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06/09/2018 14:00

Elizene casou 2 vezes com o mesmo homem e luto chegou dobrado após acidente

Campo Grande News
Um único amor, dois casamento e uma história de 26 anos juntos que nunca vai sair do coração de Elizene. (Foto: Arquivo Pessoal)Um único amor, dois casamento e uma história de 26 anos juntos que nunca vai sair do coração de Elizene. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um dia a gente encontra alguém e passa anos compartilhando o que há de melhor e pior na vida de um casal. Depois de altos e baixo, da alegria e da tristeza, da saúde e da doença, alguém vai embora. A morte é perda, mas também volta no tempo, hora de reaprender a andar só. Por isso, o Lado B abre hoje espaço para histórias de relações desfeitas pela morte, para falar de recomeços e ajudar pessoas a superar o luto.

Foi na manhã do dia 11 de abril de 2014 que Elizene Moraes Rodrigues, de 55 anos, deu último "tchau" para o marido. O dia havia amanhecido diferente quando ela foi até a janela e cruzou com o olhar dele até perder o carro de vista. Horas depois, a notícia: um acidente de carro levara a pessoa com quem casou duas vezes. Dois anos depois, o sorriso acima é de quem chega a perder o fôlego ao falar da história, mas com a calma de quem supera o luto após anos de angústia.

E olha que tudo começou sem enrolação, sem enfeites, conta a artesã. "Nos conhecemos em um bar, do jeito mais clichê possível, entre amigos. Mas a partir daquele dia ficamos juntos".

Um ano depois chegou a primeira filha e problemas familiares fizeram Elizene e o marido Ademir Rodrigues de Souza se separarem. "Ele era filho único, estávamos juntos, mas ele ainda não tinha a independência que um casamento exigia. Foi quando eu decidi ir embora e deixar ele sozinho. Ele não acreditava que eu teria coragem".

Meses depois, Ademir voltou, pediu Elizene em casamento com a certeza que tudo seria diferente. "E foi a coisa mais incrível do mundo. Nunca imaginei dois casamentos com a mesma pessoa, o primeiro foi a realização de um sonho, o segundo a certeza do felizes para sempre, era o que a gente falava um para o outro".

Em casa, a relação sem glamour era o que tornava a rotina dos dois mais atraente. "Estávamos sempre juntos, ele não cozinhava, mas estava ali do meu lado dando beijinhos, servindo a nossa cervejinha, conversando de assuntos que só interessava a gente. Era assim dia de semana, fim de semana, sempre que tínhamos um tempinho juntos".

Elizene lembra com exatidão os passeios que faziam. "Só íamos ao shopping juntos, ele adorava loja de móveis e decoração, a gente fica pensando ao longo dos anos como iria decorar cada canto da casa".

Até as brigas fazem falta. "Eu era mais durona, queria educar os filhos, mas ele era um coração meigo que queria deseducar. Daí surgiam as brigas, mas nunca dormíamos sem um beijinho de boa noite".

O dia do acidente é contado em lágrimas, ao se dar conta que naquele dia ela sentiu que algo não estava bem. "Ele chegou triste na noite anterior, mas não disse o que era. Fomos dormir e na manhã seguinte ele foi fazer um trabalho como mecânico em Sidrolândia. Naquela manhã fui para igreja, rezei por ele e em seguida fui para o meu curso de pintura".

O telefone toca e uma amiga de Elizene pede um encontro. Ao chegar em casa, o rosto de quem a esperava não negou a tragédia. "O Ademir morreu? Essa foi a minha pergunta e o olhares foram de susto. Sim, naquela hora eu percebi que a minha angústia tinha sido um aviso".

Elizene conta que nunca havia ido em velórios e naquele momento disse que não teria coragem de ver o marido no caixão, foi quando recebeu uma notícia que chocou ainda mais a família. "Ele colidiu na estrada com uma carreta. No momento do acidente o carro explodiu e ele foi carbonizado. Até então eu não sabia disso, foi quando me contaram que velório seria de caixão fechado".

Dias após a morte, ela conta que tentou fugir da realidade e esquecer que havia perdido o marido. Péssima escolha, afirma Elizene. "Deveria ter vivido meu luto desde o primeiro momento, mas eu acreditava que não era capaz de passar por aquilo então decidi viver um vida que só foi me deixando pior sem que eu percebesse".

Por um ano Elizene diz que não foi capaz de sentir o sabor da comida. "Emagreci mais de 20 quilos, perdi a fome, esquecia de comer. Depois vieram as crises de ansiedade, o medo de ficar sozinha, de lembrar do Ademir".

A depressão bateu à porta quando Elizene resolveu buscar ajuda profissional. Na sala do psicólogo, a resposta de que precisava enfrentar o luto e entender que o marido havia partido. "É uma dor tão forte que só quem passa por isso entende, mas eu tentava burlar isso, fingir que não era comigo, mas sem me dar conta que meu inconsciente não queria mais viver".

Mas foi em sonho que Ademir apareceu duas vezes para Elizene e fez ela entender que sua vida precisava voltar ao normal. "A primeira vez que sonhei com ele foi por ciúmes. Uma amiga me disse que se ele partiu foi porque não era vida dele comigo, que ele já estava com outra pessoa. Eu fiquei tão mordida de ciúmes que naquela noite sonhei com ele e brigamos feio", conta cheio de sorriso.

Em outro dia, Ademir parecia enviar uma mensagem. "Ela apareceu fazendo um gesto e pedindo para que eu e nossos filhos olhássemos o mundo através das suas mãos. Olhei tudo em volta e foi como se ele tivesse pedindo para que eu voltasse a olhar o horizonte".

Assim Elizene fez, passou a se dedicar aos artesanatos, a doação, a conversa com os amigos, a respiração. "Eu não respirava. Parece que falta o ar quando a gente pensa em tudo que aconteceu. Chega um momento que a gente começa a se questionar e isso dói. Mas eu fiz de tudo para vencer".

Ademir duvidava que existia no mundo alguém mais feliz do que ele. "Ele dizia que nem a pessoa mais milionária desse mundo tinha a mesma felicidade que a dele. Era um apaixonado pelos filhos, queria protegê-los. De um jeito simples queria deixar tudo bonitinho e arrumado em casa. Era amoroso, respeitoso, amava reunir amigos".

São esses detalhes que ficaram para Elizene como alento, todos os dias, ao lembrar do marido. "Com certeza é o amor que me faz seguir em frente. Foi tudo que ele me deixou e eu agradeço muito por isso".

Hoje, as coincidências do "e se" Ademir não tivesse viajado, e se ele tivesse contado porque estava triste, e se Elizene tivesse impedido, hoje não fazem mais sentido. "Por muito tempo eu questionei a mim e a Deus. Mas chega um momento que a gente entende que o luto é preciso e a morte não depende da gente. Eu só peço que ele esteja bem independente do lugar e que o amor que ele deixou nunca saia do meu coração e dos meus filhos", finaliza.

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