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25/12/2014 08:07

Em paz com o passado, gêmeas separadas na infância passam o 1º Natal juntas

Paula Maciulevicius, Campo Grande News
Em paz com o passado, gêmeas separadas na infância passam o 1º Natal juntas

 

Não querendo parecer piegas, de escrever que o Natal é o momento de refletir, de perdoar, de dar uma segunda chance, mas até hoje não existe outra data no calendário que seja mais propícia a estes sentimentos do que o final de um ano. É nessa época que surgem as histórias de família que emocionam, exemplos que vem de dentro das casas, de gente que trabalhou o amor dentro de si e neste dia 25 se senta à mesa da ceia ou do almoço para dividir o espírito natalino. Talvez pela primeira vez.

 

Foi necessário o calendário marcar 40 vezes o "25 de dezembro", para enfim a manicure Lucimar Aparecida de Souza, de 40 anos, passar a primeira ceia com a família. Separada da irmã gêmea quando criança, é hoje que ela realiza o sonho e por amor à esta família, em especial, à mãe, que ela aceita compartilhar com o Lado B sua história.

Quando tinham 6 meses de vida, Lucimar e Luciana foram 'dadas' pela mãe, aos familiares. Luciana ficou com uma avó, Lucimar foi criada pelo tio, irmão da mãe. "Aí com 11 anos nós fomos morar totalmente longe uma da outra. Até 11 anos convivemos perto, ela numa casa e eu na outra. Eu tinha uma vida totalmente diferente da dela. Tive tudo do bom e do melhor, ela não tinha nada. Até que um certo tempo da vida a gente se reencontrou", conta.


A mãe das duas, dona Abadia, não quis saber das filhas. É assim que a manicure descreve a ligação entre elas e a mãe num passado que ficou para trás. Ela era garota de programa e coube à filha trabalhar o perdão dentro do coração para que o sentimento em relação à mãe não fosse o de julgamento.

"Minha mãe foi embora. Não quis saber da gente. Quando minha avó faleceu, eu vim embora para Campo Grande. A gente se reencontrou com 18 e começamos a morar uma perto da outra. Quando eu tive meus filhos, ela esteve presente", relata Lucimar, hoje mãe de três filhos e avó de três crianças.

"A vida passa, as coisas acontecem. Esse ano, pela primeira vez passamos o Dia das Mães com a nossa mãe, a nossa mãe verdadeira".

O tempo castigou. Foi cruel. Não poupou Lucimar e nem a irmã. Por não terem sido criadas dentro uma casa onde da cozinha saísse um peru e à mesa se sentassem todos os familiares, elas nunca compartilharam as delícias e a magia do dia 25 de dezembro.

No meio deste ano as filhas receberam a ligação de que a mãe verdadeira passava muito mal. "Nós fomos buscar ela em Paranaíba, trouxemos, cuidamos e amamos essa mãe muito. Eu e minha irmã amamos aquela mãe que nunca cuidou da gente, mas eu pude fazer para ela o quanto a amava e o quanto eu desejei que ela fosse a minha mãe, mesmo eu não querendo ela por muitos anos da minha vida".


Juntas, as duas abriram mão de planos de viagens e passaram dois meses dispensando cuidados à mãe biológica. "Aquele momento, em que a gente estava para cuidar dela, nos uniu. A minha família se juntou mais. Nunca tínhamos passado essa ceia todo mundo junto como a gente está fazendo. De sentar e ver o que cada um vai levar, isso está sendo tão especial e a gente só queria nossa mãe perto da gente".

Dona Abadia morreu dia 15 de outubro, vítima de complicações da AIDS. "A vida toda que eu poderia ter tido com a minha mãe foi simplesmente em dois meses. Foi de muita tristeza, mas teve muita alegria. Rimos e demos o melhor para ela", desabafa a manicure.

Neste dia 25, Lucimar descreve a mim a cena e consigo ver perfeitamente, como se estivesse ali assistindo aos sorrisos, às conversas, à realização de um sonho que sempre existiu. "A gente vai ficar junto e por mais simples que seja, a gente que resolveu fazer, que foi lá e fez e estamos felizes por essa situação. Minha família não é perfeita, mas é aquela que Deus me deu e eu quero passar isso para os meus filhos", descreve.

Na noite do dia 24 para o dia 25, colchões vão tomar conta da sala. "Dorme todo mundo junto e vou acordar e ver que minha família está ali. Isso, pra mim, é melhor que qualquer coisa. Natal é nascimento de Cristo, para o comércio, é a troca de presentes, mas para mim é família", explica.

Lucimar não comprou nada para ninguém, mas investiu o dinheiro na vaquinha da ceia para juntos, os familiares todos comerem melhor.

"Eu demorei muito tempo para perceber que tinha a minha família. A família Souza: Luciana Aparecida de Souza, Ludmila Souza Cardoso Franco, Ana Lídia Souza Cardoso, João Rafael Souza Cardoso, Nicole Souza Franco, Emanuel Souza Franco, Lucas Eduardo Souza Franco e Neilton Coelho que é o meu cunhado que faz parte da nossa família.

Natal para mim é isso, é estar simplesmente ali. Vamos ficar na nossa casa, no Jardim Noroeste, é simples, mas é ali que a gente vai rir e vai ser feliz. É a minha primeira ceia de Natal, eu até chorei por isso. As pessoas podem pensar, mas ela está chorando por isso? Mas eu sei, eu sei qual é o significado disso para mim. A minha felicidade hoje é isso".

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