Cassilândia, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

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20/09/2015 11:30

Sociedade de Pediatria 'choca' com imagens de campanha sobre aleitamento materno

A média de aleitamento materno exclusivo no Brasil é de 54 dias frente a uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de seis meses

Saúde Plena
Sociedade de Pediatria 'choca' com imagens de campanha sobre aleitamento materno

 

 

 

Não existe leite fraco. É essa a verdade que especialistas em aleitamento materno – sejam brasileiros ou ao redor do mundo – repetem incessantemente para que a mensagem chegue ao maior número de mulheres possível. Uma campanha idealizada pela Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, que deve ser lançada na próxima segunda-feira (21/09), no entanto, é acusada de confundir essa compreensão. As três imagens que já foram divulgadas para a imprensa com o slogan ‘Seu filho é o que você come’ mostram crianças mamando só que, no lugar do seio materno, aparecem alimentos ricos em gordura e açúcar como hambúrguer e refrigerante.

Pediatra do Comitê de de Nutrologia da entidade, Matias Epifanio afirma que diante de números que mostram a incidência de sobrepeso em crianças brasileiras (uma em cada quatro está acima do peso) e do consumo de refrigerantes por bebês com menos de um ano (quase 50%) evidenciam a necessidade de campanhas como esta.

É fato que uma alimentação saudável durante a gestação e o período de lactação traz benefícios para mãe e para o bebê. Mas também é fato que a média de aleitamento materno exclusivo no Brasil é de 54 dias frente a uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de seis meses. Nesses 360 e poucos dias um bebê não precisa de nada além do leite materno, nem água. “Toda mulher saudável, seja ela magra ou obesa, é capaz de produzir leite materno saudável, no sentido mais amplo da palavra. A nutrição materna deve sim ser adequada, mas em hipótese nenhuma a má nutrição materna deve ser considerada como fator para o desmame”, afirma a pediatra Silvia Gioielli.

E é justamente esse o ponto das críticas à campanha. As imagens invadiram as redes sociais foram classificadas como ‘chocantes’ ou ‘pertubadoras’ e o assunto chegou até à mídia internacional.

Para Silvia Gioielli, “o grande equívoco desta campanha é chamar atenção para uma questão tão importante como alimentação saudável, mas deixar subentendido que a alimentação incorreta levaria à produção de um leite materno inadequado, ruim ou perigoso para o bebê, induzindo assim, à falsa ideia que a formula é mais balanceada e, portanto, mais adequada. Não é por que a mãe come um hambúrguer que o bebê vai mamar hambúrguer”.

 

 

 

Sociedade de Pediatria 'choca' com imagens de campanha sobre aleitamento materno

 

 

 

A especialista explica que o que pode causar doenças para o bebê, no futuro, é justamente a falta de aleitamento materno. “Mesmo que a mãe tenha uma dieta inadequada, seja ela com excesso ou falta de calorias, mesmo que seja uma dieta mais rica em gorduras, o leite materno será produzido de forma adequada para o bebê. Se for um leite mais gordo, a tendência é que o bebê se sinta mais saciado e mame em horários mais espaçados. Mesmo que o bebê esteja acima do percentil 90 na curva de crescimento - desde que em aleitamento materno sem complementação com fórmula -, não há motivo para preocupação”, afirma. Segundo Silvia, o mais comum é que o peso se reequilibre com a introdução da alimentação complementar e com a maior atividade da criança como engatinhar e andar. “O leite materno é fator protetor contra a obesidade não um fator predisponente. Mesmo que a mãe seja obesa”, reforça.

A Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul diz que a campanha não quer desestimular o aleitamento materno. “Ao contrário, queremos incentivar o aleitamento materno e que a mãe tenha uma alimentação saudável. A mãe precisa ter consciência que a falta de alguns alimentos pode fazer com que a criança tenha problemas no futuro. Estudos já mostraram que até o rendimento escolar pode ser afetado com a falta de nutrientes”, destaca Matias Epifanio.

Silvia Gioielli salienta que as únicas situações em que o aleitamento materno é contraindicado e o uso de fórmulas é obrigatório é quando a mãe tem alguma doença infectocontagiosa transmissível através do leite materno. “Caso de HIV positivo ou quando a mãe faz uso de medicamentos específicos como os usados em quimioterapia. Salvo esses casos, a fórmula láctea não trará os mesmos benefícios que leite materno, nem para o bebê, tampouco para a mãe”, diz.

A amamentação ainda não é consolidada no Brasil como prática de promoção de saúde e prevenção de doenças. Assim, ainda precisa ser alvo de muito incentivo. Para Silvia, ainda vigoram na cultura muitas falsas razões para o desmame precoce como a disseminação do uso da mamadeira e chupetas, mitos como a ideia de leite fraco e queda dos seios, propaganda indiscriminada de substitutos do leite materno e a dificuldade em cumprir as leis que protegem as mães trabalhadoras que amamentam.

 

 

 

Sociedade de Pediatria 'choca' com imagens de campanha sobre aleitamento materno

 

 

 

Médica do Comitê de Nutrologia Sociedade de Pediatria do RS, Berenice Lempek afirma que a amamentação é um período importante para estimular o paladar das crianças. “A maioria dos recém-nascidos aceitam bem o leite materno porque ele apresenta sabor e aroma semelhantes ao do líquido amniótico. Os bebês já nascem com preferência ao paladar doce e rejeição ao azedo. Isto é uma característica nata que pode sofrer mudanças de acordo com a alimentação oferecida”, detalha. Ela afirma ainda que crianças que receberam fórmulas infantis apresentam maior dificuldade na introdução alimentar já que foram expostas por um longo período a uma dieta exatamente igual ao longo dos dias. “Este é um dos motivos pelos quais o aleitamento materno é tão importante para os pequenos”, observa.

Silvia Gioielli diz ainda que o leite materno é o único alimento capaz de prevenir obesidade, diabetes e alergias inclusive na vida adulta. “O leite materno é benéfico em qualquer idade, mas principalmente até os 2 anos de vida. Isso por que até essa fase a imunidade do bebê ainda não está totalmente estabelecida”, completa.

Veja o que a ciência já comprovou sobre os benefícios da amamentação:

- Mortalidade infantil: o aleitamento materno pode evitar 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o mundo.
- Evita diarreia: crianças não amamentadas têm um risco três vezes maior de desidratarem e de morrerem por diarreia quando comparadas com as amamentadas
- Evita infecção respiratória: a proteção é maior quando a amamentação é exclusiva nos primeiros seis meses
- Diminui os riscos de alergia: a amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida diminui o risco de alergia à proteína do leite de vaca, de dermatite atópica e de outros tipos de alergias, incluindo asma e sibilos recorrentes
- Diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes: o aleitamento materno apresenta benefícios em longo prazo
- Reduz a chance de obesidade: indivíduos amamentados tiveram uma chance 22% menor de vir a apresentar sobrepeso/obesidade
- Melhor nutrição: o leite materno contém todos os nutrientes essenciais
para o crescimento e o desenvolvimento das crianças
- Efeito positivo na inteligência: crianças amamentadas apresentam vantagem
nesse aspecto quando comparadas com as não amamentadas
- Melhor desenvolvimento da cavidade bucal: o exercício que a criança faz para retirar o leite da mama é fundamental para o alinhamento correto dos dentes e uma boa oclusão dentária
- Proteção contra câncer de mama: Estima-se que o risco de contrair a doença diminua 4,3% a cada 12 meses de duração de amamentação.
- Evita nova gravidez: A amamentação é um excelente método anticoncepcional nos primeiros seis meses após o parto com 98% de eficácia
- Promoção do vínculo afetivo entre mãe e filho: a amamentação é uma forma muito especial de comunicação entre a mãe e o bebê e uma oportunidade de a criança aprender muito cedo a se comunicar com afeto e confiança.
- Melhor qualidade de vida: crianças amamentadas adoecem menos

 

 

 

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