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16/11/2007 14:55

Recado do Cheida - Vingança de sanhaço

Luiz Carlos Cheida

- Sanhaço bom é sanhaço morto! – parodiou, em acordo com as normas e estatutos do bandido bom é bandido morto.



E, memorizando em código:
- Sb é sm! Isso eu guardo no célebro.



De posse dessa última abreviatura, armado de arame, facão e charuto, rumou para o miolo do mato.



Em Sapecão do Ozório, a notícia correu.



- Quinzão Medonho entrou no mato.
- Levando o quê?
- Facão, arame e charuto.
- É hoje!



Cada dona de casa trancou sua despensa. A comida estava garantida. E assim, a partir daí, a cidade inteira pôde só tagarelar.



Causos davam conta de que Quinzão já havia enfardado, em um só dia, mais sanhaço que toda Sapecão conseguira comer em uma semana. Lembranças da última caçada, quando sobrara pena para encher os travesseiros da cidade e penugem para arrematar muita almofada de sofá e reforçar colchão de casalzinho casado de novo. Não faltou quem lamentasse o passamento de dez vira-latas, sucumbidos no engasgo de osso de passarinho. Ou quem tomara entojo de sanhaço para o resto da vida.



Na praça, sob o sol das onze, as apostas corriam soltas. Conforme o tempo passava, cada um queria enfiar mais sanhaço na fieira de Quinzão.



Dentro do mato, ele nem bem chegou e já foi destroncando o primeiro pé de bambu que atravessou na frente. O facão entrou liso e lépido de um lado e lépido e liso saiu pelo outro.


Dividiu o encanamento da planta em taquarinhas, cuidando das farpas que costumam morar nos dedos da gente depois de operações como esta.


Deitou duas ripinhas, de barriga pra cima, e enroscou o arame em cada ponta. Trançou em cima. No quadrado que se formou embaixo, foi alternando uma taquarinha de cada lado, apertando-as contra o arame. Terminou. Com o braço direito esticado e a mão espalmada para cima, ergueu a obra na frente do nariz e declamou:



- Melhor arapuca que já fiz.



E, engrossando a veia do pescoço, praguejou:
- Sanhaço que se cuide!



A passarinhada entendeu. E sumiu.



Armou a tinhosa nos arredores de uma touceira de colonhão. Lugarzinho visitado por sanhaço daquela e outras matas. O capim amarelo, pela falta de água, recebeu bem a arapuca da mesma cor. Ficaram os três, ali, parecendo um só.



Como a visita das avezinhas demorava, resolveu tirar um cochilo. De olho pesado, e charuto aceso enfiado na boca, adormeceu. Foi quando uma brasinha de nada escapuliu do lugar certo para o lugar errado e, tomando gosto pelo capinzal seco, levantou uma parede de fogo que levou Quinzão a varar o matagal no peito, esfumaçando e apitando como Maria Fumaça.


Só parou duas léguas adiante a poder de muito cipó enroscado no pescoço.



Estava um tição. Por dentro e por fora.



Entrementes, na praça de Sapecão as apostas vicejavam. Quando o sanhaço de número quinhentos e doze foi enfiado na fieira, a sombra de Quinzão Medonho, com lua cheia por detrás, surgiu no fim da rua.


A multidão resfolegante, só parou na caixa do peito dele, quando viu seu chapéu queimado, sentiu cheiro de carvão e percebeu que, de Quinzão mesmo, só estavam ali o branco dos olhos e o risco dos dentes.



- Cadê os sanhaço, Medonho?



- Assei e comi.



E Sapecão do Ozório foi dormir.


De barriga vazia.


Um forte abraço e até sexta que vem.

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