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24/05/2011 10:06

Rogério Tenório de Moura : "Adeus, pai"

*Rogério Tenório de Moura

Se houve uma coisa que a vida me ensinou, a duras penas, sobretudo nos últimos anos, foi a sempre enxergar o copo meio cheio. Tenho pena das pessoas que sempre enxergam o copo meio vazio. A vida para eles é um fardo insuportável.
Aprendi que a vida é cheia de oportunidades, todos os dias o sol ressurge no céu, brilhando para todos, mas muitos estão tão ocupados em busca de glória ou tão absortos em seus próprios umbigos que não tem tempo para vê-lo resplandecendo sobre nós. Perdem tempo demais com autocomiseração.
Aprendi com meu pai que a vida é mais, muito mais que o brilho dos holofotes, que a vida real se faz é cá embaixo, com o pé no chão, com o trabalho honesto e diligente que se faz metódica e diariamente.
Aliás aprendi tanta coisa com meu pai que sei que ele nem faz ideia. Gostava tanto de citar as palavras de sabedoria de seu próprio pai que praticamente não sobrava conselhos que ele mesmo pudesse nos dar. O que ele não sabia era que seus gestos falavam mais que as palavras. Com eles, aprendi que o bom trabalhador é aquele que faz além da sua obrigação, é o que chega primeiro e sai por último e ainda leva serviço para casa; que trabalhador honesto, não importa quão simples seja sua função, tem de ser respeitado; aprendi (não muito bem, confesso, mas me esforçarei para melhorar) que a diplomacia é o melhor caminho e que a caneta é mais poderosa que a espada; aprendi que mais vale um vizinho perto que um irmão longe, que o que a mão direita faz de bom para alguém a esquerda não precisa ficar sabendo; que quem se autopromove já teve a sua paga; aprendi o gosto pela leitura!
De tudo o que aprendi, o que certamente mais me marcou e sei que intrigava muita gente, e por isso será lembrado é o leque de amizades que mantinha. Mesmo sendo uma pessoa que exerceu cargos importantes na administração municipal ao longo de décadas, nunca escolheu amigos, eles é que o escolhiam. E eram dos mais variados, os garis com os quais batia papo na porta de casa, os guardas da praça que adorava frequentar, professores, médicos, funcionários da administração, advogados, aliás dentre estes é difícil me lembrar de algum, dos mais antigos na cidade, que não tenham ido em casa pedir conselhos a ele sobre questões do direito trabalhista e previdênciario.
Como todo homem à moda antiga, cria que homem não chora, por isso ia para o quintal chorar às escondidas a morte do meu irmão. Quantas foram as vezes que minha mãe me pediu que fosse ao cemitério atrás do meu pai, pois fazia horas que ele havia ido até lá e, por isso, estava preocupada! Quantas foram as vezes que o encontrei sobre o túmulo do meu irmão chorando copiosamente como quem quisesse arrancá-lo de lá com as próprias mãos e trazê-lo de volta à vida!
Sua partida pegou a todos de surpresa, ou talvez não! Como a maioria de nós, homens, que só vai ao médico quando está realmente passando muito mal, assim era ele. Creio que apostou alto em sua genética, meus avós e tios mais velhos morreram todos por volta dos noventa anos, ele era o caçula, estava com apenas sessenta e oito, logo tinha muito ainda a viver. Perdeu a aposta. Há anos não se consultava, não fazia exames, não tinha nenhuma atividade física, por mais que insistissemos para que os fizesse. Talvez tivéssemos que ter sido mais contundentes. Talvez ele devesse ter sido menos turrão. Talvez... são tantas as hipóteses e todas elas tão inúteis, neste momento, quanto querer saber quando será o nosso dia.
Se há consolo, e todos os que perdem um ente querido ficam em busca de um, é saber que nos últimos anos fomos mais que pai e filho, fomos grandes amigos, mas sempre fica um gosto na boca de que podia ter havido tempo para gente ser mais, para gente ter mais...
Não tenho mais o direito de te pedir conselhos, de ter crises de insegurança, de me recostar no teu peito, de olhar no teu rosto que o tempo fez mudar, de olhar teu olhar que tudo dizia sem a necessidade de nada falar. Agora vou tentando, vivendo e pedindo com loucura para você renascer em meus gestos, em meu olhar, em minha voz, pra que os filhos que um dia terei possam brincar de avô com você!
Neste momento, banhado em lágrimas, termino sonhando com a vida que poderia ter sido, mas não foi, com a certeza de que tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Você foi meu herói, meu bandido, aprendi muito com ambos. Espero ser tão importante para meus filhos quanto o senhor foi para mim. Valeu por tudo, pai!

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou” (Eclesiastes 3:1, 2)

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC.



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