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06/11/2008 15:17

Rogério Tenório: Reflexões acerca da alfabetização

Rogério Tenório de Moura

Segundo Miriam Lemle para ser alfabetizado o indivíduo deve apresentar três capacidades independentes , mas inseparáveis entre si: compreender as ligações simbólicas entre letras e sons da fala, enxergar as distinções entre as letras e distinguir os sons relevantes da fala.
Tais capacidades são fundamentais para que o indivíduo desenvolva a idéia de palavra, que é o centro da relação simbólica contida numa mensagem.
Por falta da percepção do que seja “palavra” originam-se os erros de falta de separação de palavras, por exemplo: “minhavó” ou “nonavio”, ou ainda com menor ocorrência a alocação errada de fronteiras vocabulares, como em “minha miga”.
Uma polêmica relevante levantada pelos alfabetizadores é a seguinte, um alfabetizando deve aprender a ler através de todos os tipos de palavras, mesmo através daquelas que não lhe representem significado algum? Métodos de alfabetização revolucionários como o de alfabetização de adultos de Paulo Freire defendem que não, segundo este método o alfabetizando deve começar a construir seus significantes, traçar paradigmas, através de instrumentos que façam parte de seu dia-a-dia.
Outro aspecto que precisa ser estabelecido desde o início da alfabetização do indivíduo é a compreensão da organização espacial da página. A maneira de olhar um texto não deve ser encarada pelo alfabetizando da mesma que observa uma foto. Deve-se deixar bem claro na cabeça do aluno que se lê e se escreve da esquerda para a direita e que a ordem significativa das linhas é de cima para baixo na página.
Há um dado momento na alfabetização que parece haver uma enorme lâmpada que se ascende na cabeça do alfabetizando, é quando ele descobre os vínculos das letras com os sons que estes representam, porém esta relação monogâmica entre som e escrita vai durar pouco tempo, pois o indivíduo perceberá que nem sempre uma letra representa o mesmo som (poligamia) e o educador nem deve manter o educando preso a esta etapa por muito tempo, pois se este fica retido nesta fase começara a se desinteressar por escrever, afinal quase tudo que ele escrever estará errado e pronto, sendo que o que mais parece é que a escrita está errada.
Neste momento devemos fazer o educando entender um pouco da evolução das línguas através de um pouco de história, tomemos a evolução da nossa língua como exemplo. Começaremos dizendo que: “A língua portuguesa veio do Latim, língua falada na Itália há muitos séculos atrás, porém era uma língua elaborada pelos nobres e muito difícil de ser falada, então o povo passou a falar um tipo de Latim muito diferente do Latim clássico, tido como correto, criou-se, assim, o Latim vulgar. Com a expansão dos domínios de Roma outros povos passaram a falar o Latim, porém também encontraram dificuldades e passaram a falá-lo à sua maneira. Então de acordo com cada região em que o Latim passou a ser falado cada povo ,em épocas diferentes, modificou um pouco a forma de falar que lhes foi ensinada, assim foram criados vários idiomas e dialetos como o português, que ainda hoje continua mudando.
Você já percebeu que nem todas as regiões do Brasil falam da mesma maneira e que nem todos os países que falam a língua portuguesa conseguem se comunicar muito bem?
Por causa dessas diferentes formas que as pessoa de cada região tem de falar o mesmo idioma é que existe apenas uma forma tida como correta para se escrever, afinal como é que nordestinos e sulistas poderiam se entender se na maneira de falar o idioma se torna muito diferente? Como é que um estudante estrangeiro iria estudar nossa língua se a forma escrita fosse sempre da mesma forma que falamos, quantas “variações padrão” do mesmo idioma iriam haver? Seria impossível aprender uma língua estrangeira.
É claro que essas situações de poligamia lingüistica trazem problemas para os alfabetizandos, mas é assim que as línguas são criadas, evoluem e não é por mera força de decreto que as pessoas vão parar de usar variedades lingüisticas. É claro que se fosse assim a identidade política do país seria firmada com grande facilidade, mas a realidade não é tão simples assim, e se as pessoas se comunicam em uma variedade lingüistica diferente da norma padrão e ainda assim dentro de um determinado grupo social se entendem, não podemos dizer que estão erradas, pois a sua maneira de falar cumpriu a sua devida função, a de comunicação; e se essa mesma variedade ganhar grande número de adeptos pode até, com o passar do tempo ser considerada certa, até para facilitar os estudos lingüisticos.
As situações de concorrência entre sons e letras vão ir desaparecendo aos poucos de acordo com a quantidade e qualidade de leitura do educando, portanto o professor não deve se ater demais a esse problema, mesmo porque essas dúvidas sobre o uso adequado do “s” ou do “z” por exemplo, vão nos acompanhar por toda a vida, só não podem, é claro, tomar proporções que atrapalhem nosso cotidiano.
Uma forma interessante de trabalhar a concorrência entre sons e letras com o educando é construir cartazes com palavras recortadas de revistas de uma lado com a letra “S”, por exemplo, que tenha som de /S/, já do outro palavras que tenham a letra “S”, mas com som de /Z/. Quanto mais trabalhadas essas formas de pesquisa mais o alfabetizando se abtuará a conviver com tais situações de conflito e passará, aos poucos a lidar com elas com naturalidade, ao menos na maior parte dos casos!
As letras terminais podem ser trabalhadas da mesma forma, observando-se por exemplo, quando o “L” assume a pronúncia do /u/, o “E” do /I/ o “O” de /u/ e assim por diante. Para tal conflito cabe uma hipótese verossímil:
“Para cada som numa dada posição, há uma dada letra; a cada letra numa dada posição, corresponde a um dado som”.
Pra ficar ainda mais claro na cabeça do alfabetizando é interessante colocá-lo diante de pronúncias diferentes das mesmas sílabas pronunciadas por pessoas de diferentes regiões do país, assim a questão do dialeto ficará bem lúcida.
Além do hábito de leitura algumas regras gramaticais ajudam a agrupar certas palavras por categorias e definir sua grafia, por exemplo, os adjetivos derivados de país grafam-se com “ês”: português, inglês, norueguês; já a terminação “ez” é usada nos substantivos derivados de substantivo, tais como: maciez, estupidez, sensatez...
O professor deve ter clara em sua mente a etapa em que seu aluno se encontra e respeitá-la, sem jamais se desfazer da forma de falar do meio ao qual o aluno pertence para não lhe causar a sensação de inferioridade, o que dificultaria, e muito, o progresso de seus estudos.
Há reconhecidamente duas formas de se alfabetizar, a primeira é ensinar primeiro as letras e depois passar a atribuir-lhes sons e finalmente ensinar a compor sílabas e palavras (método sistemático), a outra é mostrar primeiro as palavras ou frases e ensinar a identificar nelas as letras (método analítico).
Há ainda a leitura por adivinhação em que o aluno faz a leitura por blocos de palavras quase sem descodificá-las, porém o papel do educador é, sem dúvida fazer o aluno ser racionalmente bem sucedido utilizando a leitura-por-descodificação, isso na prática significa que o aluno poderá ler tudo, mesmo palavras que nunca tenha visto antes, isto porque a descodificação é sempre feita na ordem letras-sons-sentido.
Tão importante quanto não discriminar as variações lingüísticas é não colocarmos a língua em posição de honra depois de adaptada a uma determinada variação. Falta-nos base para afirmar que uma língua é melhor ou pior depois destas mudanças, mesmo porque a língua está sempre em mudança e, na prática, isto eqüivaleria a dizer que a língua é imperfeita, por isso estamos sempre em busca da melhor variação.
As variações sempre existiram e sempre vão existir, é natural que elas passem a ser consideradas corretas a partir do momento que a maioria dos falantes de uma dada língua a compreendem, trata-se da legitimação de uma fato compactuado informalmente pela coletividade.
É impossível que a língua escrita acompanhe o ritmo frenético de mudanças que a língua falada sofre no dia-a-dia de seus falantes, faz-se necessário existir um meio termo que equilibre o uso desta pelos seus falantes, ao menos nas questões oficiais (documentos, reuniões de negócios, etc.) e para podermos nos firmar politicamente como nação soberana e indissolúvel diante de outros Estados, expressando internacionalmente a nossa identidade, afinal o quê pode ser mais peculiar a um povo do que a sua própria língua ?!

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Lemle, Miriam. GUIA TEÓRICO DO ALFABETIZADOR. São Paulo. Ed. Ática.
1997. 12ª edição


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