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Desastres “naturais” e medidas preventivas: lições para Cassilândia após a tragédia no RS

*Por Antonio Idêrlian Pereira de Sousa

Cassilândia Notícias - 10 de maio de 2024 - 20:27

Desastres “naturais” e medidas preventivas: lições para Cassilândia após a tragédia no RS

Recentemente, acordamos abismados com a tragédia envolvendo o Estado do Rio Grande do Sul, perplexos pela intensidade do ocorrido e pela dimensão dos impactos materiais, sociais e, infelizmente, pelos óbitos decorrentes.

Os chamados desastres, que nada têm de naturais, estão se tornando cada vez mais comuns, impactando cada vez mais, de modo que a população atingida não é capaz, sozinha, de retornar à sua condição anterior. Recentemente, em 2023, tivemos ocorrências no Rio Grande do Sul, no litoral norte de São Paulo, na Bahia e em Belo Horizonte, MG. Em 2022, por exemplo, ocorreram deslizamentos na cidade de Petrópolis, RJ.

Antes de começarmos a discutir sobre como os desastres também afetam a cidade de Cassilândia, irei apresentar algumas definições importantes para que possamos entender melhor as coisas e perceber que tudo tem um significado específico.

Primeiramente, é importante compreender que não existem desastres naturais. A ideia de desastre natural tende a diminuir a importância da situação, sugerindo que tudo ocorre por acaso e que não podemos fazer mudanças significativas para melhorar a qualidade de vida. Desastres, como os ocorridos no RS, só se tornam desastres quando uma população não consegue retornar sozinha ao seu estado anterior após ser atingida. As enchentes e inundações são processos naturais de córregos e rios que transbordam de seus leitos menores para os maiores.

A questão reside nas intervenções humanas nesse processo natural, na forma como modificamos o ambiente, impermeabilizando o solo e ocupando áreas antes destinadas ao fluxo natural dos córregos.

Dito isso, uma definição importante para entendermos é a ideia de risco e como isso é percebido. O risco pode ser entendido como a relação entre perigo e vulnerabilidade. Uma população que reside próxima a um curso d'água pode não estar em condição de vulnerabilidade econômica, mas pode estar em vulnerabilidade social devido à falta de infraestrutura adequada, como moradias e saneamento básico. Ao ser ou estar prestes a ser atingida por uma enchente, essa população encontra-se em uma condição de risco, e sua área residencial é considerada uma área de risco.

A questão do risco esbarra na percepção. É difícil perceber quando se está em risco, especialmente devido aos laços emocionais e históricos com o local de moradia. A territorialização das pessoas e seu vínculo com o espaço muitas vezes obscurecem a percepção do risco, tornando-o aceitável até que seja tarde demais.

Para encerrar esta ideia, precisamos diferenciar enchente de inundação. A primeira ocorre quando a água de um córrego ou rio transborda de seu canal principal para um leito menor, enquanto a inundação envolve o transbordamento para um leito maior, como uma planície de inundação.

Enchentes no Brasil - causas, consequências, soluções - Geografia -  InfoEscola

Fonte: InfoEscola. Disponível em: https://www.infoescola.com/hidrografia/enchentes-no-brasil/

Feitas as explicações, vamos entender a situação do Rio Grande do Sul de maneira geral. A formação de nuvens de chuva no Brasil depende de vários fatores, como as massas de ar em atuação. Na porção mais Centro-Oeste do Brasil, temos uma massa com características quentes atuando sobre a superfície, além de um corredor de umidade e um bloqueio atmosférico reflexo da onda de calor. Esses fatores impediram o deslocamento de frentes frias para outras regiões do país, concentrando-se mais na porção Sul.

As mudanças climáticas têm causado uma perda gradual das características sazonais das estações do ano, devido à degradação ambiental, queimadas e processos descontrolados de urbanização, entre outros fatores. Isso reflete na mudança do regime de chuvas, intensificando os eventos naturais e sua recorrência.

Finalmente, chegamos a Cassilândia, uma cidade que viveu e continuará vivendo processos de enchente e, possivelmente, de inundação, dentro do contexto exposto. O desmatamento do Córrego do Cedro, ocorrido não tão recentemente, trouxe à população uma falsa sensação de resolução dos problemas relacionados às enchentes e seus desdobramentos.

As enchentes do Córrego do Cedro envolvem os fatores descritos anteriormente, como ocupações indevidas e desmatamento, que afetaram a estabilidade do leito do curso d'água. No entanto, é importante ressaltar que as enchentes não são causadas apenas pela vegetação, mas também pela quantidade de precipitação que atinge as nascentes e como esse volume se comporta na bacia hidrográfica.

É fundamental preparar-se, prevenir-se, identificar áreas de risco e executar um planejamento estratégico. Conhecendo os problemas crônicos, a prevenção envolve a adoção de medidas que possam minimizar danos e perdas. Em casos extremos, as legislações de defesa civil preveem o reassentamento de populações em áreas de risco.

O cenário futuro pode não ser otimista, mas medidas adequadas podem contribuir significativamente para uma melhor qualidade de vida. Se o assunto desperta interesse, recomendo a leitura da dissertação "Análise de Susceptibilidade a Alagamento no Perímetro Urbano da Sub-bacia do Córrego da Lagoa e os Registros de Ocorrências no Jardim Pantanal, Dourados-MS".

Prof. Me. Antonio Idêrlian Pereira de Sousa - Geógrafo
Mestre e Doutorando em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados
Especialista em Topografia e Sensoriamento Remoto
Professor do magistério superior – Substituto 
Pesquisador no Laboratório de Planejamento – FCH/UFGD

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