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Alcides Silva: Língua Portuguesa, inculta e bela

Alcides Silva - 23 de agosto de 2012 - 16:48

Água de coco
A água-de-coco é o sumo natural contido no interior do coco, o fruto do coqueiro. É rico em potássio, com poucas calorias, muitos nutrientes, livre de gordura e com alto poder reidratante. E o coco?
Quando Vasco da Gama aportou sua esquadra que demandava à Índia em Moçambique (2 de março de 1498), os navegantes conheceram uma palmeira que, segundo o relato da viagem, dava “hum fruto tam grande como os melões e o mejollo de dentro he o que come e sabe como junça avellanada” (‘um fruto tão grande como os melões, cujo miolo é o que se come e tem o gosto de avelã’) e a ele lhe deram o nome de “coquos”.
Na língua portuguesa daquela época, havia a palavra coca (pronunciava-se côca) designativa, segundo José Pedro Machado (“Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”), de \'fantasma infantil, papão, figura de mau aspecto ou de mau agouro\'. A propósito, o substantivo coco, que designa a fruta do coqueiro, não tem acento gráfico; é palavra paroxítona terminada em o.
Os navegantes usaram a palavra coco para dar nome ao fruto, porque, este, quando seco, tem na superfície ‘três buracos com feição de caveira’, como se fosse a cara ou a figura da ‘coca’, monstro imaginário que fazia medo às crianças.
Frei Luís de Sousa, escritor português seiscentista, narra em “Vida de d. Frei Bartolomeu dos Mártires” (vol., I, p. 18, edição Cultura, São Paulo, 1943), chama de “coco com que as amas assombram ou acalentam os meninos desta e ainda de maior idade”, os espantalhos para crianças, comuns no século XVI.
Ao correr dos anos, a palavra coca (ô) teve sua pronúncia alterada para cuca, como na canção de ninar: “Dorme nenê, que a cuca vem pegar, papai está na roça, mamãe no cafezal”.
Cuca é um ente fantástico, o papão feminino, a papona, que ameaça e devora as crianças.
A semelhança da forma do coco seco com a da cabeça humana, passou, por metonímia a designar, também, a inteligência, o cérebro: Fulano tem uma cuca privilegiada.
Já cuca cheia é sinônimo de bêbado; cuca fresca, de pessoa tranqüila; cuca fundida, de pessoa preocupada; cuca legal, de pessoa inteligente; e cuca quente, de pessoa explosiva. Mestre-cuca (do inglês cook), é o cozinheiro.
Por outro lado, fundir a cuca é perder o senso, o rumo, a direção; é baratinar, encucar, confundir: \"A visão das companheiras desfilando tranqüilamente peladas, acabou de fundir a cuca da Rosinalva.\" (Marisa Raja Gabaglia, “Milho pra Galinha, Mariquinha”, Editora Sabiá, Rio, 1972, 9ª ed., p. 15).
De cuca, no sentido de cabeça, originou-se o verbo encucar, significando ficar cismado, ruminando uma idéia, encafifar, encabular: Encucava-o a beleza da mulher, que todos admiravam.
Coco também é uma dança popular nordestina, de visível influência africana. É um avoengo da umbigada, do samba e do pagode, tocado com instrumentos de percussão, como cuícas, pandeiros e ganzás.
Da dança do coco, surgiram algumas músicas de sentido dúbio, como esta maliciosa “Trepa no Coqueiro”, de Ari Kerner de Castro: “Oi, trepa no coqueiro / Tira coco / Gipe, Gipe, Nheco, nheco / no coqueiro olirá. / Papai, cadê Maria? / Maria foi passeá /...Os passeio de Maria /faz papai, mamãe chorᔠ... “Maria é moça nova / sorteira, não tem juízo / os passeio de Maria / só pode dá prejuízo”.
Originário do sudeste da Ásia o coqueiro foi introduzido no Brasil em 1553, através da Bahia (daí, coco-da-baía).
Como tenho repetido: as palavras também têm história.

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