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Geral

Alcides Silva escreve sobre os descuidos evitáveis

27 de abril de 2006 - 16:07

Língua portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva
Descuidos evitáveis
Peça publicitária de uma emissora de televisão e de alguns jornais impressos, apresentando um belíssimo automóvel, ladeado por moças que pela configuração de seus corpos são de ‘fechar o comércio’, nos concitam a ‘encarar de frente’ aquele veículo. Não as garotas. O difícil seria o telespectador, ou o eventual comprador, “encarar de costas”, “encarar de trás” ou “encarar de lado”. “Cara” é a parte da frente da cabeça, tanto dos homens como dos demais animais. “Encarar” é olhar de frente, jamais de soslaio, de esguelha “Encarar de frente” é, como ‘entrar para dentro’ ou ‘sair para fora’, desnecessária redundância. O verbo é formado pelo elemento de composição em (en), mais o substantivo cara e a desinência verbal ar.
Pé de bananeira
Li num classificado que determinada chácara estava à venda e nela, além de confortável moradia, havia um pomar que, dentre outras plantações, possuía "muitos pés de bananeira". “Pé de laranjeira”, “pé de goiabeira”, “pé de mangueira” não existem. Existem bananeiras, goiabeiras, mangueiras, laranjeiras, ou pé de banana, pé de manga, pé de laranja, pé de goiaba... Uma coisa é a fruta, outra, a árvore que a produz. Como não se fala “pé de laranjeira lima”, mas “pé de laranja lima”, também não se diz “pé de bananeira maçã”, mas “pé de banana maçã”. Não é a bananeira que é “maçã”, mas o fruto.
“Pé” é o exemplar individual de cada planta: pé de alface, pé de limão, pé de jaca, pé de jabuticaba, pé de manjericão...
Na linguagem popular, fora dos padrões normais da língua, é comum falar-se “pé de árvore”, “pé de pau”.
O dia amanheceu às seis horas
Nem a tarde entardece ou a noite anoitece. Você diria “O dia anoiteceu às 19 horas?” Claro que não. Diga, pois, simplesmente: Amanheceu às seis horas.
Ao encontro ou de encontro?
Tenho ouvido e lido com certa freqüência que a realização de determinada obra ou serviço “veio de encontro à antiga reivindicação do povo”.
Se aquela obra veio de encontro, está contra a reivindicação popular:
“a decisão do governo veio de encontro aos interesses da comunidade”
[foi contrária, em oposição àqueles interesses];
“desgovernado, o carro foi de encontro ao poste” [houve um choque, uma colisão, uma batida].
Se aquela benfeitoria foi ao encontro de, significa estar a favor do anseio da população-alvo:
“a construção da praça veio ao encontro do desejo do povo” [em benefício, em abono, em condição favorável, em atenção];
“embriagado o homem foi ao encontro do poste” [‘abraçou’ o poste, segurou-se no poste]; embriagado, foi de encontro ao poste [se ‘arrebentou’ no poste].
“Ao encontro de” pode significar também em busca de, a procura de:
“Suas preces foram ao encontro de Deus”.
Ir ao encontro de alguém é procurá-lo, aproximar-se de.
Ir de encontro a alguém, é chocar-se, bater, esbarrar, trombar.
É capaz de chover
Olhando o horizonte que se cobria de nuvens enegrecidas, alguém me disse: ”E capaz de chover”. Impossível. “Capaz” é um termo que significa competência, aptidão, capacidade de conter, de receber ou de abrigar. Para ser “capaz de chover” é preciso primeiro, transformar-se em água. Preferível seria ter dito: “É possível que chova”. Capacidade é uma qualidade ou o volume interior de um recipiente: possibilidade é aquilo que pode ser, acontecer ou praticar-se.

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