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18/04/2008 08:37

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

A vírgula e o ‘e’

Dizia-se no meu tempo de grupo escolar, como verdade revelada, autêntico dogma, que não se usava vírgula antes de ‘e’. Segundo a lição dominante na época, a vírgula funcionava como uma pausa de pequena duração e aquela conjunção exercia a mesmíssima função. Daí, a desnecessidade da vírgula. Antes de “e”, a vírgula era pecado capital, caminho direto para o inferno do lápis vermelho.
Aquilo, porém, não era uma verdade absoluta.
Said Ali, o grande filólogo fluminense do século passado, com certeza o mais respeitado de seu tempo (faleceu com 92 anos de idade, em 1953), ensinava, com profunda razão, que “para mostrar que é preciso descansar a voz, põe-se a vírgula antes da conjunção e”.
Embora seja sabido que a vírgula substitui o “e”, pode a mesma ser empregada para facilitar a passagem de uma idéia a outra, quando repetidas ritmicamente, como nos textos de Machado de Assis:
“E a minha terra se chamará a terra de Jafé, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos às tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concórdia”.
Ou então, como quando ostra o trabalho beneditino: “no aconchego do claustro, na paciência, no sossego trabalha, e teima, e lida, e sofre, e sua”.
Em duas orações, quando a coordenada tem sujeito diferente do da coordenante, a prudência aconselha o emprego de vírgula, principalmente se houver uma pausa na leitura, como neste exemplo recolhido em Said Ali: “A tempestade da sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se”.
Experimente ler, sem a vírgula, a frase “João namora Maria, e Rita se magoa”. Tem-se a impressão de que João namora as duas concomitantemente. Com a vírgula, a coitada da Rita é a preterida.
A vírgula é empregada também se o ‘e’ por ênfase ou enumeração, estiver repetidos na frase: “Deus fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto há neles”. Quando, porém, seu emprego for facultativo, siga o ritmo ou a sonoridade da frase, haja com cautela e bom senso, evitando a virgulação excessiva. Intercalações exageradas cortam a fluência do texto, dificultando a sua compreensão. Veja o exemplo: semana passada, um burocrata da ONU declarou ser crime contra a humanidade a prioridade na produção de biocombustíveis em detrimento a alimentos. Veio-lhe o troco, segundo noticiou a imprensa nacional: “O presidente Lula disse, na quarta-feira, em Brasília, durante a abertura da 30ª Conferência Regional da FAO, em resposta ao diretor da ONU, Jean Ziergler, que descartar a produção de biocombustíveis é o "verdadeiro crime contra a humanidade".
Desvirgulando, isto é, podando o demasiado, o contexto fica mais nítido: “Na abertura da 30ª Conferência Regional da FAO, quarta-feira em Brasília, respondendo ao diretor da ONU Jean Ziegler, disse o presidente Lula que descartar a produção de biocombustíveis é o verdadeiro crime contra a humanidade”.
Observação importantíssima: nunca separe por vírgula o sujeito do verbo, nem mesmo no desespero (ou na ignorância): “Lula, disse, descartar a produção de biocombustíveis”; e nem o verbo do complemento: “Lula disse que, descartar a produção de biocombustíveis é verdadeiro crime,contra a humanidade. sua prioridade é, o combate à fome”. Ambas as orações estão erradas. O correto é “Lula disse que descartar a produção de biocombustíveis ´é verdadeiro crime contra a humanidade’ sem qualquer vírgula intermediando um dos mais acertados dos programas de produção de combustíveis por fontes renováveis, que, aliás, não é programa seu, pois foi criado pela ditadura militar em 14 de novembro de 1975 via decreto n° 76.593, daquela data.

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