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04/04/2009 08:43

A última visita do Anjo

Tereza Cruvinel *

Brasília - Conviver com Marcio Moreira Alves foi um dos meus ganhos no Jornalismo. Durante dez anos, enquanto eu escrevia a coluna da página 2 em O Globo, ele escrevia a da página 4, revezando com Helena Chagas. Foi Marcito que, chegando a Brasilia e voltando a circular pelo Congressso, de onde saíra cassado e voltava como colunista, batizou aquilo que nós, jornalistas políticos, identificávamos mas não conseguíamos nominar: o baixo clero, a grande massa de deputados que gravitava na periferia do processo político-parlamentar. A expressão pegou. Foi também Marcito que chamou a atenção para uma conjuntura inédita do jornalismo político, espaço historicamente dominado pelos homens. Muitas vezes ele se referiu ao “matriarcado” das mulheres no jornalismo político, apontando a existência de um grupo de jornalistas formadoras da opinião política: além de mim, Eliane Cantanhede, Helena Chagas, Dora Kramer, Cristiana Lobo, Diana Fernandes, então minha interina, Denise Rothemburg, entre outras. Devemos a ele este reconhecimento público de nossa afirmação profissional.

Perdemos Marcito nestes tempo em que impera a máxima “bad news is good news” (notícia boa é notícia ruim), o que me faz lembrar de seus “Sábados Azuis”. Todo sábado, ele dedicava sua coluna à narração de um fato positivo, uma experiência construtiva para a cidadania e a superação de nossas mazelas, por ele testemunhada em algum lugar do Brasil profundo. Se não me engano, foi também ele que popularizou esta expressão.

Marcio morava no Hotel Saint Paul, e me arrastava depois do expediente para tomar sopa com ele, Madalena e outros amigos. Jantávamos muito na casa de nossa comum amiga Maria Helena Neves, diplomata portuguesa em cuja casa ele pontificava contando saborosas histórias do exílio. Outra casa em que pontificava era na de Vera Brant, com seu salão sempre repleto de inteligências. Quando o hoje ministro Franklin Martins era diretor da sucursal de O Globo, fazia em sua casa muitos jantares de trabalho, em torno de alguma “fonte”. O danado era que Marcito, com sua prosa agradável, muitas vezes roubava a cena e falava tanto ou mais que o convidado. Ele era um grande contador de histórias. Não gostava, entretanto, de falar do discurso que deu pretexto à ditadura para baixar o AI-5.

Há 12 anos, festejamos seus 60 anos em um restaurante de Brasilia, um grupo de 8 amigos e pela primeira vez o vi falar da morte, ele que parecia sentir-se eterno, dono de uma história e de uma vida tão intensas. Menos de dois anos depois ele teve o primeiro AVC, início de um processo que o faria definhar gradualmente. Eu e Helena fomos visitá-lo no Sarah Kubitscheck, onde Dr. Campos da Paz dele cuidara com competência de médico e carinho de amigo. De volta ao trabalho, ele escreveu a comovente coluna “A visita do Anjo”, em que falou do AVC lembrando os versos de Violeta Parra em Gracias a La Vida:

“Foi nos versos de Violeta que pensei na terça-feira passada, quando a asa do anjo que a todos nós virá buscar um dia roçou minha cabeça. Estava no Auditório Nereu Ramos, na Câmara, onde assistia à entrega do prêmio que a Fundação Abrinq distribui a 20 municípios que implementam programas de melhoria das condições de vida das suas crianças. Sem aviso prévio ou dor alguma fiquei quase cego. A visão lateral desapareceu totalmente, substituída por um muro negro. Para a frente, enxergava por entre faixas pretas e não conseguia ler sequer a capa do programa de premiação, impressa em letras pretas sobre fundo vermelho....”

Desta vez o anjo o levou. Aprendi muito com Marcito, guardo dele lembranças muito especiais, além dos souvenirs que me trazia de viagens. Guardo um par de óculos que ele deixava na mesa que compartilhamos no Globo, e não levou quando voltou para o Rio. Quando os meus se quebram, busco os óculos de Marcito. Quisera ver o mundo com sua generosidade e coragem.

Tereza Cruvinel*
Presidente da EBC

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