Cassilândia, Terça-feira, 23 de Maio de 2017

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12/05/2017 10:39

As mães que nos desculpem, mas não comemoramos o seu dia aqui na escola.

Por Dayse Gonçalves

Estamos a pouco menos de um mês das comemorações pelo dia das mães. Muitas escolas levam as datas comemorativas muito a sério – as chamadas efemérides – e chegam a alterar a rotina escolar, gastando parte de seu precioso e escasso tempo com a realização de tarefas que pouco valor formativo têm para as crianças. Hoje, por exemplo, data em que escrevo este post, tem gente comemorando o “Dia do Índio”. Em algumas escolas as crianças produzem desenhos de índios, voltam para casa com uma pintura no rosto ou um usando um cocar. Quando muito, alguma informação relevante sobre a cultura indígena.

Fico numa tristeza danada quando penso no lugar que algumas temáticas ocupam no currículo escolar quando o critério de seleção de conteúdo é o calendário, por exemplo! Mas isto é outro problema.

Voltando às mães, preciso dizer: o fato de não lhes rendermos homenagens na forma de pequenos presentes não significa que não reconheçamos sua importância. Pelo contrário. Por reconhecermos sua grande importância – na sociedade e na família -, cremos ser desnecessário agradá-las organizando comemorações que vão exigir sua presença num horário em que a maioria de vocês está envolvida com suas atividades profissionais, das quais, com certeza, a maioria inclusive se orgulha. Sem falar que nossa função é de fato outra.

Lembrei-me de um episódio, ocorrido há alguns anos, quando uma mãe queridíssima me telefonou para dizer o quanto estava triste por não ter sido lembrada pela escola, enquanto as mães dos colegas de condomínio de seu filho exibiam envaidecidas os presentes construídos nas aulas de Arte. Ficamos um bom tempo conversando sobre o assunto. Chegamos então às transformações sociais e, por extensão, às transformações pelas quais vem passando a família pós moderna. Chegamos às famílias monoparentais, às homoparentais, as famílias nas quais as crianças não convivem com suas mães ou já as perderam.

É curioso, não é mesmo? A sociedade muda e a escola não muda! Já não é hora de nos libertarmos de velhos padrões e também de muitos preconceitos? A propósito, não temos que ensinar isso a nossos alunos?

Para finalizar, proponho a leitura de uma divertida crônica de Adriana Falcão que encontrei na internet. Depois de lê-la verão que estão justificadas todas as declarações e demais manifestações de amor que recebemos todos os dias de nossos filhos, através dos desenhos e bilhetinhos carinhosos que nos deixam, dos muitos beijos e abraços, que valem muito mais que qualquer bem de consumo que as lojas insistem em vender no mês de maio.

Um dia de mãe

Chegou exausta, cheia de sacolas, dor de cabeça, morta de calor, faminta, caótica, e com um firme propósito: tomar um banho e cair na cama. Encontrou uma acalorada discussão a respeito da impossibilidade de dividir um computador em três (sem despedaçá-lo) e as três crianças aos berros. Todas as luzes da casa estavam acesas. A pressão subiu um pouco.

– Vocês querem fazer o favor de apagar as luzes enquanto eu tomo o meu banho?

Inútil. Todos os membros da família foram acometidos da síndrome de pensar em outra coisa, mal muito comum entre maridos e filhos durante reclamações, queixas, opiniões etc.

Saiu pela casa desligando tudo que estava aceso para o nada: lâmpadas, som, TV, internet…

– Por isso que eu liguei pra cá e só deu ocupado o dia inteiro!

– O quê?

Nada. Já tinha desistido de competir com o walkman fazia muito tempo.

No quarto da filha mais velha, dezenove blusas, cinco saias e quatro vestidos estavam espalhados em cima da cama para devida apreciação da mesma.

– Vai sair?

– Desisti. Não tenho roupa.

A pressão subiu vertiginosamente. Bobagem. Nada que um banho não resolvesse.

– Esse jantar não sai hoje não?

Esquece o banho.

– Sopa de novo?

Calma.

– Ergh!

Respira.

– Por que eu não tenho copo?

Palpitação moderada. Coisa controlável. Foi buscar o copo.

– Aproveita que tá na cozinha e frita um ovo pra mim?

Claro. Fritar ovo inclusive é uma ótima terapia ocupacional pra quem já passou por dois engarrafamentos, banco, pediatra, ginástica, supermercado, uma papelaria entupida de mães comprando material escolar e cinco reuniões de trabalho. Normal.

– Você não sabe que eu só gosto de gema mole?

Teve uma leve síncope nervosa, mas conseguiu se controlar. Afinal, a culpa era dela. Como podia ter cometido um erro tão grave? É óbvio que a mais velha e a do meio gostavam de gema mole (muito sal para a primeira, pouco para a segunda), a menor preferia ovo mexido (sal no ponto), o marido não suportava gema… Ou não suportava clara? Quem gostava de omelete? Qual das crianças teve sarampo? Quem foi que quebrou a perna?

Bateram na porta. Era o porteiro, pra avisar que ia faltar água. Ameaça de infarto. Passou, graças a Deus. Voltou quando alguém espatifou a jarra de suco no chão. (Dessa vez foi de miocárdio.) A menorzinha disse que foi a mais velha. A mais velha disse que foi a do meio. A do meio disse: tudo eu! E se trancou no quarto, de onde só saía em último caso, um incêndio ou um telefonema, por exemplo. O telefone tocou.

– Alguém pode atender enquanto eu limpo o chão ou limpar o chão enquanto eu atendo?

Todos os membros da família foram acometidos de um acesso de paralisia generalizada (espécie de praga que costuma ser causada pela presença da mãe no recinto) acompanhado de mudez instantânea. Acontece. Ela atendeu ao telefone, era engano, limpou o chão, voltou para a mesa, a sopa tinha esfriado. Melhor. Comer engorda.

– O ar-condicionado do meu quarto quebrou.

– Você se lembrou de comprar o meu livro de inglês?

– Não tem geléia não, é?

– O cachorro fez xixi na minha colcha.

– Por que eu não tenho garfo?

O telefone tocou de novo. Nova palpitação seguida de falta de ar súbita. Era para a menor.

– A Júlia pode dormir aqui hoje?

Pode.

– A mamãe deixou. Desce daqui a dez minutos que a gente passa aí pra te pegar.

Ligeiro formigamento no braço esquerdo. Angina? Isquemia? Talvez. Saiu de casa com o firme propósito de pegar a Júlia, voltar correndo, ir direto tomar um banho e cair na cama.

– Aproveita que vai sair e passa na locadora pra devolver os filmes.

– Aproveita que vai passar na locadora e compra o meu remédio na farmácia.

Casa da Júlia. Locadora. Farmácia. Ia ter de deixar o infarto e o banho pra mais tarde.

Publicado em Educação Básica por Escola da Vila em 2011.

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