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01/04/2013 14:40

Salve Jorge - A invasão dos Signos (1ª parte)

Nelson Valente (*)

Ninguém pode fugir à História. Clara ou oculta, essa "senhora", está presente em todos os nossos romances. Sempre considerado importante. Não só ela mas também esse cavalheiro, mais misterioso ainda, sem o qual ela não poderia existir: o Tempo.

A sutil combinação ficcional, Semiótica e realidade, em Salve Jorge, demonstra o raro talento de Glória Perez como escritora e sua perene influência na literatura contemporânea brasileira. Suas metáforas derivadas de parábolas, lendas e anedotórios são de efeito, porquanto sintáticas e engenhosamente construídas.

A autora prefere o laconismo ao acúmulo.

O trabalho de Glória Perez pode ser difundido como verdadeiro contemporâneo. Mestre da coerência verbal e psicológica examina a magia da invenção e generosamente compartilha seus segredos com o telespectador.

As palavras têm de ser avaliadas, manipuladas, orquestradas em seu sentido secreto.

A meditação sempre sobrepuja a mera descrição nos trabalhos de Glória Perez. Personagens e situações são rapidamente esboçados em traços meramente essenciais.

Ficção e realidade têm sido parceiras em literatura. Fatos reais servem de fundo à projeção de acontecimentos imaginados.

Pessoas e situações que nunca existiram são incorporadas à vida de uma comunidade verdadeira, fundamentadas no “se”.

Se tal evento ou tais personagens fictícios houvessem mesmo existido naquele contexto real, de que forma a novela Salve Jorge teria sido afetada, que alterações sofreria o futuro, seja de uma família ou de um povo?

Ao analisar cenas da novela Salve Jorge, exibida pela TV Globo, mais uma vez observa-se a natureza icônica das imagens. Ícones esses, que chamam a atenção de milhares de pessoas todos os dias e mexem com o imaginário do telespectador justamente por serem representações. Se os mesmos atores prediletos da televisão estivessem, ao vivo, na sala de um cidadão, mantendo um diálogo qualquer, talvez o fascínio pelas histórias contadas não fosse tão grande. Em muitos aspectos é justamente o fato de ser inalcançável aquela representação de realidade que atrai multidões às telas.

Na novela Salve Jorge, exibida pela Rede Globo, além da natureza icônica das imagens, também se pode perceber a utilização de um cenário e personagens carregados de signos. Nesse contexto, percebe-se na novela Salve Jorge, um claro exemplo da utilização criativa dos signos e, em especial, dos ícones, para atrair a atenção do telespectador, que tem o imaginário levado a um ambiente que ao mesmo tempo não lhe é conhecido (Capadócia), e totalmente novo, mágico, dado ao tratamento que os objetos têm dentro da história.

A imagem pode ser a representação de algo. Uma imagem é caracterizada, segundo quem a lê. Logo, cada indivíduo possui uma leitura diferente, não podendo ser definido um sentido à mesma. Fica difícil dar uma definição, devido aos infinitos usos desse termo, que vai desde os desenhos rupestres até à imagem mental.

Enfim, como diz Humberto Eco (1984), vivemos em uma sociedade construída num complexo “sistemas de signos”. Em um site, diferentes signos podem entrar na composição do documento como o signo linguístico (o texto), signo icônico (a imagem, a metáfora, o sinal) e signo sonoro (um barulho, uma fala, uma música). Os signos de ordem plástica, como o desenho (fixo ou animado), a fotografia, o jogo de cores, etc., também constituem esse complexo sistema de signos.

A trama central da novela Salve Jorge nos permite identificar claramente os actantes da narrativa que assumem papéis simultâneos. Morena e Théo e desejam mutuamente e ao longo da novela estão sempre buscando reencontro. Eles são os destinadores de si mesmos e um é sempre o destinatário do outro.

O casal protagonista em Salve Jorge desde o início do enredo tem a intenção de ficar junto, porém as condições impostas a eles pelo destino os forçam a tomar atitudes contrárias aos seus desejos.

O processo de semiose acontece na mente do interpretante de forma subliminar, ou seja, o telespectador percebe todas as relações facilitadoras e opositoras que ocorrem com o casal protagonista, mesmo que não apliquem as teorias semióticas. Assim a Semiótica explica o que possivelmente será entendido por aqueles que acompanham a teledramaturgia.

As interações narrativas que sustentam o enredo musical se apresentam de forma bastante explicita na canção abordada de Roberto Carlos: Esse cara sou eu. Pelo processo de semiose é possível detectar na música o tema central, transparecido pelo personagem, em que ele demonstra o quanto à saudade machuca devido à distância de seu objeto de desejo. Comparando a análise semiótica já feita das duas linguagens, percebe-se o uso da mesma base de estruturação de sentido. O núcleo é a história de um casal, que por condições impostas pelo destino é forçado a se separar. A distância gera saudade e sofrimento e o amor e a esperança do reencontro estão sempre presentes. Tanto a canção como a novela é a representação do amor impossível, não vivido, cheio de desencontros e opositores, o “algo” dessas duas narrativas/artes, é o desejo de alguém em reencontrar o grande amor. Nos dois casos o interpretante é apresentado a uma história de tristezas e esperanças.

A música quando escrita, como foi criada para tal finalidade, volta-se para aquilo que a novela irá apresentar não que ambas tratem do mesmo assunto, com as mesmas palavras, mas elas estão relacionadas por gerarem uma mesma imagem acústica na mente de quem as compreende, ligam-se por abordarem o mesmo tema e dessa maneira o processo de semiose que acontece na mente dos receptores será o mesmo, independente de ambas serem narrativas diferentes.

As interações narrativas que sustentam o enredo musical se apresentam de forma bastante explicita na canção abordada. Através de vários pronomes como os encontrados nos versos:

“O cara que pensa em você toda hora” e “Que conta os segundos se você demora” nota-se a existência de um sujeito apaixonado que busca o alvo de seu desejo, a pessoa amada. Essa se faz presente através dos versos “Que está todo o tempo querendo te ver”; “Porque já não sabe ficar sem você”. A palavra é a representação do amor. Uma pessoa apaixonada é vista como alguém que não percebe o entorno e se volta totalmente para a pessoa amada, atitudes reconhecidas pelo senso popular como delírio.

Através do trecho “O cara que ama você do seu jeito” se tem uma noção da intensidade do sentimento do sujeito e tudo que o amado representa para ele, uma vez que o primeiro amor é visto como o mais lembrado e mais intenso.

A felicidade é consequência do amor do sujeito e mesmo estando longe de quem se gosta, a simples existência do sentimento possibilita essa alegria que seria constante caso estivessem juntos. Essa relação pode ser percebida quando o personagem da música destaca que sua felicidade é sonhar com quem se ama.

Pelo processo de semiose é possível detectar na música o tema central, transparecido pelo personagem, em que ele demonstra o quanto à saudade machuca devido à distância de seu objeto de desejo.

Apesar de nem todos os receptores das mensagens tratadas neste artigo possuírem o conhecimento sobre semiótica, a semiose se dará automaticamente através da percepção das estruturas básicas que se unem para formar o sentido da trama.

No decorrer da nossa análise fez-se clara a interação entre a novela e a música abordadas, já que ambas se desenvolvem através de um mesmo núcleo temático central.

Porém, tal interação não ocorre entre todas as telenovelas e suas músicas tema. O objetivo inicial era comparar as duas a partir de análises semióticas para, então, estabelecer alguma relação entre ambas, e compreender até que ponto uma canção escolhida, e neste caso criada especificamente para a novela, pode lembrar ao telespectador sobre a história que é apresentada na novela Salve Jorge, que ajuda a ler o mundo.

(*) é professor universitário, jornalista e escritor

Referências Bibliográficas:

ECO, Umberto. O Signo. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1997.Collected Papers of Charles Sanders Peirce. 8 vols. Cambridge: Harvard University Press, 1931 - 1958.

PEIRCE, Charles Sanders. Estudos Coligidos. Col. Os pensadores, trad. bras., São Paulo: abril, 1980 (ant.).

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. 2ª ed., trad. bras., São Paulo: Cultrix / EDUSP, 1975 (ant.).

PIGNATARI, Décio. Semiótica & literatura. 6 ed. São Paulo: Ateliê Editorial: 2004.

PIGNATARI, Décio. Informação. Linguagem. Comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1977.

VALENTE, Nelson. BROSSO, Rubens.Elementos de Semiótica comunicação verbal e alfabeto visual. São Paulo: Panorama, 1999.

________________ . Teoria Lógica dos Signos.São Paulo. Intermedial Editora,2009.

________________ .Semiótica. A invasão dos Signos.USA.Amazon, 2013.

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