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09/02/2007 07:49

Alcides Silva : "Pernas, para que te quero!”

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva
“Pernas, para que te quero!”
Explica o Aurélio que essa expressão indica a ação de fugir correndo ante um perigo. E fala o respeitado dicionarista que tal exclamação é gramaticalmente incorreta. Se o substantivo “pernas” é plural, o pronome também deveria estar no plural. Daí, respeitados os cânones, dever-se-ia dizer “Pernas, para que vos quero”. Ocorre, porém, que os fatos lingüísticos nem sempre estão coerentes com a própria gramática. Aliás, como lembrado semana passada, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, edição oficial da Academia Brasileira de Letras de 2004, que determina a grafia atual de mais de 360.000 registros lexicais, registra lapizinho como diminutivo de lápis. Isso mais uma vez comprova que os fatos lingüísticos nem sempre estão coerentes com a própria gramática. Alias, o povo é que fala gostoso o Português do Brasil, já dizia o poeta Manoel Bandeira. Nem sempre, porém, o povo tem razão absoluta.
Isso tudo me veio à mente ao reler, remexendo velhos papéis dos arquivos de 2002, uma espécie de pito que me foi passado e mandado por Márcio José, que se qualificou como graduando em Letras, de São José do Rio Preto, quando. Em artiguete daquela época, comentei o “menas” empregado pelo então candidato Lula em um de seus discursos: Concluía aquele e-mail, possivelmente petista, que “se todos começarem a usar "menas", aceitando esta como forma correta, a gramática será obrigada a aceitá-la”.
Quando eu disse que o "menas", usado pelo candidato Lula, era palavra que ainda não existia no vernáculo, referia-me aos hábitos lingüísticos da comunidade idiomática a que pertencemos, a língua atual que praticamos, na qual mencionada expressão se constitui em vício de linguagem, em barbarismo, em erro. Não posso falar em termos de ‘língua futura’, que desconheço.
Tenho dito com muita freqüência que a língua é dinâmica – e isso não é novidade para ninguém. O que hoje é tido como erro ou negligência, amanhã poderá ser acerto, e vice-versa.
As palavras, produto da atividade humana, passam também por um processo de evolução. Todavia, a mudança lingüística não é arbitrária ou anárquica, e nem ditadora é a língua do povo, porque preceitos há que se eternizam.
A língua não pode ficar presa à dicotomia de certo-errado e nem no liberalismo doutrinário de que a linguagem se desenvolve melhor no estado natural, sem as peias das épocas pretéritas. Entendo, com Eugenio Coseriu (“La geografia lingüística”), a quem volto a citar, que “a linguagem expressa o indivíduo por seu caráter de criação, mas expressa também o ambiente social e nacional, por seu caráter de repetição, de aceitação de uma norma, que é ao mesmo tempo histórica e sincrônica; existe o falar porque existem indivíduos que pensam e sentem, e existem “línguas” como entidades históricas e como sistema e normas ideais, porque a linguagem não é só expressão, finalidade em si mesma, senão também comunicação, finalidade instrumental, expressão para outro, cultura objetivada historicamente e que transcende ao indivíduo”.
No caso do “menas”, que no dizer anticorretista de Márcio José poderá ser aceita nas gramáticas do futuro, no falar de Lula, contrário aos padrões normais da língua, era a expressão de um limitativo de intensidade (menos política). Quer funcione como adjetivo, quer como advérbio, é palavra invariável: sem gênero, número ou grau. “Mais amor e menos confiança”, “A mãe é menos severa que o pai”, “Aquela menina é a menos inteligente da classe”, “A rosa é flor menos duradoura que a orquídea”.

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