Cassilândia, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

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20/07/2016 09:30

Redesignação sexual: você sabe como é a cirurgia de mudança de sexo?

Saúde Plena

O impasse nos planos nacionais e municipais de educação, com a bancada conservadora defendendo a ideia de ideologia de gênero, desconsidera o que a ciência vem confirmando: ser transexual não é escolha. O debate vem ganhando mais espaço em filmes e fóruns na sociedade, dando mais voz a quem sempre foi marginalizado. Do destino tantas vezes fadado à prostituição e ao suicídio (a depressão atinge 60% das pessoas transgêneras, contra 5% da média geral), as pessoas trans têm conquistado espaço nas universidades e o respeito dos familiares, mas infelizmente essa ainda é uma condição de exceção.

Pessoas transexuais têm identidade de gênero diferente do sexo com o qual nasceram e podem manifestar, ou não, o desejo de se submeter a intervenções cirúrgicas para realizar a adequação dos seus atributos físicos de nascença, inclusive genitais, à sua identidade de gênero constituída. As técnicas de transgenitalização ou redesignação genérica ou sexual, popularmente conhecida como cirurgia de mudança de sexo, vêm avançando muito nos últimos anos, sendo a transformação da genitália masculina em feminina a mais disseminada e a de melhor resultado.

Isso porque para construir uma neovagina usa-se o pênis para formar a nova estrutura. Já para construir um neopênis é preciso estimular o clitóris. De acordo com José Cesário da Silva Almada Lima, professor e coordenador de cirurgia plástica do Hospital Universitário Ciências Médicas (HUCM-MG), que já fez 56 operações de redesignação, o resultado da cirurgia que constrói o pênis no lugar da vagina não é tão satisfatório quanto transformar o pênis em neovagina.

Essa última pode passar, inclusive, despercebida. Victória, nome fictício de uma mulher trans, já passou pela experiência de ser questionada por um parceiro se estava usando algum método contraceptivo, para evitar que engravidasse. “O resultado é muito bom. A ‘cara’ é perfeita, mas é uma vagina totalmente diferente. Desde que se use o óleo lubrificante de forma correta, próprio para a área, não dá para perceber que é uma vagina construída pela cirurgia plástica. Mas é uma vagina que contrai mais que a normal. Isso faz com que os homens precisem fazer mais força para a penetração, o que costuma dar mais prazer a eles”, conta Victória.

O NEOPÊNIS Para José Cesário, a cirurgia no caso do sexo biológico feminino é mais difícil porque é preciso retirar útero, ovários e anexos, o que exige dois ou três tempos cirúrgicos, já que as mamas têm de ser retiradas, embora alguns pacientes já façam isso previamente. “Em Nice, na França, é usado um procedimento que retira um retalho da pele do braço para construir o pênis. Esse método já está tão desenvolvido por lá que a cirurgia é capaz, inclusive, de criar conexões nervosas para o paciente ter ereção”, acrescenta o médico, que já fez três redesignações em pacientes nascidos do sexo feminino, mas se dedica mesmo à construção das neovaginas. “É uma cirurgia mais fácil, mais disseminada As técnicas estão evoluindo muito e é um trabalho muito sério”, explica.

IDENTIDADE DE GÊNERO
Enquanto o sexo biológico é o conjunto de informações cromossômicas, órgãos genitais, capacidades reprodutivas e características fisiológicas secundárias que distinguem machos e fêmeas, a identidade de gênero é uma experiência interna e individual de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos. Identidade de gênero, portanto, é a percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de alguma combinação dos dois, independente de sexo biológico. Trata-se da convicção íntima de uma pessoa de ser do gênero masculino (homem) ou do gênero feminino (mulher).
Fonte: Manual de Comunicação LGBT

Para a construção do neopênis, o paciente precisa tomar testosterona diariamente, o que deixa a voz mais grave, interrompe a menstruação, dá ganho de massa muscular e pode provocar a calvície, embora aumente o crescimento de pelos. Outra técnica visa o desenvolvimento do clitóris, que tem a mesma origem embrionária do pênis, embora um cresça e o outro não. Quando o clitóris alcança 6cm, ele é retirado do púbis para ser reimplantado e ter autonomia de movimento. A uretra é aumentada, usando tecido da antiga vagina. Os testículos são formados com o tecido dos grandes lábios vaginais, no qual são colocadas duas próteses esféricas de silicone.

A NEOVAGINA

No caso da construção da neovagina, tira-se apenas o testículo extirpado para que não haja risco de câncer no futuro. Todas as demais estruturas são aproveitadas para dar forma à neovagina. “Fazemos um esvaziamento do cilindro peniano e dos dois corpos cavernosos e corpo esponjoso, que viram a uretra. Fazemos uma inversão, como se virássemos o pênis ao avesso criando um canal entre o reto e próstata. Esse se torna o canal neovaginal. Em seguida, posicionamos os dois corpos cavernosos que ladeiam a neovagina, simulando o grande lábio. Exteriorizamos a uretra e cortamos o excesso para fazer o novo orifício. Com a pele da bolsa escrotal é feita a vulva. É preciso que a paciente use um molde por seis meses, para que não ocorra o fechamento do canal”, explica Cesário.

ORGASMO

A cirurgia para construção da neovagina demora cerca de duas horas e quarenta minutos. A paciente sai com um molde intravaginal com o qual precisa ficar cinco dias. A partir daí, vai trocar, diariamente, por moldes de tamanhos gradativamente maiores. Depois de dois meses, é colocado um molde rígido para dilatar a neovagina. “Depois de quatro meses, a paciente pode manter relações sexuais. O orgasmo é uma realidade e essas pacientes ficam, inclusive, com a libido acentuada. Isso porque grande parte do orgasmo tem origem hipotalâmica, que vem do encéfalo. A paciente que sonhava em ter seu órgão sexual feminino fica tão realizada com essa conquista, que tem o prazer aumentado”, diz o cirurgião.

O Hospital Universitário Ciências Médicas é pioneiro em Minas Gerais em cirurgias de redesignação sexual. Desde o primeiro caso, em 1999, já foram realizados cerca de 50 procedimentos. “O procedimento depende de uma série de aspectos, como segmentos pré-operatórios dos pontos de vista psicológico, psicanalítico e endocrinológico. Há também que se verificar se há o perfil efetivo da transexualidade”, explica José Cesário.

Atualmente, o HUCM-MG não faz a cirurgia por não estar cadastrado no Sistema Único de Saúde (SUS), embora exista esse interesse, segundo Cesário. Como é irreversível, é obrigatório o acompanhamento psicológico por no mínimo dois anos para que se firme o perfil de transsexual. Sem isso não operamos”, acrescenta o cirurgião. A maioria dos seus pacientes está hoje casada. “Elas levam a vida como qualquer outra mulher.” Victoria, por exemplo, é artista plástica e tem relacionamento estável. Ela pretende se casar, mas só depois alterar seu nome. Mas o estigma permanece. “Sou uma mulher trans, heterossexual. Quero ter uma vida normal como qualquer outra mulher. Lamentavelmente, muitos travestis estão envolvidos com sexo e prostituição, o que acaba prejudicando a imagem da pessoa transexual. A maioria nem sequer sabe a diferença entre uma travesti e um transexual”, lamenta.

Segundo a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), a travesti nasce do sexo masculino ou feminino, mas tem sua identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico, assumindo papéis de gênero diferentes daquele imposto pela sociedade. Muitas travestis modificam seus corpos por meio de hormônios, terapias, aplicações de silicone e/ou cirurgias plásticas, o que não é uma regra. Diferentemente das transexuais, as travestis não desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual.

PERSONAGEM DA NOTÍCIA
A realidade das pessoas transexuais é revelada no documentário Meu nome é Jacque, que aborda a diversidade pela história de vida de Jaqueline Rocha Côrtes, uma transexual brasileira que vive com Aids há mais de 20 anos. Apaixonada por Vítor, seu atual marido, Jacqueline não se envolveu até fazer a cirurgia. Segundo ela, ter o corpo de mulher, com o qual sempre se identificou, foi definidor para que experimentasse o prazer sexual que não conhecia das relações anteriores. “Eu dava prazer, mas não sentia prazer antes da redesignação”, conta a militante, que tem a vida marcada por lutas e conquistas, chegando a trabalhar como representante do governo brasileiro e na Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, casada e mãe de dois filhos, ela vive em Araruama (RJ), focada na família. Ao acompanhar o cotidiano atual de Jacque e revisitar sua trajetória, o documentário apresenta os desafios rompidos pela transexual e a importância do apoio da família para que ela se transformasse. Em um trecho do filme, uma das irmãs de Jacque conta o episódio da infância em que um colega da escola disse que seu irmão era gay. Em casa, a mãe de Jacque reuniu todos os filhos, pequenos à época, e disse: ‘O irmão de vocês é uma pessoa diferente. E isso faz com que vocês precisem protegê-lo ainda mais’. A aceitação da família com o fato de Jacque não se identificar com o gênero masculino contribuiu para sua realização como mulher. A transexual, que ocupou cargo no Ministério da Saúde e representou o Brasil em reuniões da ONU, reforça a realidade que José Cesário vê em seu consultório.

MEMÓRIA

Em 1910, as ilustrações de Gerda Weneger viraram sensação em Copenhague, Dinamarca, graças à modelo sensual que inspirava suas criações. A artista sempre dizia que era Lili Elbe (foto, D), sua cunhada, mas na verdade quem posava em trajes e poses femininas era seu marido, Einar Wegener, também pintor, que deixou sua arte quando se reconheceu mulher e se tornou Lili. A história é contada em A garota dinamarquesa, filme que deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante a Alicia Vikander, no papel de Gerda, e que teve seu ponto alto na interpretação do ator Eddie Redmayne, como Einar e, depois, Lili (foto, E). Alguns críticos afirmaram que o roteiro não retrata a verdadeira história de Lili. Fato é que ela entrou para a história como a primeira pessoa submetida a uma cirurgia de redesignação sexual, pelo menos da qual se tem notícia. Nascida na Dinamarca e registrada como Mogens Einar Wegener (1882-1931), Lili, na maior parte de sua vida, identificou-se como sendo do gênero masculino. Seu diário, publicado depois de sua morte como Man into woman, traz parte de seu sofrimento, e de sua felicidade, em poder se transformar em mulher. “Gostei da sensação suave daquelas roupas femininas. Me senti em casa com elas desde o primeiro momento”, revela um dos trechos. Lili buscou na Alemanha, naquela época, uma arriscada e experimental cirurgia de redesignação sexual. Uma série de cinco operações foi realizada em dois anos. A cada cirurgia a esperança e as complicações aumentavam. Lili morreu dias antes de completar 50 anos, sem saber o quanto inspiraria a luta das pessoas transexuais.

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