade significativa para o desenvolvimento intelectual, para a desinibição e a socialização na sala de aula. Poderá então adotar a seguinte estratégia:
Vamos brincar de faz de conta? Quem quer ser um tatu? E um sapo!? E um grilo!? Qual outra figura que está no livro que você gostaria de ser? Por que você escolheu esse bicho ou essa figura!? O que isso representa para você? Deixar que os alunos produzam o texto oralmente, de maneira espontânea, ou então, promover o diálogo entre um e outro, sendo que um aluno pode fazer de conta que é um sapo e o outro um tatu, ou um caramujo, ou uma borboleta, ou o bicho que quiser ser. Esse diálogo pode ser sobre a extinção de alguns animais do Pantanal, por exemplo. O diálogo deve ser espontâneo e partir dos próprios alunos. Eles também poderão imitar esses bichos através da expressão corporal e/ou da expressão oral.
É certo que esse trabalho exige do professor o reconhecimento de que cada turma, que cada aluno, na sua individualidade, dentro das suas possibilidades e condições físicas, intelectuais, sociais, vai reagir de maneira peculiar em relação a esse tipo de atividade, e é certo também que a leitura adequada do texto poderá ser suficiente para despertar no aluno o gosto pela poesia. O professor deve, ainda, orientar esse trabalho mostrando aos alunos que ler poesia é brincar com as palavras. Entrar nessa brincadeira, nesse jogo de linguagem pode ser muito divertido e muito mais fácil do que aparenta ser para muitos professores.
Tendo em vista que o trabalho com a poesia adquire importância maior na prática, esperamos que os professores possam fazer uso da poesia manoelina, de maneira prazerosa, frutífera, tornando as aulas mais dinâmicas, agradáveis e motivadas, despertando no aluno o gosto pela leitura.


Referências Bibliográficas


BARROS, Manoel de. Livro Sobre Nada. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.

_____. O Fazedor de Amanhecer. Tio de Janeiro: Salamandra, 2001.

BORGES, Jorge Luís. O Enigma da Poesia. In: ___ Esse ofício do verso. Trad. José Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

FRIEDRICH, Hugo, Estrutura da lírica moderna (da metade do século XIX a meados do século XX). 2ª ed. São Pulo: Duas Cidades, 1991.

LEVY, Tatiana Salem. A Experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. (Conexões; p.19)

RUSSEF, Ivan; MARINHO, Marcelo Santos; SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco dos (org.) Ensaios Farpados: arte e cultura no Pantanal e Cerrado. Campo Grande: UCDB, 2003.



*Graduada e Especialista em Letras, pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS); Pedagoga e Especialista em Gestão Escolar, pelas Faculdades Integradas de Cassilândia; Aluna Especial do Curso de Mestrado em Letras, pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS); Professora de Língua Portuguesa, Redação e Literatura na Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul (Educação Básica; Curso Estadual Pré-Vestibular); Professora de Língua Portuguesa no Curso de Letras (UEMS) e Redação do Sistema Positivo de Ensino.

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