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27/06/2005 09:50

Saiba quem foi Canhoteiro, um dos ídolos do São Paulo

Fernando Savaglia

Se o gol é a razão do futebol, o drible é a mais pura expressão do improviso que torna esse esporte o mais popular, belo e emocionante do planeta. O maranhense José Ribamar de Oliveira, o Canhoteiro, era um virtuoso da finta. Para muitos, foi o maior driblador da história do futebol nacional, uma escola que sempre primou pela quantidade de craques reverenciados por tal característica. Sua fama contrastava com o pouco caso com que se dedicava a construí-la. Jogava despretensiosamente. Parecia não se preocupar com nada além dos dribles aplicados em seus adversários e de atingir a linha de fundo para poder servir a seus companheiros.

Segundo sua biografia, Canhoteiro - O Homem Que Driblou a Glória, escrita pelo jornalista Renato Pompeu, desde cedo já desfilava a vocação de showman, digna de um malabarista. Quando criança, seu pai, que projetava para o filho uma carreira de médico, tentava, de forma cruel, evitar que o garoto desperdiçasse o tempo jogando futebol. Amarrava-lhe a perna direita ao pé da mesa. Assim, era impossível sair de casa. Mal sabia que essa repressão teria efeitos diretos no desenvolvimento da habilidade de Canhoteiro. Mesmo preso ao móvel, seguia seus instintos de criança. Com uma bolinha de papel, passava horas se divertindo. Fazia seguidas embaixadas com a perna esquerda. Por fim, terminou utilizando outros objetos, como moedas, laranjas, caixas de fósforos e até um peão, que equilibrava com os pés descalços.

De acordo o ex-lateral-esquerdo Alfredo Ramos, companheiro de clube, o ponta são-paulino dava, de vez em quando após tomar café, um tapa no pires, fazendo a xícara voar pelos ares até ir ao encontro de seu pé esquerdo. Daí em diante, começava um espetáculo de embaixadas até a xícara ser devolvida, com o pé, ao pires. Essas brincadeiras faziam a alegria dos atletas durante as concentrações e em alguns momentos antes dos jogos, quando os vestiários recebiam a visita de centenas de curiosos para ver os malabarismos de aquecimento de Canhoteiro, que, apesar do apelido, era ambidestro.



SE VIRA, CANHOTA...

Ao contrário dos vários jogadores que mostram extremo domínio de bola e que, em campo, são pouco efetivos, ele transformava sua arte em jogadas eficientes. Era capaz de proezas difíceis de acreditar simplesmente ouvindo-as da boca de alguém. Mas, com a ajuda de testemunhas oculares, lances que antes pareciam apenas lendas e exageros podem ser comprovados, como, por exemplo, as incríveis matadas de bola com o bico da chuteira.

Sua trajetória no São Paulo teve início em 1954. Vindo do América de Fortaleza, mas já com passagens pela seleção do Ceará, fez um teste no Tricolor. O homem encarregado de marcá-lo numa tarde de abril foi Turcão, excelente zagueiro. Canhoteiro apareceu no clube com um ex-jogador do Vasco da Gama chamado Wilson. "Sabendo que eu era o lateral-direito, o Wilson me pediu que tomasse cuidado com o menino, pois o garoto era muito magro e frágil", relembra Turcão.

O ex-beque, conhecido por sua vitalidade até em treinos, garante que não viu a cor da bola. "Levei um baile daqueles (risos). Eu ia nele. E ele saia pela esquerda, pela direita. Não consegui, sequer, tirar uma bola dele", diverte-se. "Acabou o treino. E eu corri no seu Feola (na época, técnico). Praticamente, implorei que contratasse o Canhoteiro naquela mesma hora."

Após um ano na reserva do veterano Teixeirinha, o maranhense fixou-se como titular. Suas jogadas e seus dribles desconcertantes valeram-lhe um fã-clube formado por torcedores das diversas agremiações paulistas, algo pouco comum no futebol.

No auge da carreira, travou duelos memoráveis com grandes marcadores, como Djalma Santos, da Portuguesa de Desportos. Sua principal vítima, porém, era o Corinthians do lateral Idário, que carregava a ingrata função de acompanhá-lo por todo o campo.

Numa ocasião, diante das arquibancadas lotadas do Pacaembu, Canhoteiro driblou o corintiano 14 vezes num mesmo lance. A seqüência impressionante de fintas começou no meio-de-campo e acabou na linha de fundo, com o desarme do zagueiro alvinegro. A jogada, aplaudida pelo estádio inteiro, confirma o aspecto romântico que havia no futebol daquele período. Apesar da fama de truculento, Idário não foi desleal com o ponteiro, de quem era amigo. Canhoteiro, mesmo tendo perdido a bola, foi reverenciado por sua exuberante técnica. Reza a lenda que os dois amigos teriam feito um pacto. A cada quatro bolas disputadas por eles, Canhoteiro se deixaria desarmar em uma.

Mas não foram poucas as vezes em que o tricolor poupou seus adversários de humilhações. Numa ocasião no interior, Canhoteiro soube que a equipe adversária estava com os salários atrasados. Tentando evitar que seu marcador se complicasse ainda mais, pediu aos companheiros que não lhe passassem a bola. "Ele tinha uma índole muito boa e pura", garante Turcão. "Era muito inocente e altruísta."

O ex-lateral-direito Jair Picerni, hoje técnico de futebol, chegou a enfrentar Canhoteiro quando o maranhense estava se despedindo dos campos. "Estava fazendo minha transição do juvenil para o profissional do Nacional da capital", diz. "Ele me driblou de uma maneira que caí no gramado. Para me incentivar, disse: 'Jairzinho, futebol não é para jogar sentado. Levanta, garoto (risos)'", relembra o atual treinador do Guarani de Campinas.

Zizinho, companheiro do carismático malabarista da bola na fantástica equipe campeã paulista de 1957, dizia-se perplexo com tanta habilidade. Considerava Canhoteiro o maior ponta-esquerda que já tinha visto. Numa partida contra o Santos, em plena Vila Belmiro, na qual o São Paulo aplicou uma estrondosa goleada no time do jovem Pelé, o veterano armador carioca, ciente de que o placar de 6 a 2 impediria qualquer reação do Alvinegro praiano, entregou a bola a Canhoteiro, pois queria que o tempo passasse. "Toma canhota, se vira", teria dito.

O mágico da ponta-esquerda, então, protagonizou um dos mais espetaculares lances do Campeonato Paulista. De onde partiu, no meio-de-campo, chegou à linha de fundo enfileirando os adversários, como se tivesse grudado a bola nos pés. Levando a sério o pedido do craque da camisa dez são-paulina, fez, para deixar o relógio trabalhar em favor do time, o caminho inverso. Retornou ao ponto do qual saiu. E, mais uma vez, distribuiu outra rodada de dribles desconcertantes.



O MALABARISTA

Uma partida com Canhoteiro em campo era garantia de um espetáculo à parte. Admirador confesso do ponteiro, que via em campo quando morava na capital paulista, o cantor e compositor Chico Buarque deu a seguinte declaração ao jornal O Globo em 1998: "Canhoteiro era um gênio. As pessoas o comparam ao Garrincha. Ele jogava na ponta-esquerda. Era um driblador. Só que tinha um drible na corrida mais veloz. Não parava como o Garrincha. Ele tinha essa coisa lúdica igual ao Garrincha: você ria vendo o Canhoteiro jogar". Em sua música "Futebol", o compositor carioca incluiu o são-paulino no seu ataque dos sonhos. A letra diz: Para Mané/para Didi/para Pagão/para Pelé e Canhoteiro.

O atleta tricolor protagonizava jogadas que beiravam o inverossímil. Entre elas, a finta aplicada no lateral Antoninho, do Palmeiras, que, traído pelo jogo de corpo de Canhoteiro, despencou pela escada do túnel do Pacaembu. Outra capacidade que possuía era a de carregar a bola do meio-de-campo até a linha de fundo sobre a estreita marca de cal da lateral sem deixá-la sair.

O ápice de sua carreira foi em 1957, ano em que o São Paulo conquistou o Campeonato Paulista em cima do Corinthians. Esse título, em especial, revela um fato curioso. Poucos são aqueles jogadores que entram na categoria de mitos do futebol - ganhando lugares cativos na memória dos torcedores - que não ostentam em suas casas uma invejável coleção de troféus. Pode-se dizer que Canhoteiro conquistou uma fama proporcionalmente inversa à quantidade de torneios ganhos com a camisa do Tricolor.

Durante os quase dez anos que vestiu a camisa do São Paulo (de 1954 a 1963), sagrou-se campeão paulista apenas uma vez e conquistou alguns torneios no exterior. Ao contrário do que se possa imaginar, essas importantes, mas poucas conquistas - fato perfeitamente explicável se for levada em consideração a opção de o clube em investir, na época, na construção do Morumbi -, só servem para dimensionar com mais precisão o valor de seu futebol cheio de irreverência.



NA SELEÇÃO

Para alguns amigos próximos, o estilo de seu futebol era reflexo direto de sua personalidade. Apesar da timidez, era brincalhão e desligado. "Num jogo contra o Corinthians, ele fez o terceiro e eu, no final, o quarto gol, garantindo a vitória por 4 a 3", relembra Turcão. "Ele desceu as escadas que dão acesso ao túnel dos vestiários do Pacaembu lamentando o empate. Era tão desligado que nem se deu conta de que havíamos ganhado o jogo (risos)."

Esse jeito rendeu ainda uma passagem que, conforme alguns cronistas esportivos contam, contribuiu com seu, apenas, modesto currículo na seleção brasileira. Chamado para substituir Pepe, do Santos, o craque são-paulino não pode entrar imediatamente em campo, porque, embora estivesse trajando o agasalho dos reservas, não havia vestido o calção por baixo.

Sua relação com o selecionado nacional é curiosa. Apesar de o escrete brasileiro ser treinado na época por Vicente Feola, técnico do São Paulo Futebol Clube e fã incondicional do ponta, o ambiente de competição entre os atletas que disputavam posições não agradava ao craque, mais acostumado ao clima de amizade e companheirismo reinante no clube. Somam-se a isso a necessidade de cumprir determinações táticas e estratégicas bem mais rígidas do que no Tricolor paulista e as inevitáveis e longas viagens de avião, das quais não gostava nenhum pouco. Dizem, entretanto, que o episódio que valeu seu definitivo desligamento da seleção que iria disputar a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, foi a fuga da concentração na cidade de Poços de Caldas, onde comissão técnica e jogadores estavam hospedados. Tal contravenção acabou sendo a gota d' água que faltava para o fim de um relacionamento que tinha tudo para dar mais que certo, mas que, por alguma dessas razões, não se consolidou. Quem, no entanto, não gostaria de ver um time com Garrincha na direita e Canhoteiro na esquerda?

Essa frustração, capaz de contagiar até aqueles que não o viram jogar, mas que tomaram conhecimento de seus feitos, pode ser amenizada com as palavras de Renato Pompeu na biografia do são-paulino: "Pode-se dizer, de maneira paradoxal, que tudo que Canhoteiro queria era ser feliz. E que, estranhamente, ele não se sentia feliz na seleção".

Outro traço de sua personalidade era o desapego às coisas materiais. "Em uma conversa franca, disse-lhe que precisava colocar a cabeça no lugar, pois poderia, com o futebol que tinha, ganhar muito dinheiro e garantir um futuro mais tranqüilo para si e sua família", explica Turcão. A resposta ouvida pelo ex-zagueiro tricolor mostra o grau de desprendimento de Canhoteiro. "Pode ficar tranqüilo, seu Chuare (sobrenome de Turcão), quando eu parar de jogar, vou comprar um carrinho para trabalhar na praça."

Em 1959, o atleta, que adorava a boemia, contundiu-se. Teve o joelho lesionado. A recuperação da operação nos meniscos foi lenta. Ainda assim, atuou pelo Tricolor por mais quatro anos antes de ser negociado e ir para o futebol mexicano. Nesse meio tempo, participou da inauguração parcial do Morumbi, em 1960. Quando retornou do México, retirou-se dos gramados para apenas apresentar-se em exibições de veteranos com a equipe Milionários.

Canhoteiro trabalhou ainda no Banespa (Banco do Estado de São Paulo). Faleceu, precocemente, em 16 de agosto de 1974 em decorrência de um acidente vascular cerebral. Tinha, apenas, 42 anos. Por ser um artista da bola, era e continua sendo reverenciado pelos poetas. Não só Chico Buarque rendeu-se ao talento do jogador. Os compositores Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, juntos, prestaram-lhe uma homenagem. A canção foi batizada com o nome do craque.



CANHOTEIRO
Por Fagner/Zeca Baleiro/Fausto Nilo/Celso Borges

Um anjo torto

Um canhoteiro

Um São José de Ribamar

Um bailarino

Um brasileiro

Um Paraíba

Um Ceará

Um pé de ouro

Um peladeiro

Mata no peito e beija o sol

Balão de couro

Bola de efeito

Mas que perfeito é o futebol

Corre dispara pára ginga e zás

(Corre dispara pára ginga e jazz)

Mais um zagueiro vai pro chão

Esse já era não levanta mais

Outros virão

Finta canhota, voa samurai

Lá vai a bola bala de canhão

Seu pé direito é a bomba que distrai

O esquerdo é o coração

Um belo drible

Decide o jogo

No grande baile do futebol

Só um artista

Um Canhoteiro

Acende a tarde inventa o sol



RECOMENDAMOS...

Para quem quer conhecer um pouco mais da história desse fantástico jogador, recomendamos sua biografia: Canhoteiro - O Homem Que Driblou a Glória, escrita pelo jornalista Renato Pompeu.



RAIO X

Nome: José Ribamar de Oliveira

Apelido: CANHOTEIRO

Nascimento: 24/09/1932

Local: Coroatá (MA)

Jogos disputados pelo SPFC: 411

Gols marcados: 104

Primeiro jogo pelo clube: C.A. Linense X São Paulo (amistoso realizado em 18/04/54)

Última partida: Corinthians x São Paulo (partida válida pelo Campeonato Paulista disputado no dia 04/08/63)

Outros clubes: Motoclube (MA), América (CE), Deportivo Nacional de Guadalajara e Toluca (Mex)

Saiba mais sobre Canhoteiro no site www.saopaulofc.net/especiais

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