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Geral

Língua portuguesa, inculta e bela, por Alcides Silva

Alcides Silva - 10 de junho de 2006 - 08:27

Língua portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva
Rumo ao hepta

Para alegria geral, na próxima terça-feira, com ano-luz de favoritismo, o Brasil pentacampeão começa a conquista do hexacampeonato, rumo ao hepta.
Tetra, penta, hexa, hepta são radicais gregos que indicam uma ordem numérica: di (dois >dissílabo, duas sílabas) tri (três >triângulo, figura com três ângulos); tetra (quatro >tetraedro, figura geométrica com quatro lados); penta (cinco > pentágono, polígono com cinco lados), hexa (seis >hexâmetro, verso com seis sílabas); hepta (sete >heptacordo, instrumento musical de sete cordas); octo (oito >octogonal, que tem oito lados, oito séries); enea (nove >eneágono, figura com nove lados); deca (dez >década, série de dez, dez anos)... quilo (mil > quilômetro, mil metros); miria (dez mil > miriâmetro, dez mil metros).
Esses radicais gregos – assim como os latinos - vieram para o vernáculo a partir do século XVI, quando eruditos a eles recorreram para a formação de neologismos designando termos técnicos, científicos, literários, etc. Exemplos: biologia (bios = vida), cinema (kinema = movimento), democracia (demo = povo), fonema (phoné = som, voz), geografia (geo = terra), isonomia (isos = igual), hipódromo (hipo = cavalo), leucemia (lekos = branco, haêma = sangue), metrópole (polis = cidade; metrós = mãe), necrópole (nekrós = morto), oligarquia (olígos = pouco; arquia = governo), pedagogia (paidós = criança), rinite (rhinós, nariz), semáforo (sêma = sinal).
Palavras há – embora menos numerosas – que nascerem de radicais latinos: bípede (bi = dois; pede = pé), onipotente (omnis = todo); plurianual (plus, pluris = muitos), quadrúpede (quattuor quatro), semifinal (semi = metade, meio), tricolor (tri = três), uníssono (uni – unuas, -a, -um = um).
A tal processo de formação de novas palavras dá-se o nome de composição. E no caso específico de composição erudita, que consiste em associar dois termos, o primeiro dos quais servindo de determinante do segundo: heptacampeão > indivíduo, clube, equipe ou time vencedor de um campeonato por sete vezes.
A composição representa sempre uma noção autônoma e única, muitas vezes dissociada idéia expressa pelos seus componentes: criado-mudo (um móvel); pé-de-galinha (uma ruga no canto dos olhos); segunda-feira (dia de semana).
Essa associação de duas palavras pode ser feita por justaposição ou por aglutinação. Na justaposição, cada radical conserva o seu acento tônico, não havendo perda dos sons em qualquer dos componentes: mula-sem-cabeça, vira-lata, guarda-comida, madrepérola, maldizer, pontapé, hexacampeão. Na aglutinação, há perda de sons, os dois elementos se fundem num todo, com um único acento tônico: aguardente (água + ardente), embora (em + boa + hora), pernalta (perna + alta), viandante (via + andante).
Por derradeiro, numa palavra composta distingue-se o elemento determinante que contém uma noção particular, e o determinado que contém uma idéia particular. Assim em samba-enredo, o termo samba é o determinado, e enredo o determinante.
Na composição formada no português moderno, o determinado normalmente precede o determinante: manga-rosa, navio-escola, porco-espinho, porta-bandeira, bajulador, trigêmio. Todavia, nos compostos que vieram pela composição erudita (greco-latina) o primeiro elemento é o que exprime a idéia específica, e o segundo, a geral: agricultura (cultura do campo), bisavô (duas vezes avô), caligrafia (cali = belo; grafia = letra); telefone (tele = distância; phono = som, voz).

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