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Luciane Buriasco

Luciane Buriasco - Corruptos, é tempo de despertar!

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo - 17 de julho de 2017 - 08:40

Luciane Buriasco - Corruptos, é tempo de despertar!

Tempo de despertar é um filme de 1990, com Robin Willians e Robert de Niro, sobre um médico na década de 60 que se incomoda com pacientes que não se mexem, nem dão sinais, salvo reflexos, de vida. Seus colegas de trabalho, seja outros médicos, sejam enfermeiros, dizem que com o tempo ele vai se acostumar com o fato de que não há nada a fazer por aqueles pacientes. Mas ele não se acostuma e acaba descobrindo que tratá-los com uma medicação que na época se aplicava ao Mal de Parkinson poderia tirá-los daquele estado catatônico.

No mundo da corrupção, acredito que alguns políticos e empresários estejam de início dispostos a celebrarem seus contratos com lisura, dentro das regras próprias de licitação, sem recebimento ou pagamento de propina. Mas por certo escutam que há uma regra do jogo. No caso que levou Lula à condenação, 3% do contrato era destinado ao pagamento das propinas dos diretores da Petrobras e agentes políticos responsáveis por suas nomeações. O percentual é pequeno, mas no caso se tratava de 87 milhões de reais. Você, se estivesse por trás das nomeações dos diretores, sabendo da regra do jogo, aceitaria chamar de seu um apartamento de luxo dessa empresa?

Se você respondeu que sim, você é corrupto. Mas fique ligado porque há um ciclo na vida de todo criminoso, muito bem descrito numa obra literária antiga, que pude ver na forma de uma peça de teatro um tanto quanto indigesta, no ano passado: Fausto, de Goethe. O ciclo é o seguinte: você fica em dúvida, mas aceita fazer um pacto com o diabo. Graças a ele, serão anos de tudo que o mundo gosta: dinheiro, fama, objetos mil, incluídas pessoas que se permitem ser objetos, muitas vezes vazias, mas belas. Dependendo do caso, pode ser só mais dinheiro do que você tem, como poder beber até com os amigos todo fim de semana, sem t rabalhar. Pode ser viajar, ter roupas caras, morar bem. Mas em todos os casos há um tempo certo. Ele acaba. Pode ser na prisão, numa morte violenta; pode ser ter que encurtar o dinheiro de novo, ter condenações na Justiça, imagem denegrida na sociedade. A farra acaba. E não há como voltar atrás.

O corrupto, assim, tem o mesmo ciclo do traficante, grande ou pequeno, e tantos outros crimes. Aliás é um crime, como todos os demais. Um crime onde se ganha dinheiro, daí a similitude com o tráfico.

Na semana passada, Lula experimentou o gosto de sua primeira condenação criminal por corrupção. É o único ex-presidente no Brasil a sofrer esta consequências. Há outras por vir. A ameaça da prisão já lhe assombra há anos. Todos sabem de sua trajetória (pobre, sindicalista), até porque foi usada como marketing político, juntamente com a mensagem ao empresariado de que seguiria as mesmas regras do jogo e eles seguiriam, portanto, ganhando dinheiro. Uma esquerda suave, neoliberal. Sua inteligência e carisma são sua grande marca. O oportunismo de se apropriar de um discurso de esquerda para subir ao poder e comportar-se como de direita. Afora o aumento de benefícios, ao custo de hoje serem necessárias reformas trabalhista (já passou, meio desapercebida), e previdenciária (esperando o tempo de passar desapercebida), ambos tirando direitos importantes do cidadão classe média. O pobre vira classe média, mas anos depois a classe média empobrece.

Ele, Lula, fica de bonzinho tanto para o pobre como para o rico e, de sua parte, enriquece. Nada de braçada num bom momento econômico ligado ao crescimento da China, com tempo certo para retrair. Com esse carisma gigante, contornou o escândalo do mensalão, tirou da manga uma ninguém nacional e, apoiando-a, fez dela sua sucessora no governo. Mais anos para um ordenado esquema de propina, talvez nunca antes visto na História do país, lembrando esta fala sua. É com este carisma que acredita possa fazer uma reviravolta e voltar ao poder no próximo mandato. Claro, se não estiver com seus direitos políticos supensos.

A condenação sofrida na semana passada é, contudo, o simbolismo do final desse ciclo para ele. Tantas outras, de políticos corruptos, desonestos (ações de improbidade), o simbolismo de que as regras do jogo estão mudando. Já mudaram. O serviço público não está condenado a ter um pacto com o Diabo, como em Fausto, eternamente. Estamos naquele momento do filme Tempo de Despertar em que a terapia dá certo, e muda para sempre o padrão de atendimento àqueles pacientes.

Corruptos, portanto, não apenas recuem e disfarcem porque não estejam vivendo um bom momento. Ousem mudar as regras do jogo. É tempo de despertar!

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

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