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30/03/2010 10:35

Se não saiu na mídia não aconteceu, por Nelson Valente

Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor

No imaginário popular, o que importa é como a mídia descreve, interpreta, fotografa e divulga o mundo. A mídia pauta o mundo e forma ou deforma mentalidades. Se não saiu na mídia não aconteceu.

No mundo midiático, digital, instantâneo, a informação é cada vez mais estilizada, pasteurizada, e os fatos recortados da realidade sem nexo, sem contexto, sem passado, sem história, sem memória, numa destruição clara da temporalidade, como se o mundo fosse um eterno videoclipe. Dessa forma, mais confunde do que esclarece e mais deforma do que forma.

Com o uso da internet, o volume de informação dificulta a compreensão num mundo caleidoscópico, que se apresenta em forma de mosaico sem nexo, que vive transfigurando e refigurando o espetáculo da vida como se o confundisse com um reality show. Se deixarmos de ser "zumbis" culturais e aprendermos a ler o mundo, enquanto linguagem, aprenderemos a pesquisar, aprenderemos a aprender o essencial no mundo moderno.

Na leitura crítica da mídia, a linguagem, constituída a partir de um "mundo" editado, passa por inúmeros "filtros" - pela observação dos fatos e pelo relato da declaração do outro - na construção da notícia. É preciso ficar atento à ideologia presente em cada fala, porque todo discurso é ideológico e reflete a realidade que a retrata.

Estes são alguns dos elementos responsáveis pelo fascínio exercido pela rede mundial de computadores - a Internet. Entretanto ela não está isolada, mas faz parte de um conjunto de outras mídias já consolidadas como o rádio, a TV, o cinema e todas as formas impressas, que continuam a exercer o seu papel como fontes importantes de informações, que devem ser consideradas. Obviamente, grandes benefícios são trazidos à humanidade pela facilidade de acesso à informação.

As mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias digitais colocaram na tela da TV e na Internet a informação massificada, onde está tudo disponível, de fácil acesso, condensado, daí a dúvida: será o fim do livro ? As pessoas vão deixar de ler ? A resposta é não. A leitura, com o tempo e a prática vira êxtase, é semelhante a um transe. Ler é participar de uma das mais extraordinárias invenções e revoluções tecnológicas de todos os tempos, que são os sistemas de escrita. Nós não teríamos a Internet hoje, sem os códigos da escrita.

Há menos de duas décadas, as crianças e jovens tinham um acesso limitado às informações e os pais podiam, de algum modo, selecionar aquelas que possuíam um conteúdo condizente com cada idade e capacidade de compreensão, direcionando os interesses para boas fontes como livros clássicos da literatura infantil, bons filmes,etc.

As tecnologias atuais, em particular a Internet, mudaram toda essa perspectiva. O acesso a Internet dissemina-se aceleradamente e hoje a maioria das crianças e jovens, mesmo aquelas de classe menos favorecidas, conseguem ter contato com ela. Se não possui um computador em casa, a escola disponibiliza ou um amigo tem. E quando a telinha do computador se abre, o portal do mundo está aberto.Entretanto, permeando tais informações, há uma grande quantidade de "lixo informacional" invadindo nossos lares todos os dias. O cerne da questão está no fato de que o volume de informação não garante a qualidade.

A memória é um mecanismo que permite não somente conservar, mas também filtrar. Caso contrário, seríamos com Funes, el Memorioso, a personagem de Borges que se lembrava de todas as folhas que havia visto durante 30 anos atrás e ficou louco.

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