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19/08/2015 11:00

Duas semanas de inatividade física já provoca perda de força

Saúde Plena

 

Os praticantes de atividades físicas, especialmente os mais displicentes, reconhecerão a cena: ao retomar os exercícios depois de algumas semanas de folga, a impressão que se tem é de que a esteira se tornou mais veloz do que o normal. Os halteres também parecem confabular contra a boa disposição. Ficam excessivamente pesados, muitos mais do que eram nos treinos habituais. Pesquisa publicada no Journal of Rehabilitation Medicine mostra que a sensação não é sinal de que a preguiça se instalou, mas realmente de falta de força. São necessárias apenas duas semanas de inatividade para que jovens adultos percam um terço da força muscular, se equiparando, nesse sentido, a pessoas com 40 a 50 anos.

As conclusões são de pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Eles fizeram uma série de experimentos para verificar cientificamente o que pessoas lesionadas observam naturalmente durante a recuperação: um definhamento, ainda que discreto, na musculatura do membro imobilizado. Mais precisamente, Martin Gram, principal autor do estudo, procurou quantificar quanto tempo leva para que isso ocorra. Segundo ele, apenas 15 dias de inatividade são suficientes para que a força muscular diminua consideravelmente. O efeito é maior entre os jovens. Gram chegou a essa constatação após examinar o que acontece na musculatura de homens em média 23 anos e idosos após um período de grande inatividade em uma das pernas, que foi imobilizada.

A condição afetou a força dos dois grupos igualmente. “Mas os mais jovens perderam um terço da força muscular, enquanto os idosos, por volta de um quarto”, conta Andreas Vigelsø, coautor da pesquisa e membro do Centro de Envelhecimento Saudável e do Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Copenhague. Os estudiosos também verificaram que os jovens perdem duas vezes mais massa muscular. Isso acontece porque eles têm mais músculos, portanto, acabam sendo mais prejudicados, explica Regina Fornari Chueire, presidente da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação (Abmfr).

Chueire conta que, a partir dos 50 anos, as pessoas perdem de 1% a 2% de massa magra. O fenômeno é chamado sarcopenia. O estudo dinamarquês verificou que os homens jovens têm aproximadamente 1kg a mais de massa muscular em cada perna, quando comparados aos idosos. Durante a imobilização de duas semanas, os jovens perderam 485g, em média, de musculatura, enquanto os mais velhos pereceram em aproximadamente 250g. Além disso, a aptidão física dos participantes piorou.

“Isso significa que, se você que está em forma e com boa musculatura se ferir, provavelmente vai perder mais massa muscular do que alguém sedentário”, explica Martin Gram. Entretanto, ainda que percam menos massa magra, a situação é mais crítica para os idosos. “Eles têm menos massa para perder. Ao envelhecermos, a única coisa que ganhamos é experiência, pois todo o resto perdemos. Por isso, é fundamental que os idosos permaneçam ativos”, aconselha Ricardo Nahas, coordenador do Centro de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital 9 de Julho, em São Paulo.

O médico do esporte observa que os resultados do estudo dinamarquês ressaltam que não adianta as pessoas serem apenas magras. “Às vezes, ela tem um índice de massa corporal (IMC) adequado, mas é gorda porque possui mais massa gorda do que magra. Por isso, é imprescindível fazer um exame detalhado nos braços e nas pernas. Assim, diferenciamos quem está na faixa normal do falso magro”, alerta.

Recuperação com treinamento de peso

A equipe liderada por Martin Gram também investigou o tempo em que os participantes demoraram para recuperar a força. Os participantes foram instruídos a pedalar pelo menos três vezes por semana com carga leve durante um mês e meio. “O treino com bicicleta não foi suficiente para que os dois grupos recuperassem a força inicial. O ciclismo, no entanto, ajudou as pessoas a recuperarem a massa muscular perdida e atingir o nível anterior de aptidão física”, disse o autor.

Os jovens tiveram melhor resultado nesse sentido, conseguindo aumentar, em média, 600g de massa magra. “No entanto, se você quiser recuperar a força muscular original, não apenas a massa, precisa incluir o treinamento com peso”, aconselha Andreas Vigelsø, coautor do estudo.

Para Ricardo Nahas, coordenador do Centro de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital 9 de Julho (SP), os resultados eram esperados. Segundo ele, faz um tempo que esses conceitos auxiliam a medicina esportiva no desenvolvimento de estratégias de recuperação. “Hoje, mantemos os atletas ativos. Se um corredor sofre uma lesão e não pode correr, ele vai pedalar”, exemplifica.

Normalmente, os trabalhos de recuperação da força muscular incluem treinamentos de força, como musculação. “Pedimos ao paciente, mesmo imobilizado, que faça alguns exercícios. Por exemplo, ao esticar a perna, existe uma contração da coxa. Se isso acontece com o membro livre, imagine dentro do gesso. Isso endurece a coxa sem que a pessoa precise empenhar um movimento”, explica Nahas.

Regina Fornari Chueire, presidente da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, considera o artigo relevante para o desenvolvimento de melhores abordagens tanto para os jovens quanto para quem chegou à terceira idade. “Nossa sociedade está envelhecendo com mobilidade reduzida. Por outro lado, cada vez mais temos jovens sequelados por acidentes de trânsito, que passam por períodos de imobilização, aproximando esses extremos da vida nos processos de reabilitação”, diz. Nahas, porém, contrabalança que a pesquisa apresenta alguns pontos falhos. “A amostra é pequena e o trabalho foi feito em pessoas sadias. Elas, mais cedo ou mais tarde, vão recuperar tudo que perderam. Não há nada que impeça isso. O cenário é completamente diferente para os lesionados. Nesse caso, o tempo de recuperação pode exceder as seis semanas, chegando a oito ou 10”, pondera.

“Se você quiser recuperar a sua força muscular original, não apenas a massa, precisa incluir o treinamento com peso” - Andreas Vigelsø, pesquisador do Centro de Envelhecimento Saudável e do Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Copenhague

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