Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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21/10/2009 07:03

Rogério Tenório: O trânsito nosso de cada dia

*Rogério Tenório de Moura

O fim do ano está chegando e a chiadeira é uníssona nas escolas, ninguém aguenta mais tanto projeto (além da obrigação básica de esgotar a ementa): é combate contra a dengue, campanha do agasalho, contra o tabagismo, de alimentação saudável, do meio-ambiente, de trânsito (às vezes brincamos erroneamente que ser professor, hodiernamente, é trabalho para Hércules, conversa fiada, nem o filho de Zeus daria conta do recado).

Não, amigo leitor, não estou querendo que você segure o lenço para eu chorar, como diz um colega meu de profissão: emas, emas, emas, cada um com os seus problemas. E já que o assunto é o problema cotidiano de cada um, nada mais apropriado que aproveitarmos este encontro virtual para falarmos do nosso problema diário! É, meu companheiro, mesmo se você não for professor, como eu, dia após dia tem de descascar ao menos um dos abacaxis acima: o trânsito.

Para quem está acostumado ao meu estilo ácido, às vezes um tanto quanto intempestivo, pode estar estranhando o tema abordado, explico: trânsito é questão de cidadania, de respeito pelo próximo, de zelo pelo perfeito funcionamento de um sistema de coisas que busca privilegiar o coletivo, em detrimento do indivíduo. Logo pergunto-lhe: há conceito mais fidedigno do que vem a ser cidadania que isso?

A Educação para o trânsito é muito mais que ensinar um conjunto de regras para que se garanta o fluxo contínuo e seguro de veículos e pedestres; é ensinar que ninguém é mais que ninguém, que em sociedade há momentos de avançar e momentos de recuar. É ensinar que quem é maior, mais poderoso, tem a obrigação ética e moral de zelar pelos mais fracos. É ensinar a cortesia, o espírito de cooperação e solidariedade. É preparar o indivíduo emocionalmente para o confronto com a diversidade sem perder a capacidade de empatia. Enfim, posso afirmar categoricamente, sem medo de ser piegas, que educar para o trânsito é educar para a vida!

É público e notório que a relação dos cidadãos de países desenvolvidos com seu trânsito é bem diferente da nossa, aliás não é à toa que morrem mais pessoas no trânsito brasileiro que em qualquer guerra em curso no planeta. Trata-se de uma questão de consciência de cada um; neste caso as autoridades pouco podem fazer: aumento do contingente policial aqui, uma câmera de segurança ali, manutenção nas estradas, leis mais rígidas, mas nada disso faz sentido algum se não houver uma mudança de mentalidade por parte dos condutores e, neste sentido, nós, “emergentes e subdesenvolvidos tomamos uma goleada dos desenvolvidos”, as estatísticas de trânsito corroboram minha afirmação.

Recentemente participei de uma série de seminários do Rotary em Birigui e dei boas gargalhadas com o depoimento de um juiz federal. Ele dizia que, quando estava fazendo seu doutorado na Inglaterra, foi flagrado por um guarda por excesso de velocidade. Ao ser gentilmente abordado por este, que lhe perguntou se estava com algum problema urgente, se poderia auxilia-lo em algo, pensou que poderia ser sincero e tudo ficaria por isto mesmo. Disse que havia se distraído um pouco e por isso excedera o limite. Para seu espanto ele foi pesadamente multado, mas não ficou só nisso. Lá, há uma audiência com um juiz na presença do oficial que o autuou para que se proceda o pagamento da multa ou sua contestação. O juiz o inquiriu sobre o motivo de sua infração e ele, ingenuamente, apresentou o mesmo motivo dado ao guarda. Result ado: além de ter de pagar a multa, foi condenado a sete meses de tratamento psicológico!

Meu irmão voltou recentemente da Irlanda, onde morou por mais de quatro anos. Lá a lei seca realmente funciona, as pessoas dirigem-se aos bares e restaurantes de carro, bebem (e olhe que bebem muiiiito), deixam seu carro estacionado diante do estabelecimento onde “tomaram todas”, chamam um táxi e vão para casa. No outro dia, depois de passada a “carraspana” voltam para buscar seu veículo. Ele morava sobre um restaurante e diz que aos domingos de manhã havia mais carros estacionados na avenida onde morava, a principal da cidade, que em qualquer dia da semana.

Afirma ele também que pedestre cego pode atravessar a rua sem temer nada, pois, embora a maioria procure usar a faixa de pedestres, se você levantar o braço indicando que irá atravessar a rua, em qualquer ponto, os veículos param todos na hora!

Em uma única situação ocorreu de um veículo frear encima da borda da faixa no momento em que ele atravessava a rua. O motorista desceu do carro pedindo-lhe perdão quase de joelhos e oferecendo-lhe carona! Dá pra acreditar?!

Em menos de uma semana em Cassilândia, quase foi atropelado por uma viatura da polícia, mesmo estando sobre a faixa de pedestres (aquela próxima ao Banco do Brasil). O condutor sequer olhou no retrovisor para verificar se estava tudo bem com sua quase vítima.

No entanto tal episódio não é nenhuma novidade para nós, pobres emergentes. Nosso trânsito é um mero reflexo de nossas relações sociais: distorcidas, vituperadas, escamoteadas...

Quem sabe, um dia, aprendamos o pleno exercício da cidadania com o trânsito dos europeus?



*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).


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