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Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva - in memorian - 25 de maio de 2020 - 06:20

O saudoso advogado Alcides Silva publicou o presente artigo no Cassilândia Notícias em 05 de setembro de 2013
O saudoso advogado Alcides Silva publicou o presente artigo no Cassilândia Notícias em 05 de setembro de 2013

Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Palavrão

Palavrão é o termo obsceno, a dicção grosseira, a frase-insulto, o baixo calão, a palavra chula, o jargão rude, a incontinência verbal, a expressão corrompida, o dito picante, enfim, o termo que agride. Diferentemente da gíria, que é o falar próprio de determinados grupos sociais, o palavrão pode ser entendido como uma linguagem marginal, porém, não restrita a ambientes.


Nem sempre um vocábulo mais duro fere o pudor. Há ocasiões – e muitas - em que, pronunciado como um desabafo, na linguagem oral, perde sua carga escandalosa. Quem, por exemplo, ao se ver ultrapassado na contramão de direção por um veículo em alta velocidade, não diz um impropério injurioso, geralmente dirigido à mãe do tresloucado motorista? Quem, ao prender o dedo numa porta, gaveta ou móvel qualquer, não se desabafa com uma sonora obscenidade? Quem, no espanto de uma coisa inusitada, não exclama, até sem o querer, um dizer menos conveniente?


Nessas situações, a elocução do disparate é perfeitamente justificável. Não é ofensa, mas defesa; não é insulto, mas desabafo; nem mesmo desaforo, mas um alento abemolado. O palavrão tem que estar adequado à força da emoção que o exige e ao local em que for proferido. A situação e o momento definirão a oportunidade ou não do linguajar despeado.


O palavrão não pode ser considerado unicamente como manifestação da linguagem marginal das parcelas mais baixas das comunidades. como preconceituosamente se justifica: “linguagem da periferia”. O palavrão viça, com rudeza maior ou menor, em toda linguagem oral, até mesmo na das sociedades ditas mais refinadas.
Ainda agora, nas novelas da Globo o “pô”, que exprime enfado, aborrecimento ou espanto e o “caraca”, sua similar, se escancaram em vários diálogos, como expressões naturais. Originariamente eram condenáveis palavrões, que o uso contínuo foi amenizando e introduzindo nos dicionários.


Pô é uma redução de puxa e poxa, suavização do espanhol pucha, uma exclamação abrandada de puta, palavrão que naquela língua passou a ser significante de surpresa, raiva ou impaciência.


Na gíria brasileira, puta, além de vários outros sentidos, também significa ‘grande’, ‘bonito’, ‘bem posto’, ‘excelente’, ‘admirável’: Fulano fez um puta de um discurso e foi muito aplaudido. Estava com uma puta sorte e ganhou todas as partidas. Nei Lopes, em “Dicionário Banto do Brasil”, defende que o vocábulo, com esses significados, derivou-se de mbuta, da língua quiconga, falada por várias tribos africanas, e que veio para o Brasil com os escravos. Tem o sentido literal de o notável, o melhor, a flor.


Caraca é brasileiríssima, mas tem sangue castelhano. Com a chegada da família real ao Brasil, importamos do espanhol a interjeição de espanto ou admiração caramba! que, segundo respeitáveis filólogos, era um eufemismo do obsceno carajo e hoje já está se tornando comum no similar caraca. Nada a ver com Caracas, capital da Venezuela, cujo nome foi tomado do de um povo indígena – os caraíbas - que habitou o lugar onde foi erguida a cidade.

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