Cassilândia, Terça-feira, 22 de Maio de 2018

Últimas Notícias

11/03/2006 09:22

Vulgaridades, segundo Alcides Silva

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela!
Alcides Silva

Vulgaridades
“Clichê” é o nome que se dá ao produto gravado em relevo numa chapa de zinco destinado à reprodução gráfica. Em estilística, é um termo ou frase que se repete abusivamente, transformando-se num lugar-comum, num chavão.
Rodrigues Lapa, em “Estilística de Língua Portuguesa”, comentou um trabalho no qual o autor descrevia, sem conhecer, ‘uma noite no deserto’. Reproduzo parte de seu trecho inicial:
“Noite encantadora! O luar banha com seus raios argentinos o areal desértico e imenso. Tudo brilha e refulge sob a claridade branda e suave da Lua. As estrelas, como milhões de pirilampos, estão disseminadas pela quietude misteriosa do firmamento. E no silêncio sepulcral, apenas cortado pela brisa rumorejante e dolente do oásis, tudo parece contemplar o céu, meditando no enigma do infinito...”.
Nessas poucas linhas (porque não mal traçadas linhas?) são numerosos os clichês: noite encantadora - o luar banha – raios argentinos – areal desértico e imenso - claridade branda e suave da lua – estrelas, como milhões de pirilampos - silêncio sepulcral - brisa rumorejante e dolente –enigma do infinito.
Essas construções, esses chavões, já tiveram expressividade, porém, o emprego excessivo deles, tirou-lhes o efeito e a beleza; passaram a ser perífrases ou rodeio de palavras. Perífrase é a figura que consiste em exprimir por várias palavras aquilo que se diria em poucas ou em uma só palavra. Torna-se, portanto, uma referência indireta. A repetição, porém, torna-a vulgar.
O oxigênio do globo terrestre está terminando.
A cidade da luz = Paris
O país do sol nascente = Japão
A cidade eterna = Roma
A cidade maravilhosa = Rio de Janeiro
O mesmo aconteceu recentemente com o “inserido no contexto”. Virou modismo, tanto quanto referir-se ao sol e chamá-lo de astro-rei. Por bom tempo, tudo andou inserido, como se a língua fosse um enorme embutido.
A televisão tem sido uma fonte permanente de chavões, que o povo adota com facilidade e facilmente abandona. Quem não se lembra: “Tô certo ou tô errado”, do Sinhozinho Malta ou do Zé fini, de um programa de humor? A maioria tem a vida curta de uma novela.
Na atualidade, dois verbos estão virando arroz-de-festa: investir e resgatar. Abre-se o jornal e lá está que a loja tal “investe em modernidade”, que o pecuarista fulano de tal está “investindo em melhoria genética do rebanho, que um outro, “investe em hidroponia”, que a secretaria da Educação “investe na melhoria do ensino”. Todo mundo investe, como se estivéssemos numa imensa tourada... Como verbo transitivo indireto, isto é, que exige complemento precedido de preposição, tem o significado de aplicar dinheiro em negócios (Aurélio) ou de “atirar-se com ímpeto” (Houaiss), “acometer, arremeter, irromper, assaltar, atacar; empossar" (Cândido Jucá).
“Resgatar” é o verbo do momento: resgatar o amor próprio, resgate da cidadania, resgate da auto-estima, resgate dos valores humanos, resgatar a história e outras tantas significâncias. Como verbo transitivo direto, resgatar é pagar, é recuperar, é retomar, é remir, é expiar, é cumprir (uma obrigação). É certo que resgatar também tem o significado de recuperar, de voltar a ter, mas o seu emprego a torto e a direito o está redundando em vulgaridade.

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
imagem transparente
Últimas notícias
Scroller Top
Terça, 22 de Maio de 2018
10:00
Receita do dia
Segunda, 21 de Maio de 2018
10:00
Receita do dia
Domingo, 20 de Maio de 2018
15:18
Cassilândia/Itajá
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)