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04/12/2013 16:31

Uma reflexão sobre o “eu não sabia”

Orlando Oda

Circulou poucos dias atrás a notícia de que a igreja é responsável solidária por crimes cometidos por um padre. Não vejo nada de errado nisso. A questão é: se a igreja é responsável solidária por crimes cometidos pelos padres, quem é o responsável solidário pelos condenados do mensalão?

Se a igreja tivesse alegado que “não sabia” em vez de fazer as justificativas legais, como deveria agir a ministra do STF que condenou a igreja? Se sequer foi cogitado verificar quem é o responsável solidário pelos crimes praticados pelos condenados do mensalão por que é que uma igreja poderia ser responsabilizada solidária por um crime praticado por um padre?

Quando alguém diz sou inocente está querendo dizer “não sou responsável”. Os condenados políticos do mensalão não assumiram nenhuma responsabilidade apesar de ocuparem cargos como ministros, presidente de partido político, etc. Basta então ser ministro ou presidente de partido para ser responsável. A prova está na condenação da igreja.

Se quiser, existem justificativas legais para encontrar o responsável do mensalão. O problema é que isso só acontece movido por interesse corporativista. Atrás do “deixa prá lá”, existem problemas muito mais graves, como a influência negativa e os estragos que são causados na cabeça de novas gerações. Além disso, há a implantação da cultura do corporativismo e fisiologismo: favorecimento de alguns e benefícios para poucos em detrimento da sociedade. Mais um “Brasil, mostra a sua cara”?

Veja a diferença de postura e atitude. O primeiro-ministro da Letônia, Valdis Dombrovskis, anunciou semana passada a renúncia do governo pelo trágico desabamento de um centro comercial em Riga, um acidente que ocasionou 54 mortes. Assim deveria ser a postura de um líder, em vez de ficar negando aquilo que não pode ser negado pela posição que ocupa. O que acontece no Brasil está anos-luz distante. Como o chefe já fez isso, todos se sentem no direito de fazer o mesmo. Os condenados do mensalão que são politicos, alegaram inocência e desconhecimento. Os “coitados” dos não-políticos, não puderam proceder da mesma forma.

Tanto o micro ou macro universo está estruturado tendo um núcleo central no comando. O que estão ao redor acompanham o centro. Mesmo o furacão Sandy, uma energia colossal com vento superior a 150 quilômetros por hora, massa de nuvem com 1.600 Km de diâmetro, flutuando cerca de mil e duzentos metros acima da superfície terrestre durante os oito dias que esteve ativo girou por oito vezes acompanhado o planeta Terra. Não vi nas fotos do furacão nenhuma corda amarrando Sandy à Terra.

É como atirar uma pedra na superfície da água de uma lagoa. Formam-se ondas que se espalham. A onda que forma é consequência do tamanho da pedra que atira na lagoa. Se a pedra for muito grande pode provocar um “tsunami” e destruir tudo. Se jogar pedra de irresponsabilidade, propagam-se ondas de irresponsabilidade. Se jogar pedras do “eu não sabia”, propagam-se ondas de “eu não sabia”.

Se o centro agir de forma correta, todos ganham, todos prosperam. Se o centro agir de forma incorreta todos perdem. Se o centro pensar pobre, todos ficam pobres. Se o centro tiver cabeça pequena, todos encolhem. Os números mostram isso claramente. A taxa anual de crescimento do PIB do Brasil no período 2004-2010, foi uma das menores da América Latina. Só não conseguiu ser menor do que Paraguai e Bolívia. Uma empresa, um país, tudo é reflexo do centro. É o centro que nomeia os ministros ou a diretoria de uma empresa. Pense nisso próxima vez que procurar um emprego. Pense nisso quando for votar da próxima vez.

Orlando Oda é administrador de empresas, mestrado em administração financeira pela FGV e presidente do Grupo AfixCode.

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