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Geral

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva - 13 de março de 2009 - 10:54

Esparramar

Uma quadrinha popular, conhecida por todos, mostra o quanto o falar do povo é importante para a formação da língua nacional: “Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão...”
Primitivamente, o segundo verso seria “espalha ramas pelo chão”, verso de pé-quebrado, de oito sílabas numa quadra de redondilha maior (sete sílabas). Possivelmente, o povo, fundindo as palavras iniciais (espalha ramas) em esparrama, deu ao verso a métrica correta e criou, em fusão semântica, uma nova palavra, cujo sentido é maior que o primitivo espalhar (lançar para diferentes lados, espargir), ao passo que esparramar é propagar para todos os lados.
Antenor Nascentes, citando Cândido de Figueiredo, deriva o verbo do espanhol “desaparramar”. Houaiss, dizendo-o de origem obscura, desconhecida, a após citar a mesma fonte espanhola, acha que o termo é resultado do cruzamento de espalhar e derramar. Antônio Geraldo da Cunha, autor do excelente “Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa”, considerando o vocábulo de origem obscura, diz que “talvez se possa admitir uma formação parassintética (es + parra + rama + ar) em alusão às ramificações características da parra”. (Formação parassintética = aglutinação simultânea de prefixo e sufixo: Parra = ramo de videira).
Prefiro a origem plebéia dessa palavra, que nasceu com o significado de ‘espalhar ramas para todos os lados’. Pode não ser a verdadeira, mas é a mais poética.
A união de vocábulos para a criação de novos termos é o chamado processo de formação de palavras por composição, isto é, combinação de duas ou mais dicções para exprimir um conceito novo, muitas vezes totalmente diferente das noções expressas pelos vocábulos primitivos. Assim, pica-pau, o nome de um passarinho, criado-mudo, o de um móvel, vira-lata, o de um cão sem raça determinada, passatempo, um divertimento, aguardente, o de uma bebida, vaivém, um movimento.
Em alguns dos exemplos acima, os radicais justapostos não se ligam através de hífen; noutros o tracinho é obrigatório.
Em face disso, composição pode ocorrer por justaposição (palavras unidas por hífen) ou por aglutinação, os elementos componentes do novo termo se juntam num só vocábulo gráfico.
Na justaposição, os elementos conservam sua independência, mantendo cada radical o seu acento tônico: segunda-feira, água-viva, pombo-correio, mula-sem-cabeça, guarda-roupa, bem-te-vi, madrepérola, pontapé.
Na aglutinação, os elementos que formam o novo termo se fundem, com um só acento tônico, podendo também ocorrer perda de sons: embora (em+boa+hora), pernalta (perna+alta), viandante (via+andante).
Na palavra composta distingue-se o elemento determinante, geralmente o primeiro, que é a parte que contém a idéia geral e o determinado, a que encerra a noção particular: agricultura (cultivo da terra: agri=terra de plantio; cultura=cultivo , mudividência (visão do mundo), plenilúnio (lua cheia), plenipotenciário (aquele que tem plenos poderes), planalto (superfície plana e elevada).
Há a possibilidade de o primeiro elemento da nova palavra ser um verbo (espalhar) e o segundo um substantivo (rama): parapeito (peitoril), sacatrapo(=manhoso), mandachuva (=chefe), tiradentes (=dentista), fura-bolo (= o dedo indicador), sacarrolha, portabandeira, paraquedas, etc.

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