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19/06/2016 09:45

UFMG desenvolve vacina contra leishmaniose visceral

Saúde Plena

Uma vacina que pode significar o fim da eutanásia dos cães nos casos de leishmaniose visceral, além de reduzir o potencial de disseminação da doença, está sendo desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em vez da imunização, ela promete impedir que o cachorro infectado se mantenha como reservatório do protozoário que causa a doença, impedindo sua transmissão para outros cachorros e, até mesmo, para humanos. Com isso, o cão contaminado deixa de ser considerado um risco à saúde pública e pode ser submetido a tratamento, o que atualmente não é recomendado pelo Ministério da Saúde.

A abordagem da pesquisa para controlar a disseminação de leishmaniose visceral, conduzida pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio da Fapemig, CNPq e Ministério da Saúde, é inédita. Segundo o professor Rodolfo Cordeiro Giunchetti, coordenador dos estudos, a vacina tem na composição o antígeno do próprio inseto. Ela usa uma proteína do flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, conhecido popularmente como mosquito-palha, para gerar no cão anticorpos que inibam as etapas de desenvolvimento do inseto. Assim, quando a fêmea picar o cão infectado em busca do seu sangue, ela não seria infectada e, portanto, não poderia transmitir o protozoário causador da leishmaniose. “Há indícios de que o hospedeiro infectado vacinado bloqueia a infecção no inseto, o que interromperia o ciclo de transmissão, de modo que ele não conseguiria infectar novos cães ou mesmo o homem”, avalia o pesquisador.

“O primeiro resultado mostrou que as fêmeas de flebotomíneos que se alimentam do sangue do cão vacinado diminui em 47% o número de ovos que colocaria na natureza. Isso quer dizer que, ao longo dos anos, poderíamos controlar o número de flebotomíneos (mosquito-palha)”, explicou Giunchetti. Segundo o professor, reduzir a quantidade de mosquito-palha é um grande ganho, já que a forma de exterminá-lo não é tão objetiva como as medidas para combater o Aedes aegypti, por exemplo. Isso porque, enquanto o mosquito transmissor da dengue se reproduz na água parada, o vetor da leishmaniose usa matéria orgânica.

Bom desempenho
A pesquisa começou a ser feita com roedores e o estudo controlado mostrou que, além dos efeitos apresentados no ciclo de transmissão da doença, não havia efeitos colaterais. Ao testar em cães, a equipe científica confirmou os resultados. A vacina vem apresentando bom desempenho nos diferentes testes. Segundo o professor, parte do ciclo do protozoário Leishmania chagasi se desenvolve no trato digestório do inseto, até ele chegar a uma forma infectante capaz de transmitir para cães e homens. É nesse foco que o pesquisador trabalhou, diferentemente de outras vacinas tradicionais. “Essa tem uma nova característica de favorecer o cão. Mesmo que ele fique doente, poderá permanecer na área endêmica e não precisa ser submetido a eutanásia pois não ofereceria risco à saúde. Não há ninguém no mundo que trabalhe com essa abordagem para controlar a leishmaniose visceral”, garante.

Os sintomas da leishmaniose nos cães são perda de apetite, lesões de pele, emagrecimento crônico e prostração. Na forma visceral, ela compromete órgãos vitais, como rins, fígado, baço e medula óssea, podendo levar à morte do animal. Embora já tenha havido decisões judiciais contra a eutanásia, a recomendação do Ministério da Saúde é sacrificar o cão contaminado para que ele deixe de ser um reservatório do protozoário que causa a leishmaniose. Isso se torna um problema na medida em que os cachorros ganharam um status tal na sociedade que se tornaram como membros da família.

O professor afirma que, independentemente do tratamento que é feito em algumas clínicas, o animal continua com o parasito no sangue e, por isso, oferece risco à saúde. “Pesquisadores da área acreditam que o cão sendo submetido a tratamento pode, inclusive, gerar um parasito ainda mais virulento. O animal melhora clinicamente, mas se mantém com o status de reservatório. Pensando em dar uma contribuição para amenizar isso e dar uma alternativa à eutanásia é que estamos trabalhando no desenvolvimento da vacina”, afirma Rodolfo Cordeiro Giunchetti.

Sistema imune
A única vacina no mercado contra leishmaniose hoje é a Leish-Tec, desenvolvida também pela UFMG, mas ela tem proteção de 96%. Já houve também a leishmune, mas ela teve a comercialização proibida. De acordo com o pesquisador, não existe nas próximas décadas perspectiva de uma vacina que proteja 100% dos cães, porque os protozoários têm vários mecanismos de escape do sistema imune. A vacina que está sendo desenvolvida agora não substitui a já existente, pois ela não previne a doença. Ela pode, por exemplo, ser aplicada em cães que forem diagnosticados com leishmaniose, de modo que eles não precisarão ser mortos. Mas também pode ser associada à Leish-Tec, fazendo com que, caso o animal venha a ter o protozoário, não seja um transmissor da doença.

Um dos perigos de se manter cães infectados é que a doença também pode atingir os humanos. No homem, a leishmaniose visceral causa alteração nas vísceras, como fígado, baço e medula óssea, causando um abalo muito grande no sistema imune. “A pessoa pode ficar mais propensa a uma série de infecções e, com isso, morrer, por exemplo, de pneumonia. A própria infecção já causa uma alteração renal gravíssima que pode levar à falência do órgão”, explica o professor.

Para Rodolfo Giunchetti, o problema é que o diagnóstico da leishmaniose humana é lento, pois há poucos profissionais preparados para fazê-lo e o tratamento é negligenciado. “A indústria farmacêutica não tem muito interesse em desenvolver remédios porque a doença é restrita a países pobres. Mesmo na Europa, onde existe leishmaniose, ela não é considerada de importância para a saúde pública porque lá somente um grupo especial pode desenvolver a doença, os pacientes com HIV”, diz. No Brasil, os idosos, moradores de regiões mais pobres e crianças subnutridas são os principais alvos da doença.

Para a vacina chegar ao mercado, o professor Rodolfo Giunchetti está em busca de parcerias com o mercado já que houve um grande corte no financiamento do governo para as pesquisas em razão da crise econômica. “Não temos um horizonte favorável para novos editais, acho que levaria mais de cinco anos para produzir, a não ser que eu consiga uma parceria com alguma empresa. A expectativa é de que haja interesse”, afirmou.

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