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Geral

Língua Portuguesa, inculta e bela!

Redação - 24 de maio de 2020 - 06:06

O saudoso advogado Alcides Silva publicou o artigo de hoje no Cassilândia Notícias em 17 de outubro de 2013
O saudoso advogado Alcides Silva publicou o artigo de hoje no Cassilândia Notícias em 17 de outubro de 2013

 Formação de palavras


Uma quadrinha popular, muito conhecida, mostra o quanto o falar do povo é importante para a formação da língua nacional: Batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão / menininha quando dorme / põe a mão no coração.
Primitivamente, segundo o verso seria “espalha ramas pelo chão”, verso de pé-quebrado, de oito sílabas numa quadra de redondilha maior (sete sílabas). Possivelmente, o povo, fundindo as palavras iniciais (espalha ramas) em esparrama, deu ao verso a métrica correta e criou, em fusão semântica, uma nova palavra, cujo sentido é maior que o primitivo espalhar (lançar para diferentes lados, espargir), ao passo que esparramar é propagar para todos os lados.
Antenor Nascentes, citando Cândido de Figueiredo, deriva o verbo do espanhol “desaparramar”; o Dicionário Aurélio também; e o de Houaiss, dizendo que o vocabulário é de origem obscura, desconhecida, a após citar a mesma fonte espanhola, acha que o termo é resultado do cruzamento de espalhar e derramar.


Prefiro a origem plebeia dessa palavra, que nasceu com o significado de ‘espalhar ramas para todos os lados’.
A união de vocábulos para a criação de novos termos é o chamado processo de formação de palavras por composição, isto é, combinação de duas ou mais dicções para exprimir um conceito novo, muitas vezes totalmente diferente das noções expressas pelos vocabulários primitivos. Assim, pica-pau, o nome de um passarinho, criado-mudo, o de um móvel, vira-lata, o de um cão sem raça determinada, passatempo, um divertimento, aguardente, o de uma bebida, vaivém, um movimento.


Em alguns dos exemplos acima, os radicais justapostos não se ligam através de hífen; noutros o tracinho é obrigatório.


A composição pode ocorrer por justaposição (palavras unidas por hífen) ou por aglutinação, os elementos componentes do novo termo se juntam num só vocábulo gráfico.


Na justaposição, os elementos conservam sua independência, mantendo cada radical o seu acento tônico: segunda-feira, água-viva, pombo-correio, mula-sem-cabeça, guarda-roupa, bem-te-vi, madrepérola, pontapé.


Na aglutinação, os elementos que formam o novo termo se fundem, com um só acento tônico, ocorrendo alteração na forma ou na acentuação e, ainda, perda de sons: embora (em+boa+hora), pernalta (perna+alta), viandante (via+andante), esparrama (espalha+rama), fidalgo (filho de algo). A propósito, quando antigamente se usava o epíteto “alho” para qualificar uma pessoa, isso significava dizer homem de dinheiro, pessoa estabilizada na vida.
Na palavra composta distingui-se o elemento determinante, geralmente o primeiro, que é a parte que contém a ideia geral e o determinado, a que encerra a noção particular: agricultura (cultivo da terra: agri=terra de plantio; cultura=cultivo), mudividência (visão do mundo), plenilúnio (lua cheia), plenipotenciário (aquele que tem plenos poderes), planalto (superfície plana e elevada).


Há a possibilidade de o primeiro elemento de uma nova palavra ser verbo (espalhar) e o segundo um substantivo (rama): parapeito (peitoril), saca-trapo (=manhoso), manda-chuva (=chefe), tira-dentes (=dentista), fura-bolo (=o dedo indicador), saca-rolha, porta-bandeira, paraquedas etc.


O assunto não está esgotado.

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