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20/11/2005 06:59

Revista "Veja" destaca luta do ambientalista Franselmo

Graciliano Rocha/Campo Grande News

Na sua edição desta semana, a revista "Veja" traz um texto do colunista André Petry sobre a morte do ambientalista Francisco Ancelmo Gomes de Barros, que ateou fogo ao próprio corpo no sábado passado e morreu no domingo. Tocante, o colunista desvenda os últimos dias e a luta de Franselmo a partir dos olhos de Iracema de Barros. Iracema, diz o texto, mais do que uma viúva, mas uma companheira de jornada.

A seguir, o texto de Petry:



Francisco Ancelmo Gomes de Barros, o ambientalista que ateou fogo a si mesmo e morreu no dia seguinte, preparou sua morte com cuidado. Deixou dezesseis cartas para serem lidas depois de sua morte. Escreveu para a esposa, as irmãs, os amigos, mas também deixou bilhetes ao prefeito, ao promotor, a líderes religiosos, à imprensa. Disse em que capela queria ser velado, escolheu o cemitério, a cova e até a hora do enterro. Na entidade preservacionista da qual fora fundador, a Fuconams, deixou os documentos organizados. Entregou-se até à derradeira gentileza de pedir que umas revistas velhas fossem doadas para uma cabeleireira amiga.

Na noite anterior à imolação, deitou-se ao lado de sua mulher, Iracema de Barros, com quem dividiu o mesmo teto por 34 anos, cumulou-a de carícias e deixou-a adormecer com a cabeça pousada sobre seu ombro. No dia seguinte, à mesa do café-da-manhã, em vez do habitual beijo na testa, despediu-se da mulher com um abraço e um beijo na boca. Iracema, somando os dengos noturnos ao ardor matinal, assoprou a uma amiga: "Anuncia-se uma nova lua-de-mel".

No dia seguinte, Francelmo, como era conhecido, estava morto. Em vez da lua-de-mel, Iracema recebeu um bilhete de seu amigo Manoel de Barros, o grande poeta de Mato Grosso do Sul, que escreveu: "Foi uma imolação pela pátria que na terra do mensalão destoa". E arrematou: "Francelmo: o último herói do Brasil".

Francelmo entregou a vida em protesto contra a proposta do governador Zeca do PT de instalar uma usina de álcool no Pantanal. E deixou Iracema, aos 67 anos, solta na bruma de uma tragédia pessoal:

– O que a senhora sentiu quando soube do gesto de seu marido?

– Mágoa e revolta.

– E o que a senhora fez?

– Me fechei, fui chorar num cantinho, a casa já estava cheia de amigos. Examinei nossa vida para saber se eu tinha feito alguma coisa...

– Quando a senhora descobriu as cartas e soube que era tudo em defesa do Pantanal, o que pensou?

– Pensei: "Mas será que tudo isso era mais importante que a gente?"

– E a que conclusão chegou?

– Fui lendo as cartas, li a deixada para mim, e aí fui entendendo melhor.

Na carta a Iracema, Francelmo sugeriu que a mulher, diabética e com problemas num joelho, mudasse "para um apartamento térreo em frente à padaria Tietê". Cuidados assim foram amansando o espírito de Iracema. Francelmo falou ainda de sua certeza de que Iracema não agiria como uma "viúva desvairada" e, sendo forte e guerreira, enfrentaria mais essa com galhardia.

– Sobrou mágoa ou revolta?

– Nenhuma.

– Então, valeu a pena o gesto de seu marido?

– Ah, isso eu não sei... Espero que valha. Que seu desejo seja atendido. Mas, para mim, pessoalmente, é muito difícil. Vou levar o resto da vida precisando dele perto de mim.

Iracema não se comporta como uma "viúva desvairada" e também não se presta ao papel de viúva oficial do Pantanal. É admirável que saiba mover-se com elegante sinceridade num mundo que exige espetáculos – e em meio a dores tão fundas.

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