Cassilândia, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Últimas Notícias

24/09/2007 13:37

Artigo: conservação do patrimônio genético

CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO GENÉTICO, CULTURAL E MODELO PECUÁRIO

Por: Raquel Soares Juliano, Urbano Gomes Pinto de Abreu,
Sandra Aparecida Santos

O rebanho de gado, que deu origem ao Pantaneiro, foi trazido da Península Ibérica para o Brasil, pelos Portugueses e Espanhóis, ainda na época do descobrimento, com a finalidade de fornecimento de alimento para a comunidade de colonos. Assim, quase sem interferência humana, o gado prosperou, adaptando-se aos diferentes ecossistemas desse país. A pressão da seleção natural por várias gerações ocasionou mudanças de tamanho, de biótipo e de temperamento, e acabou por estabelecer as diferentes raças naturalizadas brasileiras, incluindo o Pantaneiro, também conhecido como Cuiabano ou Tucura, que são animais reconhecidamente resistentes às condições ambientais e pouco exigentes.
Devido à necessidade de aumento de produção de alimentos e, por conseguinte da produtividade dos animais, vários países decidiram estabelecer extensos programas de melhoramento genético das raças locais, consideradas menos produtivas. De maneira geral, por meio de cruzamento as raças naturalizadas foram absorvidas pela raça melhorada, considerada de maior valor genético. Assim aconteceu com os animais da raça Pantaneiro, no qual foi estabelecido um processo de cruzamento absorvente a partir do início do século XX, em que houve introdução de genes zebuínos, especialmente da raça Nelore.
Atualmente existem apenas dois núcleos de conservação “in situ” do bovino Pantaneiro, sendo compostos de aproximadamente 300 indivíduos, localizados nos municípios de Corumbá-MS e de Poconé-MT. A Embrapa Pantanal, em parceria com outros centros de pesquisa e Universidades, dedica-se, desde 1984, a estudar características genéticas, produtivas, reprodutivas e sanitárias dessa raça.
O núcleo de conservação da Embrapa Pantanal é mantido na fazenda Nhumirim (Pantanal da Nhecolândia) e possui o objetivo de manter a variabilidade genética da raça, sendo os animais do núcleo manejados de forma a garantir a preservação do patrimônio genético. Também é utilizado em projetos que buscam agregar valor ao sistema de produção local, por meio de aumento na produtividade do rebanho e do desenvolvimento de manejo sustentável para a região do Pantanal.
Atualmente três principais aspectos da região do Pantanal favorecem a utilização do Bovino Pantaneiro,
1) o potencial turístico da região do Pantanal é inegável, e o Tucura é um elemento cultural importante e pouco explorado por este segmento produtivo. Ele faz parte da história da colonização e do desenvolvimento de uma atividade representativa do homem pantaneiro. A idéia dos empreendimentos de turismo rural tornarem-se novos núcleos de conservação viabiliza projetos que agregam valores produtivos, culturais e ecológicos, proporcionando ao turista a oportunidade de conhecer e saborear um pouco mais da nossa história;
2) as perspectivas futuras da pecuária bovina apontam para a incorporação de variabilidade genética ao rebanho comercial, que atendam, principalmente, às características de adaptabilidade ao ambiente e de resistência a doenças. Os bovinos Pantaneiros parecem adequados também como opção na criação de “raças compostas” adaptadas às condições adversas presentes no ambiente da região pantaneira; e
3) a carne bovina é considerada um produto com baixo valor agregado e sem diferenciação, o que tem condicionado os agentes da cadeia produtiva a competir exclusivamente por preço. Como conseqüência, o produto chega ao consumidor com baixa qualidade, oriundo de um processo produtivo falho no controle nas diferentes etapas. Por outro lado, nichos de mercado, para produtos oriundos de carne de qualidade, se desenvolvem onde consumidores exigem preferencialmente, produtos que atendam a procedimentos éticos, sanitários, bem-estar animal, preservação ambiental e desenvolvimento social.
Portanto, a utilização do bovino Pantaneiro em sistemas de produção da região passa por uma estratégia econômica que estimule os pecuaristas a incorporarem o bovino Pantaneiro, mostrando as alternativas para a conservação da raça, por meio da implantação de certificação de produtos por Denominação de Origem Protegida (DOP).
DOP é um “selo” dado a um produto cuja produção, transformação e elaboração ocorrem em uma área geográfica delimitada com um controle de todas as etapas de produção reconhecidos e verificados. Desta forma é possível incentivar a produção pecuária em determinadas regiões, proteger os nomes de produtos contra imitações e fornecer ao consumidor informações relativas às características específicas dos produtos.
Esse tipo de modelo pecuário já é adotado em alguns países da Europa, que incentivam a criação de raças nativas como alternativa comercial em áreas de preservação e de propriedades rurais tradicionais, que são valorizadas pela iniciativa de preservação do patrimônio genético e cultural de seu país.
O bovino Pantaneiro, por ser uma raça adaptada às condições de ambientes rústicos, é uma alternativa para o desenvolvimento de sistemas de produção sustentáveis para geração de renda, em populações próximas a áreas de conservação, onde a bovinocultura, com a utilização das raças naturalizadas, seria uma prática segura. Pode ser uma opção na busca de sistemas de produção sustentáveis, associando viabilidade econômica e lucratividade com preservação ambiental e contribuição para melhorar a qualidade de vida.
_______________________________________
Raquel Soares Juliano (raquel@cpap.embrapa.br), é médica veterinária e Dra. em Ciência Animal. Urbano Gomes Pinto de Abreu (urbano@cpap.embrapa.br), é médico veterinário e Dr. em Zootecnia. Sandra Aparecida Santos (sasantos@cpap.embrapa.br), é Dra. Em Produção e Nutrição Animal, são pesquisadores da Embrapa Pantanal.

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
imagem transparente
Últimas notícias
Scroller Top
Quinta, 14 de Dezembro de 2017
21:14
Loteria
10:00
Receita do dia
Quarta, 13 de Dezembro de 2017
10:00
Receita do dia
Terça, 12 de Dezembro de 2017
20:48
Loteria
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)